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[VIAGES ALTAMENTE INSIGHT] ‘What porra is this’ ou Como a gente chegou até aqui

Ilustração: ‘Índio brasileiro’, por Moa Lago

Por Germano Rabello* |

Aqui estamos. Pegos de surpresa quando um louco chega com força nas eleições. Isso funciona em muitos níveis. Não é um fenômeno isolado. É um azarão chegando lá, mas tem um contexto. O que está acontecendo nesse momento no Brasil é uma disputa que envolve narrativas, visões de mundo, graus de profundidade no envolvimento com as coisas. Graus de abertura para a realidade.

PARTE 1: A REALIDADE E A GUERRA DE INFORMAÇÃO

A realidade é grande demais. Nós a recebemos, ela está ao nosso redor. Mas não percebemos diretamente. Precisamos criar narrativas sobre ela. Essa narrativa surge a partir das nossas máscaras, ilusões e interesses, mas ainda assim deveria ser suficiente para garantir um mínimo de conexão com a realidade. Surgem alguns obstáculos.

Temos em primeiro lugar o instinto de manada que nos leva a desprezar nossas próprias impressões para seguir junto com a maioria. E em segundo lugar, formamos nossas opiniões a partir das notícias que recebemos. E essas notícias não são puras, são tendenciosas. As grandes empresas da comunicação do Brasil, emissoras de TV, revistas, jornais, praticam há décadas um jornalismo criminoso, parcial, tendencioso.

A Rede Globo que favoreceu Collor no debate com Lula em 1989 ainda é a mesma de hoje. A revista Veja toca seu samba de uma nota só contra o PT durante duas décadas. Bandeirantes, Record e Rede TV violaram lei eleitoral ao privilegiar Bolsonaro.

Nada contra criticar o PT, mas tudo contra o anti-petismo, que transformou-se em algo muito diferente, uma histeria política coletiva que embruteceu o debate no Brasil. Aceita cegamente a perseguição exclusiva a um grupo, criando assim um efeito de distração conveniente aos outros partidos (e judiciário, mídia, empresas, igrejas universais). Espanta que um adulto entre nessa ladainha monotemática.

A intenção deliberada é sabotar e destruir qualquer possibilidade de governo de esquerda no Brasil. Mesmo considerando o quanto o governo do PT foi moderado, mais centro. A falta de informação e o conservadorismo transformam essas gestões moderadas em ameaça comunista, que jamais houve. Tanto nos anos 1960 como agora. Manipulação e distorção da realidade, bodes expiatórios. Cai Dilma, cai Lula, e a depender da sua narrativa, você lamenta ou comemora. O certo é que o Brasil retrocedeu no governo Temer.

Colaram a etiqueta de “ladrão” no Partido dos Trabalhadores, tão conveniente e tão preconceituosa como naqueles livros de mistério em que o criminoso é o mordomo, a classe trabalhadora. As denúncias de corrupção não são totalmente isentas, tem um alvo bem definido que deve ser combatido pelo status quo. Mas se você deliberadamente ignora a formação desse golpe, ignora a conivência da imprensa, do judiciário e distorce tudo, não tem como argumentar com você. Isso é terrível e sinal de nossa imaturidade: debate sobre corrupção historicamente tem servido para a classe média brasileira dar poder aos militares.

E chega a uma campanha totalmente atípica. O candidato Jairzinho Bozoneura se esquiva dos debates, notadamente por não saber falar. Tem por trás a empresa Cambridge Analytics, que através de notícias falsas elegeu Trump nos EUA. Dinheiro grande está sendo movimentado para eleger esse cara, pode acreditar. Muitos absurdos andam circulando. Informação nova: investigações estão apontando que empresas estão bancando o disparo de mensagens anti-PT nas redes, com contratos que chegam a 12 milhões de reais. Essa quantia é maior que a permitida, e viola a lei por ser doação não declarada, implicando em Caixa 2. Deu na Folha de São Paulo.

Da mesma forma, com todos os defeitos possíveis, o projeto do PT é um projeto de Brasil. Do outro lado, temos um ex-militar que propõe apenas um projeto de poder. Existem certamente interesses de que o Brasil entre no caos, que nossas empresas sejam privatizadas, ou seja: entreguismo à FHC/ Temer com o autoritarismo militar e incentivo à violência da população. Não consigo imaginar cenário mais catastrófico, inclusive porque o vice Mourão é tão ruim ou pior do que ele.

PARTE 2: LUCIDEZ

Do ponto de vista esotérico, o que explica a pobreza da discussão política no Brasil e esse fenômeno Bolsonarista? Pra mim a melhor resposta é: sono profundo. Quando o esoterismo usa o termo “despertar”, não significa que todo mundo vai virar bonzinho, santo. É um processo de mudança de estado do ser. Incluindo aí a percepção da realidade. Você não precisa chegar à iluminação, mas pode tentar incorporar ética e atenção plena na sua vida.

Como uma nação, nós estamos dormindo demais. Existe aquela história da filósofa judia Hanah Arendt, que descobriu ao conhecer um dos altos funcionários do nazismo, Eichmann, uma pessoa absolutamente normal. De onde ela forjou um conceito chamado “banalidade do mal”. Eichmann não era exatamente mau no sentido identificável do termo. Mas entregou completamente sua vontade à autoridade maior, se tornando uma impecável peça no sistema que matou milhões de judeus na 2ª Guerra Mundial.

Tem um pouco disso no seu tio que se informa pelo zap, né? Um processo de delegar autoridade ao outro. De não querer enxergar o que tá bem na vista dele, de quanta violência tá explícita nos discursos e ações do seu candidato. Isso se soma à nossa formação política que é de baixíssimo nível. Somos um povo que evita muito as questões, que se exime de se informar e debater. E se a gente passa mais tempo no Zap e no Face do que na vida real, as possibilidades de manipulação se multiplicam.

E quando a exaltação às armas, à tortura, à intolerância, começa a ganhar corpo nas ruas? Isso tem sido o efeito direto do discurso Bolsonarista. O incentivo à brutalidade. Nunca houve isso nas eleições diretas para presidente, essa onda de violência e ameaças. É irresponsável da parte do candidato.

Somos uma sociedade desigual. Não tem como mudar sem entrar em certas questões tensas. Ao mínimo sinal de distribuição de renda, democratização da educação, a ordem vigente sente-se ameaçada. Tantas histórias que a gente precisa perceber. O massacre dos indígenas, a escravidão dos negros, as ditaduras que atravessamos… Essa dificuldade cognitiva certamente expressa algo de nós que nos recusamos a ver.

O que nos atrasa é passar pelas situações sem aprender. Algo nos foi revelado, sobre as fraturas da nossa sociedade. Hora de começar a dialogar pra criar um país mais firmado em alicerces comuns.

Esse desafio é tanto político como espiritual. Nesse momento, é fundamental escolher um lado. E o lado que eu escolho certamente não é o dos autoritários e preconceituosos. Conservar a compaixão, sim, mas jamais relativizar qualquer afronta aos direitos humanos. Democracia, amor, acolhimento, harmonia, justiça, convívio e aceitação das diferenças. Por todos nós.

Obs: “What porra is this” é o título de um disco do compositor cearense Falcão, de 2006.

LINKS INDICADOS:
Artigo de Fabiana Moraes sobre os perigos da relativização do discurso de Bolsonaro: https://piaui.folha.uol.com.br/imprensa-precisa-fazer-autocritica/?doing_wp_cron=1539527238.3179481029510498046875&fbclid=IwAR201wNSmr9C_2FfwOAbApObwUAkqlAh4CN7x6BhDhFGLaKqmx9c4JIdFHo

Artigo sobre o financiamento da campanha de Bolsonaro: https://www.cartacapital.com.br/politica/empresarios-bancaram-campanha-anti-pt-pelo-whatsapp-diz-jornal

* Germano Rabello é músico/ compositor, poeta (não somos todos?), escritor, roteirista, ilustrador, faz HQs e zines, de vez em quando curtas. Nasceu do casamento de uma psicóloga e um historiador.Também conhecido como German Ra, integra a banda Sabiá Sensível e é formado em jornalismo. Vai por aí em busca das curtições e das emanações de sabedoria.
Contato: germanra@gmail.com

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