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O Comprador de Sonhos

Agapito era um índio mexicano, camponês sem terra, pastor de ovelhas sem ovelhas. Isso fazia dele um peão.

Um peão é pobre no começo e mais que pobre no final, quando a força para trabalhar o abandona.

As pessoas de sua aldeia eram camponesas de fato, pois tinham uma terra para elas. Mas de que serve uma terra onde nada cresce?… Na sierra mexicana, a terra é vermelha e bonita como a pele dos homens e das mulheres índias, mas é árida.

E como nada se pode esperar de uma terra árida, Agapito, para não morrer de fome, desceu a sierra e buscou trabalho como peão numa plantação de cacau.

Durante três anos ele cuidou das árvores e colheu seus frutos maduros. Com o tempo, sua pele já tinha o cheiro do cacau. Mas Agapito não gostava desse cheiro e nem do calor úmido da região. Ele tinha muita saudade de sua sierra.

Para ter coragem, pensava no dia em que seu trabalho terminaria na fazenda de cacau. Nesse dia, ele voltaria a sua aldeia, levando consigo uma mala enorme, cheia de presentes para todos os seus amigos. E imaginava a gritaria que seria. “É Agapito que está de volta! Agapito está de volta!”… E nesse dia toda a aldeia estaria feliz, e Agapito mais que todos. Ele tinha tanta vontade de ser feliz!

Ao final de três longos anos, Agapito recebeu seu salário. Ele não compreendia muito bem as contas que fazia o capataz da plantação, um homem acostumado aos grandes cálculos e que falava muito rápido:

– Três anos, a tantos por ano… Aluguel e comida a descontar… Um poncho comprado a crédito… a descontar… Por sua negligência, dez árvores produziram menos… a descontar… Perda de uma machadinha… a descontar… Eis, então, seu ganho: três centavos em moedas de cobre. O próximo!

Agapito afastou-se lentamente. Na sua mão, ele tinha três centavos.. tres moedinhas de cobre. Era tudo!

À noitinha, Agapito chegou à pequena cidade próxima da plantação. Era uma cidade alegre e iluminada. As pessoas pareciam felizes. As lojas estavam cheias de coisas maravilhosas, os mercadores ambulantes ofereciam objetos lindos, mas caros… E Agapito tinha apenas três moedas de cobre. E ainda precisava pensar nas despesas com a alimentação durante a longa caminhada até sua aldeia.

Mas, quando Agapito deparou com a vitrine de um vendedor de doces, ficou deslumbrado. Havia na vitrine flores de açúcar impressionantemente lindas. Um centavo de cobre cada uma… Decididamente, Agapito comprou uma charmosa rosa de açúcar vermelho. A pequena Panchita, a deslumbrante filha da vizinha, teria este presente! Agapito comeria menos, e pronto!

Pouco a pouco as luzes da cidade foram se apagando, as janelas foram se fechando… E Agapito estava fatigado. Ele tinha fome, muita fome, mas preferiu deixar para comer no dia seguinte antes de se colocar a caminho de casa.

Um barulho de água levou-o até uma fonte pública, e ele bebeu avidamente para distrair o estômago. Já ia se afastando da fonte, quando viu um homem que segurava uma tigela vazia. Como o homem não tinha forças para ir até a fonte, Agapito aproximou-se timidamente, pegou a tigela e perguntou:

– Quereis água?

O homem levantou levemente as pálpebras. Ele parecia muito doente…

Quando Agapito entregou-lhe a tigela cheia de água, o homem não teve forças para segurá-la. Agapito deu-lhe então de beber, como se fosse uma criança.

Embora parecesse muito doente, o homem não tinha febre. Agapito compreendeu: quando um homem que não é velho nem tem febre está muito fraco para segurar uma tigela, sabe-se bem do que é que ele sofre…

Agapito correu até o vendedor de tortilhas, que lhe informou:

– Um centavo por uma farta porção!

Agapito, sem hesitar, comprou uma porção e a levou para o homem, que, ao ver as tortilhas, sorriu e começou a comê-las, uma a uma, suavemente, pois todos sabem que, quando se tem muita fome, é perigoso comer muito rápido. Quando terminou, olhou para Agapito e perguntou:

– Maia?

Agapito respondeu que sim, que ele era um índio maia das altas sierras.

– Eu sou pueblo – disse o homem, apontando para o norte. – Longe…

– Peão? – perguntou-lhe Agapito.

-Sim, mas acabou.

Agapito contou sua história ao homem pueblo. Contou-lhe também o quanto queria rever sua terra e seus amigos…

-Aqui – disse Agapito – eu não sou feliz… Na minha terra, não tenho o que comer… Como se deve fazer para ser feliz?

O pueblo, que escutava tudo em silêncio, olhou fixamente para Agapito, tirou do bolso uma coisa muito pequena e disse:

– Dê-me sua mão. Este é um presente para você… A felicidade, talvez… mas eu não sei.

E entregou a Agapito uma semente redonda da cor do ouro, fazendo-lhe, em seguida, um sinal para que o deixasse só.

Agapito cainhou pela cidade até que encontrou um cantinho perto da porta de um albergue, e por ali dormiu profundamente. De repente, acordou sobressaltado com um pesadelo horrível. Ele estava ainda na plantação e o capataz gritava:

– Agapito deve dez ponchos! Ele perdeu mil machadinhas! Ele deixou cem mil árvores morrer! Agapito tem de pagar suas dívidas! Ele deverá trabalhar na plantação trinta vezes três anos e, depois, mais dez vezes três anos, e ainda…

Já amanheceu e a porta do albergue estava aberta. De dentro vinha um cheiro delicioso e quente de tortilhas, enchilladas e chili com carne. Agapito tinha fome e entrou. Enquanto esperava para ser atendido pela bela servente, viu entrar um homem bem-disposto que dormira no albergue.

– Traga-me rápido a comida, Chica, e eu lhe contarei um belo sonho. Sonhei que uma deusa de longos cabelos negros era minha esposa. Nós morávamos bem no centro de uma floresta de ouro. Aquele que colhesse um galho de ouro na floresta estava livre da fome e de qualquer problema. E todas as pessoas vinham à nossa floresta. Elas colhiam braçadas de galhos de ouro e partiam felizes. E eu olhava toda aquela gente e me sentia ainda mais feliz. Não é um belo sonho?

– O mais bonito que já escutei em toda a minha vida, senhor.

Agapito ficou impressionado e pensou: “Este homem tem sorte: dormiu dentro do albergue e, sem dúvida, come sempre que tem fome. Ele não tem necessidade do seu sonho para estar feliz. Se eu gastar o último centavo que me resta com comida, amanha ainda terei fome. Mas, se eu comprar esse sonho, serei feliz pensando nele amanhã, depois de amanhã, na próxima primavera…”

A servente chegou com uma tigela fervendo, deliciosa. Serviu-a ao homem de sorte e já ia entregar outra a Agapito, quando ele se levantou, aproximou-se do homem e disse:

– Eu não vou comer.

– O que você quer? – perguntou-lhe o homem.

– O seu sonho. Eu quero comprá-lo.

O homem começou a rir daquela idéia tão extravagante, mas Agapito estava sério.

– Você quer comprar meu sonho? Mas para que ele poderá lhe servir?

– Ele servirá para me fazer feliz. É um sonho bonito… Aqui está o dinheiro.

Ele colocou sua última moeda sobre a mesa; o homem não podia acreditar.

– Um centavo? É pouco, mas ainda assim é muito para pagar um sonho. Guarde seu dinheiro e, se o sonho lhe agrada, ele é seu. Eu lhe dou meu sonho.

Agapito sentiu-se ofendido.

– Eu não estou mendigando.

Pegou sua moeda e já estava saindo do albergue, decepcionado, quando o homem o chamou.

– Se você quer mesmo comprar meu sonho, dê-me seu centavo. Eu lhe vendo meu sonho.

Agapito, entusiasmado, entregou-lhe sua última moeda.

– O sonho agora é meu?

– Claro. É um negócio honesto, completamente regular. Você é testemunha, Chica!

Chica aprovou seriamente o negócio:

– Claro, senhor. O senhor vendeu um belo sonho, ele foi pago e eu sou testemunha.

Esquecendo sua fome, Agapito saiu do albergue. Ele queria ficar sozinho para pensar no seu belo sonho. Mas a servente veio correndo atrás dele.

– Você vai partir para a sierra? Eu queria que passasse por Achulco, a aldeia onde mora minha mãe.

– E o que você quer que eu diga a ela?

– Conte a ela seu sonho. Minha mãe é sozinha e triste. Ela ficará feliz com a bela história de seu sonho.

Agapito estava confuso.

-Eu não sei contar histórias. Talvez o sonho não fique tão bonito se eu o contar.

E Chica respondeu:

– Mas é o seu sonho! Quem poderia contá-lo melhor?

Ela, então, entregou-lhe uma sacola com tortilhas, pão, tomate e pimenta.

– Tome! Este é meu presente para sua viagem.

Agapito tinha um longo caminho a percorrer, pois Achulco era longe. Ele chegou ao vilarejo no dia seguinte, à tarde, e pediu informações a uma mulher que lavava roupas na porta de casa.

– A Chica que trabalha na vila? Aquela é a casa de sua mãe. Mas não lhe dê más notícias.

– Eu trago boas notícias – disse Agapito.

– Vá logo, então!

A mulher deixou seu serviço e começou a chamar todas as outras para que também escutassem as novidades. Rapidamente a sala da casa estava cheia, e a mãe de Chica pediu silêncio:

– Este rapaz – disse ela – teve um sonho magnífico e minha filha o mandou aqui para que me contasse. Cada palavra de Agapito é a palavra da verdade. Chica é testemunha.

E Agapito começou a falar. Ele estava à vontade e as palavras chegavam-lhe facilmente. Chica tinha razão: esse sonho era dele, pois ele o contava tão bem!

– Uma floresta de ouro? E todo mundo poderia colher seus troncos? Eu também? – perguntou um velho, pensativo.

– Sim – disse Agapito. – Você e todos os outros.

– Então ninguém mais teria fome… É um belo sonho. Estamos felizes por ter escutado seu sonho.

A mãe de Chica estava orgulhosa de sua filha, que enviara aquele mensageiro a todos do vilarejo.

Agapito passou a noite ali e, quando partia, na manhã seguinte, um homem veio procurá-lo.

– Minha mulher e meus filhos moram num vilarejo a um dia de caminhada daqui. Se você passar por lá, poderia contar-lhes seu sonho?

Agapito consentiu e continuou seu caminho. O homem decidiu segui-lo, para ouvir mais uma vez o sonho.

A notícia corria de boca em boca, e Agapito precisou sair várias vezes de sua rota para contar seu sonho por encomenda de alguém. Mas o que fazer? Só um louco se recusaria a dar tanta alegria aos outros.

Um dia, finalmente, Agapito chegou ao seu próprio vilarejo. Logo na entrada, viu uma bela jovem com vestido vermelho e seu coração palpitou forte. Era Panchita, a filha da vizinha. Como se tornara linda!

– É você, Agapito? Como demorou a voltar!

– Eu lhe trouxe um presente.

Todas as crianças corriam pelas ruas para anunciar a chegada de Agapito. E à noite, em torno da fogueira, Agapito contou seu sonho a todos. Panchita, a seu lado, segurava com orgulho a rosa de açúcar. Ela parecia uma rainha e , com os olhos brilhantes, disse:

– Você trouxe as sementes das quais nascerá a floresta?

– Eu tenho uma semente.

E todos viram aquela semente cor de ouro. Agapito contou como a ganhara e o que lhe dissera o pueblo.

Uma senhora idosa abaixou-se e examinou a semente.

– É um grão d’ixium, o milho. Mas essa felicidade não é para nós. Há muito tempo, um homem do vilarejo matou um ganso selvagem que era mensageiro da grande deusa do milho. Ela se irritou e proibiu o milho de brotar em nossas terras.

– E foi há muito tempo? – perguntou Panchita.

– Há muito tempo – confirmou a senhora.

– Talvez as coisas tenham mudado… Vamos plantá-lo! – sugeriu Agapito.

– Sim, vamos plantá-lo, Agapito! – disseram todos.

Agapito plantou o grão de milho imediatamente.

Numa manhã de outono, quando Agapito saiu de casa, viu gansos selvagens voando bem alto no céu. Era sinal de boa colheita. Agapito correu até os campos e lá havia uma bela floresta: o milho amadurecera e, de tão bonito, de tão maduro, parecia de ouro. E, no meio daquela floresta dourada, Panchita dançava com os cabelos soltos ao vento. E, de tão bela, parecia uma deusa!

(do livro – O Ofício do contador de histórias – Gislayne Avelar Matos e Inno Sorsy).

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