[PATRÍCIA MELLO] A Morte como Norte

| Por Patrícia Mello* |
A morte quando principia o fim, informa que morrer, antes de tudo, implica em já ter vivido. A impressão imediata de que se tem da morte é que já houve vida. E só morre o que estava vivo! E talvez por isso seja tão difícil, para alguns, deixar morrer, aceitar que já viveu, e reconhecer a vida, muitas vezes, mal vivida.
O morrer se resume em alguma instância em poder abandonar a vida, deixar o fluxo seguir o rumo sem saber o que é que estar por vir. É um ato que por um instante nos conduz de forma direta para a vivência da autonomia.
Então, quem dera ser suficiente se permitir tornar-se apenas memória, lembrança de um tempo que foi e não existe mais. Quem dera ser suficiente existir a partir de um registro numa imagem fotográfica ou num escrito. Quiçá, ser suficiente por existir dentro de alguém.
Que seja a morte considerada uma dádiva, assim como é a vida. Dádiva por podermos reconhecê-la em seu sacrifício ao nos manter vivos mais um dia. Pois é a morte que, em seu encantamento, pode nos servir como um guia para uma vida de escolhas que, ao se realizarem, tornam a vida bem vivida.
*Patrícia Mello é psicóloga, arteterapeuta e gestora do Espaço Gerar – Arteterapia e Bem-Estar.