[A MULHER NÔMADE] Todos os Nomes (toponímia sarda)
| Por Kelly Saura |
Cada vez que o meu mundo acaba, eu me retiro em auto-exílio. Busco refúgio em ilhas.
Quando o meu mundo acabou em 2018, vivi na Sardenha, uma ilha-continente no meio do Mar Mediterrâneo. Em vias do nosso declínio civilizatório, fui em movimento retroativo ao início da civilização greco-romana, de onde nós, os ocidentais, descendemos em grande parte. Buscar as raízes da linguagem que instrumentalizou nosso entendimento de mundo, nós, latinos do continente atlântico. E claro, negociar com os deuses mais tempo de vida.
Toponímia [nome do lugar] é a divisão da onomástica [ato de nomear, dar nome], que estuda os nomes geográficos dos lugares, ou topônimos.
Na Sardenha, território onde as pedras são palavras [e as palavras são como pedras, não se sabe o início], onde vemos o tempo sedimentado em camadas, como se pudéssemos observar o interior de uma montanha cortada verticalmente ao meio. Razões estas que tomo emprestado o título do romance inventário-babélico de Saramago.
Pedras-Palavras, coleto ambas para meu glossário de reinvenções.
Essas “cirandas de nomes pronunciados, que são como uma forma de poesia mínima”.
[ Performance realizada em Rocce Li Conchi – Arzachena – Sardenha. Pesquisa Linguística e Registro Vocal: Riccardo Mura. Ano 2019.]
Este foi o 5º experimento de #residenciadapedra.
Se, uma residência artística, é quando um artista vai a um determinado lugar para viver e criar algo, no nomadismo cada território possível é uma residência/abrigo temporário.
Os 2 trabalhos que compõem Todos os Nomes são frutos de diálogos estabelecidos com 2 artistas sardos.
O outro trabalho foi publicado nesta mesma coluna: “A arte de se perder, e mais tarde, encontrar-se.” (link abaixo).
*Kelly Saura
mulher, nômade (Recife-Brasil, 1986)
artista visual, designer, curadora
desenvolve e colabora com projetos culturais e sociais de mídia-tática
articula tecnologias e linguagens do tempo
E-mail: Kellysaura@gmail.com
Instagram: @saura.kelly