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[CANTO DE LU] A Passagem de meu pai

Eu e painho. Brasília, 1973.

| Por Lu Rabelo* |
(17/4/2020)

Resisto. Sinto medo de escrever. Sinto medo da saudade.

Mas hoje – 44 dias depois que ele partiu desta dimensão – meu filho Ravi lembrou dele alegre, cantarolando “Ravioli foi pra festa, no dia de São José, lá na festa Ravioli, queria tomar café”, e me senti inspirada a escrever. Painho adorava cantarolar. Era ele feliz! Batendo a bengala no chão, com andar pesado e manso…

Mansidão que o faz parecer Santo.

Que Bela história o senhor tem, painho. Quanta Valentia, Coragem, Entrega, Confiança, Fé, Proteção, Amor. Como sou grata em tê-lo como Pai!

Ontem foi o aniversário de mainha. 84 anos. Ela lá e eu cá, neste necessário isolamento. Ai, mainha, tantas mortes já vives.

Quando painho foi lá pra esse lugar que eu não sei bem o nome, tive a clareza que ele e mainha são as pessoas que mais me protegem, me amam, nesta Terra. Muito forte sentir isso. O desafio agora é como estar na Terra sem painho. E agradecer a todo instante por mainha estar aqui e com saúde.

Painho preparou a gente e se preparou pra Passagem. Foram quase dois anos de cama. Não reclamava. Sobre coisas grandes da vida, painho não reclamava. Só quando a gente deixava a porta de casa destrancada, ou mainha esquecia a bolsa aberta no supermercado, coisas assim.

Poeta, professor, rezador, ilustre orador.

Trabalhador. Painho adorava trabalhar. E trabalhou e estudou muito, desde cedo. Ajudou a fundar o Ginásio Cônego Torres, em Serra Talhada, onde, enfim, pôde iniciar o estudo do ginásio, com mais de 20 anos de idade.

José Alves de Oliveira. Nasceu num vilarejo chamado Santa Maria (Tupanaci), guardado por Nossa Senhora da Conceição, em Mirandiba, Sertão do Pajeú pernambucano. Filho de Vovó-papai, ele, Zé de Joana. Vovó-papai era cachimbeira, negra-índia. Joana Luiza de Jesus. Creio que ela vem do povo Pankará, lá da Serra do Arapuá.

Painho adorava contar histórias e as contava bem. E tinha muitas, dele, e também do povo engraçado e sábio do Sertão.

Gosto de uma dele em que um homem, lá pelos anos 40, comprou uma feira de alimentos a painho (quando ele trabalhava numa venda), mas não pôde pagar. Mais de 50 anos depois, painho foi procurado pelo filho dele (do homem) que veio saldar a dívida em nome do pai, pois que o pai, antes de morrer, o recomendou que o fizesse. Coisa linda!

Um dos momentos mais emocionantes desse tempo que painho ficou de cama, foi quando ele, após contar algumas histórias, disse, chorando: “Eu sempre gostei de pobre”.

Ele, que foi ajudado, e tanto ajudou. Fez história no Banco do Brasil e Bandepe.

Sinto saudade de cheirar a careca dele.

O findar do sofrimento físico, nos alenta, mas ao ver o corpo dele sem vida, quis acordá-lo.

Ainda tô meio perdida.

Me vem à lembrança um dos últimos reveillon que passamos juntos, na beira-mar, em Serrambi, no momento da passagem do ano, ele sentado do meu lado, em silêncio, acariciando minha mão.

Após a missa de sétimo dia de painho, começou o isolamento social. E o Brasil, assim, com um monstro na presidência.

No velório, parecia que tudo era cena de filme. Eu na beira do caixão de painho. Mainha, forte e de dar pena. Fernando, lavado de suor. Júnior, se apoiando na bengala de painho. Cláudia, conseguindo chorar. E José Vicente, o bebê da família, neto de Silvana, querendo ir pro centro do Ritual.

Enquanto isso, Vaquinha, minha cachorrinha xodó, doente, acometida por um vírus (cinomose). Quinha também morreu. Ela me ajudou tanto nos primeiros dias do luto de painho. Cuidar dela foi tão importante. Tanto amor! Sou tão grata a tu, minha bonequinha!

Tantas mudanças, dentro e fora.

Tô de luto, tô isolada, mas bem grata por termos o Sol, a Chuva, a Terra, o Céu, as Estrelas, a Lua, os bichos, a família, e comida.

No mais, é Poesia, Dança, Canção.

Ps: Uns versos que fiz de presente de dia dos pais pra painho, em 2007:

A vida comigo é boa
Só tenho a agradecer
Pois ela me fez nascer
Filha de grande pessoa
Um Sol que em mim ressoa
Irradiando harmonia,
Pureza, amor, alegria
Isso tudo ele me traz
Segurança, vida e paz
Verdade, luz, valentia.

Eu acho que é um Santo
Enviado pelo Céu
Pra ele tiro o chapéu
E demonstro meu encanto
Danço, brinco, oro, canto
Louvando tão lindo Ser
Que em nós faz florescer
Sabedoria, bondade
Lucidez e humildade
Nos caminhos do viver

Veio lá do meu Sertão
Nasceu da Deusa Joana
Gerou a alegre Silvana
É o Pai da geração
É a nossa proteção
Junto à luz de Carminha
Com ela, ele aninha
Filhos, netos e amigos
são verdadeiros abrigos
nunca me sinto sozinha.

O que tenho a lhe ofertar
São meus versos, minha Poesia,
Ravi, Luana, minhas crias
O meu Sol e o meu Luar!

* Lu Rabelo é cantadeira, arteterapeuta, jornalista e guardiã do Portal Flores no Ar

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