

{"id":7392,"date":"2020-08-06T05:47:30","date_gmt":"2020-08-06T08:47:30","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=7392"},"modified":"2020-08-06T11:54:32","modified_gmt":"2020-08-06T14:54:32","slug":"a-moca-tecela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/a-moca-tecela\/","title":{"rendered":"A Mo\u00e7a Tecel\u00e3"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por Marina Colasanti<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-28320 alignleft\" src=\"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/a-moca-tecela_foto-pixabay-free.jpg\" alt=\"\" width=\"259\" height=\"194\" srcset=\"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/a-moca-tecela_foto-pixabay-free.jpg 259w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/a-moca-tecela_foto-pixabay-free-160x120.jpg 160w\" sizes=\"(max-width: 259px) 100vw, 259px\" \/>Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atr\u00e1s das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.<\/p>\n<p>Linha clara, para come\u00e7ar o dia. Delicado tra\u00e7o cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto l\u00e1 fora a claridade da manh\u00e3 desenhava o horizonte.<\/p>\n<p>Depois l\u00e3s mais vivas, quentes l\u00e3s iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.<\/p>\n<p>Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as p\u00e9talas, a mo\u00e7a colocava na lan\u00e7adeira grossos fios cinzentos do algod\u00e3o mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumpriment\u00e1-la \u00e0 janela.<\/p>\n<p>Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os p\u00e1ssaros, bastava a mo\u00e7a tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.<\/p>\n<p>Assim, jogando a lan\u00e7adeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para tr\u00e1s, a mo\u00e7a passava os seus dias.<\/p>\n<p>Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a l\u00e3 cor de leite que entremeava o tapete. E \u00e0 noite, depois de lan\u00e7ar seu fio de escurid\u00e3o, dormia tranq\u00fcila.<\/p>\n<p>Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.<\/p>\n<p>Mas tecendo e tecendo, ela pr\u00f3pria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou em como seria bom ter um marido ao lado.<\/p>\n<p>N\u00e3o esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, come\u00e7ou a entremear no tapete as l\u00e3s e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chap\u00e9u emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o \u00faltimo fio da ponto dos sapatos, quando bateram \u00e0 porta.<\/p>\n<p>Nem precisou abrir. O mo\u00e7o meteu a m\u00e3o na ma\u00e7aneta, tirou o chap\u00e9u de pluma, e foi entrando em sua vida.<\/p>\n<p>Aquela noite, deitada no ombro dele, a mo\u00e7a pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.<\/p>\n<p>E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque tinha descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a n\u00e3o ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.<\/p>\n<p>\u2014 Uma casa melhor \u00e9 necess\u00e1ria \u2014 disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas l\u00e3s cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.<\/p>\n<p>Mas pronta a casa, j\u00e1 n\u00e3o lhe pareceu suficiente.<\/p>\n<p>\u2014 Para que ter casa, se podemos ter pal\u00e1cio? \u2014 perguntou. Sem querer resposta imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.<\/p>\n<p>Dias e dias, semanas e meses trabalhou a mo\u00e7a tecendo tetos e portas, e p\u00e1tios e escadas, e salas e po\u00e7os. A neve ca\u00eda l\u00e1 fora, e ela n\u00e3o tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela n\u00e3o tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lan\u00e7adeira.<\/p>\n<p>Afinal o pal\u00e1cio ficou pronto. E entre tantos c\u00f4modos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 para que ningu\u00e9m saiba do tapete \u2014 ele disse. E antes de trancar a porta \u00e0 chave, advertiu: \u2014 Faltam as estrebarias. E n\u00e3o se esque\u00e7a dos cavalos!<\/p>\n<p>Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o pal\u00e1cio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.<\/p>\n<p>E tecendo, ela pr\u00f3pria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o pal\u00e1cio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou em como seria bom estar sozinha de novo.<\/p>\n<p>S\u00f3 esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exig\u00eancias. E descal\u00e7a, para n\u00e3o fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.<\/p>\n<p>Desta vez n\u00e3o precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lan\u00e7adeira ao contr\u00e1rio, e jogando-a veloz de um lado para o outro, come\u00e7ou a desfazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o pal\u00e1cio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim al\u00e9m da janela.<\/p>\n<p>A noite acabava quando o marido estranhando a cama dura, acordou, e, espantado, olhou em volta. N\u00e3o teve tempo de se levantar. Ela j\u00e1 desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus p\u00e9s desaparecendo, sumindo as pernas. R\u00e1pido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chap\u00e9u.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como se ouvisse a chegada do sol, a mo\u00e7a escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado tra\u00e7o de luz, que a manh\u00e3 repetiu na linha do horizonte.<\/p>\n<p><em>Marina Colasanti (1938) nasceu em Asmara, Eti\u00f3pia, morou 11 anos na It\u00e1lia e desde ent\u00e3o vive no Brasil. Publicou v\u00e1rios livros de contos, cr\u00f4nicas, poemas e hist\u00f3rias infantis. Recebeu o Pr\u00eamio Jabuti com Eu sei, mas n\u00e3o devia e tamb\u00e9m por Rota de Colis\u00e3o. Dentre outros escreveu E por falar em amor, Contos de amor rasgados, Aqui entre n\u00f3s, Intimidade p\u00fablica, Eu sozinha, Zooil\u00f3gico, A morada do ser, A nova mulher (que vendeu mais de 100.000 exemplares), Mulher daqui pra frente, O leopardo \u00e9 um animal delicado, Esse amor de todos n\u00f3s, Gargantas abertas e os escritos para crian\u00e7as Uma id\u00e9ia toda azul e Doze reis e a mo\u00e7a do labirinto de vento. Colabora, tamb\u00e9m, em revistas femininas e constantemente \u00e9 convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. \u00c9 casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant&#8217;Anna.<\/em><\/p>\n<pre>Texto extra\u00eddo do livro \u201cDoze Reis e a Mo\u00e7a no Labirinto do Vento\u201d, Global Editora , Rio de Janeiro, 2000, uma colabora\u00e7\u00e3o da amiga Janaina Pietroluongo, da long\u00ednqua Oxford.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Por Marina Colasanti Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atr\u00e1s das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear. Linha clara, para come\u00e7ar o dia. Delicado tra\u00e7o cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto l\u00e1 fora a claridade da manh\u00e3 desenhava o horizonte. 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