Fique por dentro das novidades do Flores no Ar!
  • Facebook
  • Twitter

Arquivos

Flores no Ar Logotipo do Portal Flores no Ar

[CAIXA DE PANDORA] Transformação não se ensina

Imagem: Juliana Lombardi

Por Juliana Florencio* |

“Cedo ou tarde, você vai aprender, assim como eu aprendi, que existe uma diferença entre conhecer o caminho e trilhar o caminho.”
(Morpheus, no filme Matrix)

A terapia junguiana e a arteterapia não têm como objetivo a educação.

A terapeuta experimenta em si mesmo o processo de transformação da/o cliente.

Funciona como o Mercúrio da Alquimia, o elemento que coloca as partes em relação.

Elementos, antes aparentemente desconectados, se ligam, se interligam e se transformam.

No trabalho com um sonho, por exemplo, a terapeuta, a partir desta função mercurial, oferece uma leitura que conecta conteúdos e aspectos da própria cliente, bem como seus componentes históricos, conhecimentos psicológicos e imagens do inconsciente coletivo.

Um dos objetivos do processo analítico é que a/o cliente desenvolva essa função mercurial em si.

Em relação à terapeuta, é fundamental que esta reconheça e elabore seu próprio “repertório de emoções” – como diria López-Pedraza -, a fim de, também, afinar suas capacidades mercuriais.

Mercúrio, para os gregos é Hermes, que na mesma mitologia é o deus que rege as comunicações, as trocas, os fluxos.

Hermes, aquele que carrega o caduceu e tem as sandálias aladas, é o único deus do Olimpo que pode entrar no Reino dos Mortos (o Hades) e sair. Dessa forma, Hermes conecta o Submundo, a Terra e os Céus.

A terapeuta funciona como Hermes interligando os fluxos entre “os mundos” da/o cliente, favorecendo esses contatos, as trocas e as transformações.

Temos visto uma tendência de se propor pacotes de solução para questões da vida baseados em modelos de crenças e treinamentos. Se o objetivo dessas iniciativas for educacional, talvez tenha alguma funcionalidade.

Porém, para um trabalho mais aprofundado, com base na singularidade e no desenvolvimento de cada um/a, a abertura para ‘a novidade’ deve ser cultivada.

A capacidade de se surpreender com o que cada cliente traz, torna-se fundamental para manter o processo terapêutico vivo.

Muitas vezes, precisamos descer às profundezas e subir aos céus. E isso é muito particular, pois cada um/a é um universo. Para que a alquimia ocorra, é necessário acessar Hermes e “pedir” que ele ajude na condução dos conteúdos.

Por outro lado, os métodos/”pacotes”, acima referidos como tendência, já vêm com um objetivo e uma forma de resolução mais ou menos pronta: “faça assim e acredite assim que você chegará a um determinado objetivo.” Talvez esse caminho tenha funcionado para alguém, mas não significa que sirva para todos.

Além do mais, essa previsibilidade encarcera o potencial criativo e cerceia as possibilidades de desenvolvimento.

No caso de uma terapia mais profunda, os caminhos estão a serem construídos e os resultados não são previsíveis, embora traga os benefícios já conhecidos.

“Tenho procurado em muitos livros,
Tenho estudado as teorias dos astrônomos,
Tenho procurado inumeráveis argumentos.
No entanto não tenho encontrado nada mais poderoso que o destino.”
(Eurípedes)

Por isso a importância da/o terapeuta, também, estar neste caminho guiado por Hermes.

Os conhecimentos teóricos são importantíssimos, mas não bastam.

É necessária, também, uma base emocional, de maturidade e de experiências, para poder acolher não só a dor, mas os potenciais e a capacidade criativa do outro.

Dessa forma, a habilidade para costurar a teoria e o vivido torna-se fundamental.

A terapeuta faz o caminho junto com a/o cliente.

Ela precisa estar disposta a ser afetada.

Ao mesmo tempo deve estar atenta para os efeitos que estes encontros provocam em si mesmo.

Por isso digo que a transformação não se ensina.

Requer uma implicação profunda.

Adentrar no mar do eu desconhecido.

Encontrar as próprias esquinas sombrias.

Surpreender-se (sim!) com os lados luminosos soterrados, para poder, também, acolhê-los.

Obs.: Imagem linda e potente de Juliana Lombardi, xará e parceira, fotógrafa, facilitadora e coordenadora regional de SoulCollage® (Recife), acadêmica de Psicologia e Arteterapeuta em formação.

*Juliana Florencio é psicóloga junguiana e arteterapeuta. Recifense de coração, atualmente mora na Alemanha. Realiza atendimentos online. Escreve mensalmente a coluna Caixa de Pandora, neste Portal Flores no Ar.

Whatsapp: +49 15153187019
Instagram/Facebook: @julianaflorenciopsicologia
Site: www.juliana-florencio.com
E-mail: juflorenciocs@gmail.com

Leave a comment