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‘Homens fracos e mulheres fortes? E agora?’

Por Luiz Marcelo Oliveira
(luizmbdo@gmail.com)

Ontem uma grande amiga me perguntou: – Lula, os homens estão muito fracos ou sou eu que estou dando azar? Conversas sobre gênero, sexo e amor sempre seduzem as madrugadas. Por mais que desfilemos auto-suficiência pra esconder nossas carências mais simples, o coração de grande parte das pessoas está apreensivo: nas academias, boates e shoppings sonha com um par e não com alguém que suma à francesa. Paixão fast food.

Homens e mulheres parecem estar em crise. Eu me pergunto: – já foi diferente? E tendo a crer que este é nosso momento mais favorável. Por quê? Por muito tempo o homem subjugou a mulher pela força, pela coerção e pelo medo enquanto ela se aceitava incapaz e dependente. Às vezes tais enredos renascem em nossos próprios jogos de poder com o parceiro. Em ressentimentos e fantasias sexuais. Abusos, crimes, fogueiras, traições e vinganças. Mulheres assassinadas na Ásia. Tudo isso está dentro de nós: o homem egoísta e colonizador, a mulher assustada e indefesa.

Mas há outras paisagens agora. A mulher felizmente reagiu com sutiãs em chamas. Bruxas contemporâneas, antes podadas pela moral machista dos padres, reconhecem o poder dos encantos, dos feitiços, da arte de estar em contato com a própria natureza. Os ciclos, as luas, a sexualidade. O homem também se abre à alma do feminino. Mergulha no universo de sentir e assim pela primeira vez toca a própria fragilidade. É maravilhoso: ela se redescobre forte e ele sensível. Depois de tantos anos sendo domesticada ela resgata seu poder mais natural. Enquanto ele após séculos de calabouço afetivo ouve as emoções. Ambos merecem conhecer os espaços que lhes foram negados. É mais do que justo.

Talvez assim reconheçam a imensa importância da energia oposta. Ela tem a chance de perceber o valor do comando, do provimento, da guarida por ter-se experimentado na guerra. Não mais se sentirá ameaçada ou menor quando conduzida. Ele pode perceber o valor do cuidado, da atenção e do calor por ter-se experimentado no ninar das crianças. Já não se sentirá tolo ou frágil quando acolhido. Quem sabe nesta aparente troca de papéis, masculino e feminino enfim se vejam, se convidem e se beijem com fogo e gratidão ao invés de se maltratarem fingindo que não mais precisam um do outro.

Na etapa atual do processo alquímico talvez o homem tenha se constrangido demais, negando a própria força e se esquivando de ser ativo. A mulher parece ter confundido liberdade com vingança, imitando a superioridade machista numa versão “agora sou eu quem está por cima, baby”, ignorando saberes milenares da arte do coração e gabando-se imatura como se a felicidade fosse um artigo de conquista e não de partilha. Mas tudo isso faz parte do nosso processo de amadurecimento. Sim, precisamos de calma e paciência. Este não é o fim. Não acredito que nosso destino seja o desencontro de homens fracos e mulheres fortes ou vice versa – este é o antigo padrão em que alguém precisa ser soberano pra disfarçar a própria dor. Mesmo assim, creio que nós jamais tenhamos nos conhecido tão intimamente (ainda que haja tanto por descobrir). Hoje nos surge a oportunidade de unir liberdade, autonomia e potência a gestos aparentemente frágeis de carinho, colo e acolhimento. Força e iniciativa saúdam entrega e sensualidade. Isso dá tesão. Dá liga. Enche de paz. Nossa, pela primeira vez estamos nos vendo de verdade.

* Luiz Marcelo Oliveira é psicólogo e facilitador de grupos

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