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Conversa com a pedra

corpo pétreo_kelly saura

Por Kelly Saura*

Bato à porta da pedra. – Sou eu, deixa-me entrar. Quero penetrar no teu interior, olhar ao redor, prender-te como a respiração.

– Não tenho porta. – diz a pedra.

Bato à porta da pedra. – Sou eu, deixa-me entrar. Venho por curiosidade pura. A vida é a única ocasião para mim. Não tenho muito tempo para tanto. Minha mortalidade deveria te comover.

– Sai. – diz a pedra.

Bato à porta da pedra. – Sou eu, deixa-me entrar. Não busco em ti um refúgio para a eternidade. Não sou infeliz. Não estou desabrigada. Meu mundo é digno de retorno. Vou entrar e sair com as mãos vazias. E como prova de que realmente estive presente, não vou mostrar nada além de palavras às quais ninguém dará fé.

– Sou hermeticamente fechada. – diz a pedra. Mesmo quebradas em pedaços vamos ficar hermeticamente fechadas. Mesmo trituradas em grãos não vamos deixar ninguém entrar.

Bato à porta da pedra. – Sou eu, deixa-me entrar. Não posso esperar dois mil séculos para entrar debaixo do teu teto.

Bato à porta da pedra. – Sou eu, deixa-me entrar.

– Sou de pedra. – diz a pedra.

* editado do poema Conversa com a pedra, de Wislawa Szymborska.

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