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Espiritualidade, materialismo e poeticidade, por Marcelo Mário de Melo

É um erro primário identificar materialismo com consumismo, uma vez que ser materialista é, simplesmente, optar pelo primado material, considerar que a matéria é anterior à consciência, sendo esta um produto superior daquela. Em contraponto se coloca o idealismo, que considera a matéria como resultado de uma inteligência superior e associa a consciência à alma imortal, com dinâmica própria independente do corpo.

A atitude das pessoas ante o usufruto dos bens materiais, os padrões de consumo e seus correspondentes no campo das idéias e das representações, não têm nada a ver com esta polarização filosófica. No prefácio ao Memórias do Cárcere, Graciliano Ramos faz ironia a esse respeito, dizendo que os homens do primado espiritual viviam bem, cuidavam do corpo, enquanto ele e outros “desgraçados materialistas”, habitando e se alimentando precariamente, viviam como pobres espíritos.

O materialista Marx denuncia o aviltamento humano sob a dimensão do consumismo, em largas páginas do O Capital e em outras obras. O Manifesto Comunista também é pródigo nessa denúncia. Paul Lafargue dá um tratamento satírico à questão, no texto O Direito à Preguiça, em que denuncia e ridiculariza a ideologia do ter, em detrimento do ser. A volumosa crítica marxista à alienação e à fetichização da mercadoria e da riqueza seria suficiente para vetar a arcaica identificação de materialismo com consumismo, que ainda ocorre.

Desfeita a malversação, resta o problema. Como encarar a vida sem se envolver no consumismo? Há os que partem para os modelos tipo sociedade alternativa, do que os hippies são uma referência. Mas como escapar do consumismo levando uma vida normal de trabalho, família e estudo, exercendo-se a condição de consumidor e sob o cerco de uma oferta permanente de produtos e serviços diversificados, alimentados por uma publicidade encantadora e onipresente?

Pessoas de filiação filosófica idealista colocam a espiritualidade como uma resposta ao consumismo. Na vertente materialista, e considerando a religião como a filha desnaturada da emoção e da poesia, apresenta-se a poeticidade como o contraponto mais adequado. A dimensão da poesia, envolvendo as ebulições íntimas, as relações sociais e as correlações cósmicas, pode ser uma excelente ferramenta anti-consumista a ser utilizada, ecumenicamente, por crentes e descrentes. Esclareço que o termo poeticidade é utilizado aqui no sentido amplo de artisticidade, e não só no que se refere, especificamente, à arte poética, situada no campo da literatura.

Além das raias restritas da utilidade imediata, a sensibilidade poética possibilita uma visão de recuo e antevisão em que o aqui e o agora se situam no panorama mais amplo dos grandes movimentos da vida e das suas especificações microscópicas, envolvendo encantos e espantos, pontes e abismos, ousadias e medos, avanços e recuos, verdades e mentiras, pus e seiva, falar e ouvir, agir e refletir, chorar e sorrir, andar, correr, saltar, marchar, desfilar e dançar.

Além das projeções de status a partir de atributos hereditários, disponibilidades materiais, gradações de dispêndio, potencialidades concorrenciais, poderes de influência e posições hierárquicas, a fruição dos valores da vida e a travessia dos seus ciclos, vistos com profundidade e largueza. A cultura, a criação, a contemplação, a amizade, o afeto, a satisfação ética, a atividade revolucionária, a solidariedade e a compaixão, elevam a condição humana e avivam a sua chama.

Nessas raias podemos todos caminhar de mãos dadas em movimento espiral arcoirisado. Rompendo os limites de círculos, retângulos, triângulos e elipses. Escalando a quinta parede do sonho. Procurando unir vaga-lumes e estrelas. Insuflando idéias e ações. Instilando novas seivas no cotidiano. Contra o binóculo invertido do consumismo, acredite-se e mergulhe-se na ressurreição poética da vida.

Marcelo Mário de Melo é jornalista e poeta.
E-mail: marcelomariodemelo@gmail.com

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