[CONTO] ‘Desimportante’, por Daniella Freitas

Por Daniella Freitas
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Foi com naturalidade que o médico lhe revelou a inexistência do apêndice. Assim, como se nada fosse. Ela, claro, não gostou do que ouviu. O doutor explicou o exame de alta definição, mas o esclarecimento não foi suficiente.
Saiu do consultório direto para a clínica de imagem. Queria saber o paradeiro do seu apêndice. O radiologista disse não haver erro no exame. A máquina era de última geração, aquele abdome era o dela e ponto final.
Já em casa, procurou, na caixa guardada em cima do armário, o seu exame anterior. Não era louca. Há um ano atrás, o seu apêndice estava no lugar de sempre. “Deixa isso pra lá”, disse o marido. “Não é um órgão essencial ao organismo. Pior se estivesse aí e inflamasse”.
A comida da janta ficou no prato, tamanha a preocupação. Ela esqueceu a louça na pia. Sua mente acelerada procurava respostas: não é essencial, mas inflama. Então o apêndice saiu de fininho para não provocar uma imensa dor, talvez a morte.
Foi pra cama, mais por cansaço do que por sono. O marido roncava. Achou, no celular, a imagem do órgão sem importância. Era uma saliência, uma coisinha à parte. “Seria de pouca serventia desde a ancestralidade?”, perguntou a si mesma. Continuou sua pesquisa acessando a página de um dicionário. A primeira definição de apêndice dizia: parte pertencente a outra maior e que a completa; acessório.
Nesse momento, o marido acendeu a luz do abajur e, num rompante, levantou-se da cama. Ele esbravejou palavras duras e saiu do quarto levando o travesseiro. Ela deixou cair o celular, e com o coração disparado, chorou baixinho. A vontade era de sumir, assim como sumira o seu apêndice.
Acordou com o corpo todo doído e olheiras enormes. Já era tarde, e o marido havia feito o café. “Ligaram pra você da clínica”, disse ele. “Trocaram o exame. O seu está lá, é só ir buscar”.
A escritora Daniella Freitas lançou em 2024 o livro ‘Em terceira pessoa”, uma coletânea de contos que explora as nuances da experiência feminina por meio de uma narradora que, embora deseje falar, escolhe se expressar pelas histórias de outras mulheres. Observadora e sensível, ela revela os desafios, emoções e conflitos dessas personagens, refletindo sua própria busca por compreensão e conexão. Cada conto tece um retrato íntimo do universo feminino, onde a narradora tenta encontrar-se nas vidas que narra, dando voz a sentimentos e dilemas que ressoam profundamente. O livro está disponível para compra neste link: Em terceira pessoa | Amazon.com.br
