

{"id":7313,"date":"2024-03-08T06:48:15","date_gmt":"2024-03-08T09:48:15","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=7313"},"modified":"2024-11-17T12:34:57","modified_gmt":"2024-11-17T15:34:57","slug":"mulher-sertaneja-por-luciana-rabelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/mulher-sertaneja-por-luciana-rabelo\/","title":{"rendered":"[CANTO DE LU] &#8216;Mulher sertaneja&#8217;"},"content":{"rendered":"<pre>Por Lu Rabelo*\r\n(Luciana de Z\u00e9 de Joana)\r\n<em>(texto escrito em 08\/03\/2006)<\/em><\/pre>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-14233 alignleft\" src=\"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/vovo_papai_baixa1.jpg\" alt=\"vovo_papai_baixa1\" width=\"236\" height=\"321\" \/>No dia 8 de mar\u00e7o de 1906 \u00a0nascia Joana Luiza de Jesus, minha v\u00f3, m\u00e3e de meu pai, a quem cham\u00e1vamos de vov\u00f3-papai. Acho bastante simb\u00f3lico o 8 de mar\u00e7o ser lembrado como o Dia Internacional da Mulher, pois pra mim esta data realmente representa a mulher, guerreira em ess\u00eancia.<\/p>\n<p>H\u00e1 exatamente 100 anos ela apareceu por aqui, nascida no Massap\u00ea, nos p\u00e9s da Serra do Arapu\u00e1, munic\u00edpio de Carnaubeira da Penha. O territ\u00f3rio primeiramente foi reconhecido como quilombo, posteriormente passando a integrar o territ\u00f3rio ind\u00edgena Pankar\u00e1.<\/p>\n<p>Sertaneja cabocla, Joana aos 24 anos engravidou ap\u00f3s um namoro com meu av\u00f4 Jo\u00e3o Alves de Oliveira, de Serra Talhada. Na \u00e9poca ela j\u00e1 morava em Santa Maria (Tupanaci) \u2013 vilarejo pertencente hoje ao munic\u00edpio de Mirandiba. Foi l\u00e1 que meu pai Jos\u00e9 Alves de Oliveira, conhecido na regi\u00e3o como Z\u00e9 de Joana, nasceu em 1931. Painho foi criado sem pai, pois o pai dele foi morar em S\u00e3o Paulo quando minha av\u00f3 engravidou*. S\u00f3 aos 12 anos de idade painho conheceu a fam\u00edlia paterna, gra\u00e7as a uma professora que sabendo da hist\u00f3ria o apresentou aos seus familiares em Serra Talhada.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei detalhes da vida de vov\u00f3, o que muito lamento neste momento, pois em janeiro de 1998 ela se foi pro lugar misterioso e eu nunca conversei com ela sobre o passado. O que sei mesmo \u00e9 que ela \u00e9 s\u00edmbolo da fortaleza da mulher sertaneja. Enfrentou todos os preconceitos, l\u00e1 pelo in\u00edcio da d\u00e9cada de 30, num pequeno povoado \u00e0 beira do rio Paje\u00fa. Para sustentar meu pai, ela, analfabeta e cheia de sabedoria, foi agricultora, comerciante e lavou muita roupa nas \u00e1guas pajeuzeiras. Nunca deixou faltar nada ao menino Z\u00e9 de Joana.<\/p>\n<p>Apesar de eu sempre ter morado longe dela, sempre a via nas f\u00e9rias. \u00c0s vezes (muito poucas) ela vinha estar conosco na capital, e outras (mais frequentes) \u00edamos a Santa Maria viv\u00ea-la. Uma das coisas que muito me admirava quando cheg\u00e1vamos l\u00e1 era o rio. Isso porque para chegar \u00e0 vila, t\u00ednhamos que atravessar o Paje\u00fa. Quando ele estava seco, o carro passava. \u00c0s vezes estava com pouca \u00e1gua e dava pra passar, mas lembro que eu ficava com medo vendo o carro &#8216;nadar&#8217;. Quando o rio tava cheio, t\u00ednhamos que deixar o carro do lado de c\u00e1 e atravessar andando, com as coisas na cabe\u00e7a. E era muita bagagem, porque sempre minha m\u00e3e levava muitas roupas para dar, al\u00e9m de brinquedos, balas, biscoitos. Aventura boa!<\/p>\n<p>O que mais tinha por l\u00e1 era crian\u00e7a. E eu, pequena, passava o tempo todo a brincar com meu povo. Era outra realidade. Eu menina da cidade, sempre tendo morado em pr\u00e9dios, vida classe m\u00e9dia, l\u00e1 encontrava o mundo natural. N\u00f3s, quando cheg\u00e1vamos, \u00e9ramos a atra\u00e7\u00e3o do povoado. Os jovens logo corriam pra junto de meus irm\u00e3os mais velhos. As crian\u00e7as vinham a mim e \u00e0 minha irm\u00e3 Cl\u00e1udia. E os senhores e senhoras iam depressa rever mainha e painho. Minha v\u00f3 era s\u00f3 alegria.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, \u00e0s margens do Paje\u00fa, escondido no Sert\u00e3o pernambucano, existe um dos lugares mais lindos que j\u00e1 vi. Onde ningu\u00e9m imagina que haja vida humana, t\u00e1 l\u00e1, um monte de crian\u00e7a, velhos e jovens ardendo no sol quente, nadando no rio, tangendo gado, plantando, colhendo, comendo bode e galinha, &#8216;tomando umas&#8217; nos dois ou tr\u00eas botecos, sentando na pra\u00e7a, em frente \u00e0s casas, indo \u00e0 igreja, vivendo a Natureza.<\/p>\n<p>A casa da minha v\u00f3 \u00e9 daquelas que tem uma portinha de madeira dividida no meio, onde s\u00f3 a parte de baixo fica fechada pros bodes, cachorros, gatos, galinhas n\u00e3o entrarem. Na cal\u00e7ada, cadeiras de balan\u00e7o, daquelas de tiras de pl\u00e1stico e que balan\u00e7am mesmo. Eu at\u00e9 \u00e0s vezes tinha um certo medo de virar pra tr\u00e1s de tanto que a cadeira emborcava. A \u00e1gua para beber tir\u00e1vamos com um caneco de alum\u00ednio de dentro de grandes potes de barro. A comida, temperada com muito coloral, era feita num fog\u00e3o de barro. Se n\u00e3o me engano era a \u00fanica casa que tinha banheiro, pois meu pai havia mandado dinheiro para construir. Lembro muito tamb\u00e9m do papagaio. Era bem falante e morria de ci\u00fame da minha v\u00f3. Meu pai conta que ganhou ele quando era mo\u00e7o. Ent\u00e3o, nessa \u00e9poca de minhas lembran\u00e7as, o papagaio j\u00e1 era &#8216;meio ve\u00ednho&#8217;. Ele falava bem r\u00e1pido e estridente: &#8216;Joana&#8217; e &#8216;\u00f4 de casa?&#8217;.<\/p>\n<p>A gente sempre ia pra l\u00e1 no in\u00edcio de dezembro na festa da padroeira, Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o. Era um fest\u00e3o. Vinha gente das vilas e munic\u00edpios vizinhos, Mirandiba, Serra Talhada, Floresta&#8230;Uma das atra\u00e7\u00f5es &#8211; fora a missa e a prociss\u00e3o \u2013 era o leil\u00e3o que ocorria na frente da igreja. Leiloava-se de tudo, manteiga, ovo, cacha\u00e7a, galinha&#8230;Eu ficava assistindo o leil\u00e3o todinho. Tinha tamb\u00e9m um bingo. Uma vez, quando eu j\u00e1 era adolescente, eu ganhei o pr\u00eamio m\u00e1ximo: um bode. Eu n\u00e3o quis nem ver o bode, porque logo que eu o ganhei acertaram de comer uma buchada no dia seguinte. Fiquei morrendo de pena e preferi n\u00e3o conhec\u00ea-lo, nem com\u00ea-lo. Se fosse hoje, n\u00e3o deixaria mat\u00e1-lo n\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando chegava o momento de minha m\u00e3e distribuir os doces e brinquedos era fant\u00e1stico. Eu logo me escalava pra entregar as sacolinhas para as crian\u00e7as. Era linda a alegria delas. Uma fila imensa se formava em frente \u00e0 casa da minha v\u00f3. N\u00e3o sei de onde surgia tanta crian\u00e7a. Todas sa\u00edam satisfeitas.<\/p>\n<p>Relembro claramente uma vez que fomos pra l\u00e1 no feriado da P\u00e1scoa e presenciei uma brincadeira, que era &#8216;malhar o Judas&#8217;. Eu era pequena e n\u00e3o entendia. Tinha muito medo. S\u00f3 via homens correndo atr\u00e1s de outros homens com um boneco e achava tudo muito violento. Mesmo as pessoas me falando que era brincadeira, n\u00e3o achava que fosse. N\u00e3o gostava.<\/p>\n<p>O momento triste da nossa viagem era, exatamente, na hora da despedida. A gente se ia, com um n\u00f3 na goela e no peito, e vov\u00f3 ficava em p\u00e9 na cal\u00e7ada, apoiada na bengala, chorando.<\/p>\n<p>Hoje entendo muito bem porque minha v\u00f3 nunca quis sair de l\u00e1, mesmo quando estava doente. Vivia humildemente, mas com verdade, com naturalidade, pisando na terra, fumando seu cachimbo, aben\u00e7oando as centenas de afilhados, se balan\u00e7ando na cadeira na cal\u00e7ada em frente de casa.<\/p>\n<p>Sempre que a gente tomava a ben\u00e7\u00e3o a ela, ela dizia: Deus te d\u00ea Fortuna! E temos recebido realmente muita Fortuna ao longo dessa vida. Ela se foi tendo o maior sonho da vida dela realizado: ver o filho vencedor nesse mundo de tantas contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><em><strong>*Causo 1:<\/strong> Certa vez quando painho ainda era menino, um parente dele por parte de pai, chamado Gumercindo, l\u00e1 de Serra Talhada, pediu a minha av\u00f3: &#8211; &#8220;Deixa eu criar esse menino que vou fazer dele um doutor!&#8221; E minha v\u00f3 respondeu: &#8211; &#8220;Pois \u00e9 isso mermo que vou fazer dele!&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>*<strong> Causo 2<\/strong>: Dia desses, conversando com painho, ele me disse que uma vez quando ele encontrou com o pai dele, j\u00e1 velho, meu av\u00f4 perguntou:<br \/>\n&#8211; ainda existem aqueles coqueiros l\u00e1 no vilarejo? Antes de eu ir embora pra S\u00e3o Paulo, eu escrevi num deles.<br \/>\nTempos depois, quando painho foi l\u00e1 em Santa Maria encontrou escrito no coqueiro: &#8216;SAUDADE&#8217; . E assinado: J.A.O (Jo\u00e3o Alves de Oliveira)<\/em><\/p>\n<p><em><strong>*Causo 3:<\/strong> Uma outra vez, painho me disse que meu av\u00f4, j\u00e1 velho e casado, \u00a0quis ir l\u00e1 em Santa Maria ver minha v\u00f3. Segundo mainha, vov\u00f3 confessou a ela depois que, neste dia da visita, a vontade dela foi dar um beijo nele! &lt;3<\/em><\/p>\n<p><em>* Lu Rabelo\u00a0\u00e9\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/canto.de.lu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cantadeira<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/jardimarteterapeutico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">arteterapeuta<\/a>, jornalista e editora do\u00a0<a href=\"http:\/\/portalfloresnoar.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Portal Flores no Ar.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Lu Rabelo* (Luciana de Z\u00e9 de Joana) (texto escrito em 08\/03\/2006) No dia 8 de mar\u00e7o de 1906 \u00a0nascia Joana Luiza de Jesus, minha v\u00f3, m\u00e3e de meu pai, a quem cham\u00e1vamos de vov\u00f3-papai. 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