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[CAIXA DE PANDORA] O estado laico é uma bênção!

| Por Juliana Florencio* |

Estive no começo desta semana numa cidade pequena da Dinamarca chamada Faaborg. Durante o passeio pela praça principal me deparei com uma escultura de uma vaca, na qual tinha um homem nu, aparentemente mamando nela, e um bebê. A obra estava lá…. placidamente colocada no meio da praça de uma cidade de sete mil habitantes, cheia de velhinhos.

Fui tomada pela tentativa de assimilar aquela escultura, mas ao mesmo tempo me veio a ideia de que no Brasil, e principalmente nos dias atuais, essa escultura não seria possível numa praça pública (e nem dentro de um museu, como vimos recentemente no episódio da mostra Queer).

Em terras brasileiras os moralistas, religiosos diriam se tratar de apologia à zoofilia e que incentivaria as crianças a desenvolverem uma sexualidade pervertida. (Pasmem! A teoria da tábula rasa deveria ser a nova religião no Brasil! Ironias à parte, continuemos…)

Ora, o que está exposto ali na praça de Faaborg é uma peça de arte… talvez falasse da história/mitologia da cidade… vi várias esculturas de vacas e bois por lá… Eu como psicóloga junguiana pensei em hierosgamos (imagem casamento sagrado). Trata-se também de uma região cheia de bois e vacas no entorno.

Depois, na mesma cidade, houve meu casamento, realizado por uma funcionária do cartório. Na simples cerimônia ela falou sobre amizade, amor, respeito… não falou nenhum momento em Deus, afinal estávamos num ato civil e o estado da Dinamarca é realmente laico.

Este país foi o primeiro a reconhecer as parcerias registradas entre pessoas do mesmo sexo.

Nessa cidadezinha pude respirar o “espírito” laico e o senti com uma profunda sensação de respeito e liberdade.

Ora, a Dinamarca tem em suas raízes a rica mitologia e religiosidade viking. Depois veio a cristianização. Atualmente a maioria confessa a fé cristã evangélica luterana, mas os aspectos religiosos não influenciam as decisões políticas. Essa é a essência do estado laico – as questões religiosas não influenciam a governabilidade e as pessoas têm liberdade de culto. O estado laico não é estado ateu!

O Brasil tem passado por um período bastante ameaçador das liberdades e direitos alcançados com muita luta. O uso do nome de Deus tem se banalizado a fim de promover determinados projetos ideológicos e políticos.

Ora, a religiosidade é de caráter pessoal. Vivenciá-la ou não é direito individual. A laicidade é um avanço no processo histórico da humanidade.

As religiões têm sido usadas, desde sempre, como forma de dominação. As pregações falam que uma sociedade “sem Deus” seria desastroso, caótico, apocalíptico.

Mas vejamos o exemplo da Dinamarca:

“A Dinamarca possui o mais alto nível de igualdade de riqueza do mundo, sendo considerado em 2011 o país com menor índice de desigualdade social no mundo. (…) De 2006 a 2008, pesquisas classificaram a Dinamarca como “o lugar mais feliz do mundo”, com base em seu princípio de saúde, bem-estar, assistência social e educação universal. O índice Global de Paz de 2009 classificou a Dinamarca como o segundo país mais pacífico do mundo (…) A Dinamarca também foi classificada como o país menos corrupto em 2008.” (Fonte: Wikipedia)

Não quero discutir definições de felicidade neste texto, mas vemos que um país laico como este, e muitos outros, está longe de ser apocalíptico ou caótico.

Fatores como busca pela igualdade, distribuição de renda e garantia de direitos estão obviamente mais relacionados com o bem estar/felicidade de um povo do que seguir determinada religião ou postura moralista.

A questão não é ter Deus ou não ter Deus… mas sim o uso das religiões como ferramenta para legitimação de uma proposta política.

É absurdo e total retrocesso precisarmos discutir isso em pleno 2018! Mas precisamos…

Deus não precisa de advogados para mantê-lo vivo.

O próprio Jesus disse: “O meu reino não é deste mundo.” (João 18:36)

Jung enxergou a importância da busca pela transcendência para o ser humano. Mas, ao mesmo tempo, percebeu que os dogmas e as regras impostas pelas religiões podem se tornar mais importantes do que o real relacionamento com Deus. Neste sentido, as religiões instituídas poderiam afastar as pessoas do Sagrado.

Entendo que o uso do nome de Deus por políticos e a receptibilidade deste apelo por parte da sociedade, trata-se, infelizmente, de um enfraquecimento do estado democrático de direito e das instituições promotoras do funcionamento social. Em meio a tantas inseguranças, torna-se mais fácil apelar pra religião, ou para um regime militar, a fim de suprir a necessidade de ordem.

Estamos lidando com um pensamento infantil, como se as pessoas que apoiassem esse tipo de projeto dissessem: “Cansei de ser adulto! Quero papai de volta pra botar ordem nisso aqui.”. E quando chegamos a este ponto, a situação fica perigosa, pois entregamos a nossa responsabilidade política para o outro – políticos religiosos com discursos moralistas, ou militares, que exerceriam a mesma função paterna.

A democracia é feita horizontalmente, por iguais, por “irmãos”. Por isso dá trabalho, requer diálogo, participação e, sobretudo, maturidade. Ela nos convoca para a responsabilização, para a implicação no nosso destino como sociedade. A real democracia é um avanço civilizatório e devemos lutar por ela.

A transcendência, a espiritualidade têm um lugar importante para o ser humano, mas ela é de cunho privado, individual. A busca por uma experiência com o Sagrado, com o Divino é pessoal. Políticos não deveriam usar a religião para se promoverem. Não deveriam chantagear espiritualmente seus eleitores. Isso é amoral. O caminho para o relacionamento com Deus (se assim se quiser) deve ser livre e consciente.

*Juliana Florencio é psicóloga, arteterapeuta e consteladora familiar sistêmica. Recifense de coração, atualmente mora na Alemanha. Realiza atendimentos online. Escreve mensalmente a coluna Caixa de Pandora, neste Portal Flores no Ar.

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