

{"id":8485,"date":"2025-06-03T04:45:46","date_gmt":"2025-06-03T07:45:46","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=8485"},"modified":"2025-06-03T10:24:15","modified_gmt":"2025-06-03T13:24:15","slug":"solidariedade-por-rubem-alves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/solidariedade-por-rubem-alves\/","title":{"rendered":"&#8216;Solidariedade&#8217;, por Rubem Alves"},"content":{"rendered":"<p>| <em>Por Rubem Alves<\/em> |<\/p>\n<figure id=\"attachment_42616\" aria-describedby=\"caption-attachment-42616\" style=\"width: 370px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-42616\" src=\"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/shane-rounce-DNkoNXQti3c-unsplash-464x700.jpg\" alt=\"\" width=\"370\" height=\"558\" srcset=\"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/shane-rounce-DNkoNXQti3c-unsplash-464x700.jpg 464w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/shane-rounce-DNkoNXQti3c-unsplash-199x300.jpg 199w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/shane-rounce-DNkoNXQti3c-unsplash-768x1159.jpg 768w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/shane-rounce-DNkoNXQti3c-unsplash.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 370px) 100vw, 370px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-42616\" class=\"wp-caption-text\">Photo by <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/es\/@shanerounce?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Shane Rounce<\/a> on <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/s\/photos\/solidarity?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Unsplash<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p><em>&#8220;Se te perguntarem quem era essa que \u00e0s areias e gelos quis ensinar a primavera&#8230;&#8221;<\/em>: \u00e9 assim que Cec\u00edlia Meireles inicia um dos seus poemas. Ensinar primavera \u00e0s areias e gelos \u00e9 coisa dif\u00edcil. Gelos e areias nada sabem sobre primaveras&#8230; Pois eu desejaria saber ensinar a solidariedade a quem nada sabe sobre ela. O mundo seria melhor. Mas como ensin\u00e1-la?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 poss\u00edvel ensinar a beleza de uma sonata de Mozart a um surdo? Como? &#8211; se ele n\u00e3o ouve. E poderei ensinar a beleza das telas de Monet a um cego? De que pedagogia irei me valer para comunicar cores e formas a quem n\u00e3o v\u00ea? H\u00e1 coisas que n\u00e3o podem ser ensinadas. H\u00e1 coisas que est\u00e3o al\u00e9m das palavras. Os cientistas, fil\u00f3sofos e professores s\u00e3o aqueles que se dedicam a ensinar as coisas que podem ser ensinadas. Coisas que podem ser ensinadas s\u00e3o aquelas que podem ser ditas. Sobre a solidariedade muitas coisas podem ser ditas. Por exemplo: acho poss\u00edvel desenvolver uma psicologia da solidariedade. Acho tamb\u00e9m poss\u00edvel desenvolver uma sociologia da solidariedade. E, filosoficamente, uma \u00e9tica da solidariedade&#8230; Mas os saberes cient\u00edficos e filos\u00f3ficos da solidariedade n\u00e3o ensinam a solidariedade, da mesma forma como a cr\u00edtica da m\u00fasica e da pintura n\u00e3o ensina \u00e0s pessoas a beleza da m\u00fasica e da pintura. A beleza \u00e9 inef\u00e1vel; est\u00e1 al\u00e9m das palavras.<\/p>\n<p>Palavras que ensinam s\u00e3o gaiolas para p\u00e1ssaros engaiol\u00e1veis. Os saberes, todos eles, s\u00e3o p\u00e1ssaros engaiolados. Mas a solidariedade \u00e9 um p\u00e1ssaro que n\u00e3o pode ser engaiolado. Ela n\u00e3o pode ser dita. A solidariedade pertence a uma classe de p\u00e1ssaros que s\u00f3 existem em v\u00f4o. Engaiolados, esses p\u00e1ssaros morrem.<\/p>\n<p>A beleza \u00e9 um desses p\u00e1ssaros. A beleza est\u00e1 al\u00e9m das palavras. Walt Whitman tinha consci\u00eancia disso quando disse: &#8220;Serm\u00f5es e l\u00f3gicas jamais convencem. O peso da noite cala bem mais fundo em minha alma&#8230;&#8221; Ele conhecia os limites das suas pr\u00f3prias palavras. E Fernando Pessoa sabia que aquilo que o poeta quer comunicar n\u00e3o se encontra nas palavras que ele diz: ela aparece nos espa\u00e7os vazios que se abrem entre elas, as palavras. Nesse espa\u00e7o vazio se ouve uma m\u00fasica. Mas essa m\u00fasica &#8211; de onde vem ela se n\u00e3o foi o poeta que a tocou?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer uma prova colegial sobre a beleza porque ela n\u00e3o \u00e9 um conhecimento. E nem \u00e9 poss\u00edvel comandar a emo\u00e7\u00e3o diante da beleza. Somente atos podem ser comandados. Ordin\u00e1rio! Marche!&#8221;, o sargento ordena. Os recrutas obedecem. Marcham. \u00c0 ordem segue-se o ato. Mas sentimentos n\u00e3o podem ser comandados. N\u00e3o posso ordenar que algu\u00e9m sinta a beleza que estou sentindo.<\/p>\n<p>O que pode ser ensinado s\u00e3o as coisas que moram no mundo de fora: astronomia, f\u00edsica, qu\u00edmica, gram\u00e1tica, anatomia, n\u00fameros, letras, palavras. Mas h\u00e1 coisas que n\u00e3o est\u00e3o do lado de fora. Coisas que moram dentro do corpo. Enterradas na carne, como se fossem SEMENTES \u00c0 ESPERA&#8230;<\/p>\n<p>Sim, sim! Imagine isso: o corpo como um grande canteiro! Nele se encontram, adormecidas, em estado de lat\u00eancia, as mais variadas sementes &#8211; lembre-se da est\u00f3ria da Bela Adormecida! Elas poder\u00e3o acordar, brotar. Mas poder\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o brotar. Tudo depende&#8230; As sementes n\u00e3o brotar\u00e3o se sobre elas houver uma pedra. E tamb\u00e9m pode acontecer que, depois de brotar, elas sejam arrancadas&#8230; De fato, muitas plantas precisam ser arrancadas, antes que cres\u00e7am. Nos jardins h\u00e1 pragas: tiriricas, pic\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Uma dessas sementes tem o nome de &#8220;solidariedade&#8221;. A solidariedade n\u00e3o \u00e9 uma entidade do mundo de fora, ao lado de estrelas, pedras, mercadorias, dinheiro, contratos. Se ela fosse uma entidade do mundo de fora ela poderia ser ensinada. A solidariedade \u00e9 uma entidade do mundo interior. Solidariedade nem se ensina, nem se ordena, nem se produz. A solidariedade, semente, tem de nascer.<\/p>\n<p>Veja o ip\u00ea florido! Nasceu de uma semente. Depois de crescer n\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1ria nenhuma t\u00e9cnica, nenhum est\u00edmulo, nenhum truque para que ele flores\u00e7a. Angelus Sil\u00e9sius, m\u00edstico antigo, tem um verso que diz: &#8221; A rosa n\u00e3o tem por qu\u00eas. Ela floresce porque floresce.&#8221; O ip\u00ea floresce porque floresce. Seu florescer \u00e9 um simples transbordar natural da sua verdade.<\/p>\n<p>A solidariedade \u00e9 como o ip\u00ea: nasce e floresce. Mas n\u00e3o em decorr\u00eancia de mandamentos \u00e9ticos ou religiosos. N\u00e3o se pode ordenar: &#8220;Seja solid\u00e1rio!&#8221; Ela acontece como simples transbordamento. Da mesma forma como o poema \u00e9 um transbordamento da alma do poeta e a can\u00e7\u00e3o um transbordamento da alma do compositor&#8230;<\/p>\n<p>Disse que solidariedade \u00e9 um sentimento. \u00c9 esse o sentimento que nos torna humanos. \u00c9 um sentimento estranho &#8211; que perturba nossos pr\u00f3prios sentimentos. A solidariedade me faz sentir sentimentos que n\u00e3o s\u00e3o meus, que s\u00e3o de um outro. Acontece assim: eu vejo uma crian\u00e7a vendendo balas num sem\u00e1foro. Ela me pede que eu compre um pacotinho das suas balas. Eu e a crian\u00e7a &#8211; dois corpos separados e distintos. Mas, ao olhar para ela, estreme\u00e7o: algo em mim me faz imaginar aquilo que ela est\u00e1 sentindo. E ent\u00e3o, por uma magia inexplic\u00e1vel, esse sentimento imaginado se aloja junto aos meus pr\u00f3prios sentimentos. Na verdade, desaloja meus sentimentos, pois eu vinha vindo, no meu carro, com sentimentos leves e alegres, e agora esse novo sentimento se coloca no lugar deles. O que sinto n\u00e3o s\u00e3o meus sentimentos. Foi-se a leveza e a alegria que me faziam cantar. Agora, s\u00e3o os sentimentos daquele menino que est\u00e3o dentro de mim. Meu corpo sofre uma transforma\u00e7\u00e3o: ele n\u00e3o \u00e9 mais limitado pela pele que o cobre. Expande-se.<\/p>\n<p>Ele est\u00e1 agora ligado a um outro corpo que passa a ser parte dele mesmo. Isso n\u00e3o acontece nem por decis\u00e3o racional, nem por convic\u00e7\u00e3o religiosa e nem por um mandamento \u00e9tico. \u00c9 o jeito natural de ser do meu pr\u00f3prio corpo, movido pela solidariedade. Acho que esse \u00e9 o sentido do dito de Jesus que temos de amar o pr\u00f3ximo como amamos a n\u00f3s mesmos. Pela magia do sentimento de solidariedade o meu corpo passa a ser morada do outro. \u00c9 assim que acontece a bondade.<\/p>\n<p>Mas fica pendente a pergunta inicial: como ensinar primaveras a gelos e areias? Para isso as palavras do conhecimento s\u00e3o in\u00fateis. Seria necess\u00e1rio fazer nascer ip\u00eas no meio dos gelos e das areias! E eu s\u00f3 conhe\u00e7o uma palavra que tem esse poder: a palavra dos poetas. Ensinar solidariedade? Que se fa\u00e7am ouvir as palavras dos poetas nas igrejas, nas escolas, nas empresas, nas casas, na televis\u00e3o, nos bares, nas reuni\u00f5es pol\u00edticas, e, principalmente, na solid\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O menino me olhou com olhos suplicantes.<\/p>\n<p>E, de repente, eu era um menino que olhava com olhos suplicantes&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Por Rubem Alves | &#8220;Se te perguntarem quem era essa que \u00e0s areias e gelos quis ensinar a primavera&#8230;&#8221;: \u00e9 assim que Cec\u00edlia Meireles inicia um dos seus poemas. Ensinar primavera \u00e0s areias e gelos \u00e9 coisa dif\u00edcil. 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