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Case do violão

Por Isadora Zamarque

Era a última noite da Macuca e a mais fria. Correntes é um município no agreste pernambucano. No agreste funciona assim: muito calor de dia, muito frio à noite. Estávamos no mato acampados.

Fogueira, poesia, violão, lua cheia e cachaça. Eu fui pra perto da fogueira me aquecer, não adiantou, eu estava pouco agasalhada. Até tentava dormir ali, mas nada adiantava, eu estava num processo em que meus músculos e nervos dançavam um coco, dos rurais.

Fui pra barraca na esperança de me aquecer. Era uma barraca república, outras pessoas dormiam ali também. Cheguei e tinha um casal dormindo bem aquecidinho, uma lagriminha caiu dura: “Eu quero, quero, quero”. Deitei, mas meus nervos e músculos já dançavam um cavalo marinho ali, eu me contorcia. Achei um casaco pequeno, consegui cobrir as pernas que estavam mais nuas. Não resolveu.

Olhei para o lado e o casal quentinho, a moça é que ficava do meu lado, pensei em acordá-la e pedir para abraçá-la. Isadora, sua insana, ela vai se assustar. Fui fazendo origami de mim, me dobrei tanto que professores de Yoga se orgulhariam, mas o frio não passava. Pensei em acordar a moça aquecidinha com semblante de calefação: “Não, deixe disso, que ideia é essa?”.

Comecei a procurar coisas úteis que pudessem me aquecer, uma mochila talvez. Não! Achei um case de violão. Meus olhinhos brilharam, ali eu me enfiei, ali eu consegui não morrer. Eu pensei na morte diante de tamanho frio e que eu não tinha falado de amor o suficiente pr’aquelas e pr’aqueles, não podia crer que aquele seria o meu fim. Não foi, de fato.

Amanheceu. O sol me torrou dentro da barraca, mas a gratidão de sobrevivência foi tanta que eu saí daquele case de violão feito borboleta quando sai do casulo, e ainda saudando o sol. Namastê, namastê!

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