

{"id":45617,"date":"2025-01-30T10:15:18","date_gmt":"2025-01-30T13:15:18","guid":{"rendered":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=45617"},"modified":"2025-01-30T10:15:18","modified_gmt":"2025-01-30T13:15:18","slug":"coluna-do-scalambrini-perigo-atomico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/coluna-do-scalambrini-perigo-atomico\/","title":{"rendered":"[COLUNA DO SCALAMBRINI] Perigo at\u00f4mico"},"content":{"rendered":"<p>| <em>Por Heitor Scalambrini Costa*<\/em> |<\/p>\n<p>Em um mundo \u00e0 beira de uma cat\u00e1strofe nuclear e, tendo ainda de enfrentar a emerg\u00eancia clim\u00e1tica com a resist\u00eancia de grandes corpora\u00e7\u00f5es em abolir o uso do principal respons\u00e1vel pelo aquecimento global, os combust\u00edveis f\u00f3sseis, a popula\u00e7\u00e3o mundial se depara diante de um impasse que coloca em risco a exist\u00eancia dos moradores do planeta.<\/p>\n<p>Desde a cria\u00e7\u00e3o de armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa, as chamadas bombas at\u00f4micas, o mundo se curvou perante alguns pa\u00edses que det\u00eam a tecnologia e fabricam tais artefatos (USA, R\u00fassia, Fran\u00e7a, Reino Unido, China, Israel, Paquist\u00e3o, \u00cdndia e Coreia do Norte).<\/p>\n<p>A principal mat\u00e9ria-prima da bomba \u00e9 um dos is\u00f3topos do elemento qu\u00edmico ur\u00e2nio. O ur\u00e2nio natural encontrado na natureza \u00e9 composto de 99,3% de ur\u00e2nio-238 e apenas 0,7% de ur\u00e2nio-235, combust\u00edvel explosivo (fission\u00e1vel). Para a fabrica\u00e7\u00e3o da bomba \u00e9 necess\u00e1rio aumentar a quantidade de ur\u00e2nio-235. Isto \u00e9 feito separando o ur\u00e2nio-235 do ur\u00e2nio 238, atingindo n\u00edveis acima de 80%. Este processo \u00e9 denominado de enriquecimento isot\u00f3pico, e a ultracentrifuga\u00e7\u00e3o \u00e9 a tecnologia mais utilizada neste processo. Para a produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica em usinas que utilizam o ur\u00e2nio-235, seu n\u00edvel de enriquecimento deve ser em torno de 3 a 4%.<\/p>\n<p>A bomba (ur\u00e2nio) foi usada como arma pela primeira vez em 6 de agosto de 1945, contra Hiroshima, e a segunda bomba (plut\u00f4nio) em 9 de agosto de 1945, contra Nagasaki, cidades japonesas. Segundo estimativas, juntas elas mataram mais de 200 mil pessoas. Desde ent\u00e3o n\u00e3o foi mais utilizada em guerras e conflitos, at\u00e9 nos dias atuais, com den\u00fancias internacionais de uso da bomba por Israel na guerra contra os palestinos.<\/p>\n<p>A acusa\u00e7\u00e3o, com fort\u00edssimos ind\u00edcios de veracidade, segundo o notici\u00e1rio internacional, \u00e9 de que em 16\/12\/2024, Israel lan\u00e7ou em uma zona montanhosa, pr\u00f3ximo \u00e0 cidade de Tartus, uma bomba nuclear t\u00e1tica, de fabrica\u00e7\u00e3o americana, a B61, provavelmente a variante Mod 11, destinada \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de bunkers, de penetra\u00e7\u00e3o no solo. Localizada na parte ocidental da S\u00edria, na fronteira com o L\u00edbano, a 220 quil\u00f4metros a noroeste de Damasco, est\u00e1 situada na costa do Mediterr\u00e2neo e conta com uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de 450 mil habitantes.<\/p>\n<p>Segundo relatos divulgados, a bomba lan\u00e7ada provocou um abalo s\u00edsmico de 3 graus na Escala Richter (escala de magnitude), sentido no Chipre e na Turquia. Al\u00e9m de picos de radia\u00e7\u00e3o, medidos por centros de monitoramento do clima. O artefato nuclear, caso seja confirmado, mesmo com poder explosivo reduzido, provocar\u00e1 uma s\u00e9rie de efeitos devastadores, incluindo: calor, onda de choque, e radia\u00e7\u00e3o ionizante, que pode causar c\u00e2ncer, doen\u00e7as graves e mortes.<\/p>\n<p>Lamentavelmente, pelas den\u00fancias, nem sempre divulgadas pelas ag\u00eancias de imprensa do Ocidente, a suspeita \u00e9 que o atual governo de extrema direita de Israel tem usado tudo que as conven\u00e7\u00f5es internacionais pro\u00edbem, como as Conven\u00e7\u00f5es de Haia (1899 e 1907), que regulamentam a condu\u00e7\u00e3o das hostilidades e a de Genebra (1949), que protegem as v\u00edtimas da guerra \u2013 doentes e feridos, n\u00e1ufragos, prisioneiros de guerra, civis em territ\u00f3rios inimigos e todos os civis que se encontrem em territ\u00f3rios de pa\u00edses em conflito. O uso de balas dum-dum, bombas incendi\u00e1rias, f\u00f3sforo branco, bombas de fragmenta\u00e7\u00e3o, s\u00e3o artefatos recorrentemente utilizados, segundo den\u00fancias. Ent\u00e3o, usar armas nucleares n\u00e3o seria nenhum espanto, nem novidade.<\/p>\n<p>Confirmado o uso da bomba no atual conflito, a guerra deixa de ser convencional (considerada regular?), para passar a ser irregular, se caracterizando como um exterm\u00ednio \u00e9tnico, limpeza \u00e9tnica, genoc\u00eddio. Seria mais um passo para atingir os objetivos de avan\u00e7os e controle de territ\u00f3rios palestinos que contam com reservas consider\u00e1veis de petr\u00f3leo e g\u00e1s, na \u00e1rea C da Cisjord\u00e2nia (costa do mediterr\u00e2neo) e ao longo da Faixa se Gaza. Tais informa\u00e7\u00f5es podem ser encontradas no estudo O Custo Econ\u00f4mico da Ocupa\u00e7\u00e3o do Povo Palestino: O Potencial N\u00e3o Realizado de Petr\u00f3leo e G\u00e1s Natural da Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Com\u00e9rcio e Desenvolvimento, Unctad.<\/p>\n<p>O uso da viol\u00eancia nos conflitos armados, sobretudo quando os Estados Nacionais n\u00e3o est\u00e3o envolvidos, de forma direta, permite que sejam cometidas atrocidades com incomensur\u00e1veis consequ\u00eancias n\u00e3o s\u00f3 para os povos envolvidos, mas para toda a humanidade.<\/p>\n<p>O perigo nuclear que nos ronda est\u00e1 n\u00e3o somente na fabrica\u00e7\u00e3o e uso de bombas nucleares, mas tamb\u00e9m na prolifera\u00e7\u00e3o de usinas nucleares para produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica, as chamadas usinas nucleoel\u00e9tricas. Tais usinas utilizando como combust\u00edvel o ur\u00e2nio 235, enriquecido a 4%, aproximadamente, produz res\u00edduos altamente radioativos, nocivos \u00e0 sa\u00fade humana por milhares de anos. Um dos res\u00edduos produzidos \u00e9 o plut\u00f4nio-239, is\u00f3topo f\u00edssil utilizado na bomba lan\u00e7ada em Nagasaki.<\/p>\n<p>O Brasil domina a tecnologia do ciclo do combust\u00edvel nuclear, mas n\u00e3o fabrica armas nucleares, pois al\u00e9m do veto expl\u00edcito na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, tamb\u00e9m \u00e9 signat\u00e1rio do Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares (TNP), assinado em 1998.O que preocupa, \u00e9 que segundo a World Nuclear Association, o Brasil \u00e9 uma das 13 na\u00e7\u00f5es capazes de enriquecer o min\u00e9rio. Para a fabrica\u00e7\u00e3o da bomba at\u00f4mica tupiniquim seria necess\u00e1rio realizar uma reconfigura\u00e7\u00e3o, aumentando o n\u00famero de centr\u00edfugas na f\u00e1brica de Combust\u00edvel Nuclear (FCN) da Ind\u00fastrias Nucleares do Brasil (INB), localizada em Resende (RJ). Al\u00e9m de uma mudan\u00e7a constitucional e o abandono do TNP.<\/p>\n<p>Um aspecto a ser ressaltado que est\u00e1 presente na cabe\u00e7a dos militares e de muitos civis no pa\u00eds, \u00e9 a fabrica\u00e7\u00e3o da bomba at\u00f4mica tupiniquim. E, assim, o Brasil entraria no clube fechado dos pa\u00edses detentores dessa arma. Durante o governo da extrema direita, em 2019, o presidente da Comiss\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da C\u00e2mara, em uma palestra declarou explicitamente a favor do pa\u00eds ter a bomba, alegando \u201cque assim a paz seria garantida\u201d. Este parlamentar foi nada menos do que um dos filhos do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro.<\/p>\n<p>Tal opini\u00e3o em geral causa grandes pol\u00eamicas, como em 2003, quando o ent\u00e3o ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia, Roberto Amaral, afirmou ser favor\u00e1vel ao dom\u00ednio da tecnologia de fabrica\u00e7\u00e3o da bomba at\u00f4mica.<\/p>\n<p>Lembremos tamb\u00e9m que um dos momentos mais s\u00f3rdidos de nossa hist\u00f3ria foi o programa nuclear clandestino\/paralelo, iniciado no governo Ernesto Geisel, \u00e0 margem do acordo Brasil-Alemanha assinado em 1975, para a instala\u00e7\u00e3o de usinas nucleares no pa\u00eds. Os militares, em 1979, montaram uma opera\u00e7\u00e3o clandestina no interior de \u00f3rg\u00e3os oficiais, como a Comiss\u00e3o Nacional de Energia Nuclear (CNEN), para estudar t\u00e9cnicas de enriquecimento de ur\u00e2nio e o uso b\u00e9lico da energia nuclear, como propuls\u00e3o para submarinos e a bomba at\u00f4mica.<\/p>\n<p>A dissuas\u00e3o, como estrat\u00e9gia para manter a paz, \u00e9 uma ilus\u00e3o. Em vez de evitar conflitos, a disponibilidade de armas nucleares incentiva seu uso, \u00e9 um convite, pois ao inv\u00e9s de dissuadir um primeiro ataque, pode convidar a um primeiro ataque. As armas nucleares criam desconfian\u00e7a e desviam recursos financeiros que poderiam ser aplicados, por exemplo, em acabar com a fome global, e outras mazelas que atingem a maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Devido ao imenso poder destrutivo destas armas, caso sejam usadas n\u00e3o se poderia alcan\u00e7ar uma vit\u00f3ria no sentido tradicional, na medida em que esta seria baseada na busca por desarmar o inimigo e impor condi\u00e7\u00f5es e exig\u00eancias pol\u00edticas, o que n\u00e3o poderia, ao menos teoricamente, ocorrer contra um inimigo totalmente destru\u00eddo. Neste sentido, seria imposs\u00edvel (ao menos teoricamente) a ocupa\u00e7\u00e3o militar do territ\u00f3rio do advers\u00e1rio que teria sido atacado pesadamente com armas nucleares, devido \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o radiol\u00f3gica.<\/p>\n<p>A gravidade da amea\u00e7a nuclear pesa sobre toda a humanidade, e n\u00e3o somente devido \u00e0s armas nucleares, mas tamb\u00e9m ao fato das usinas nucleares produzirem elementos radioativos que poderiam ser utilizados para a fabrica\u00e7\u00e3o da bomba, e que s\u00e3o altamente prejudiciais \u00e0 vida no planeta, sem que saibamos como lidar com seguran\u00e7a em situa\u00e7\u00e3o de guerra, e nem com os res\u00edduos produzidos no funcionamento das usinas.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da chamada guerra justa, deve ser ainda dado destaque \u00e0 justi\u00e7a na guerra, ou seja, o Direito Internacional Humanit\u00e1rio (DIH), que rege a maneira como a guerra \u00e9 conduzida, procurando limitar o sofrimento causado. Na resolu\u00e7\u00e3o de conflitos, o DIH produziu um conjunto de normas internacionais, destinadas a serem aplicados em combates armados, internacionais ou internos, que limitam, por raz\u00f5es humanit\u00e1rias, o direito das partes de escolher livremente os m\u00e9todos e os meios utilizados no combate, e assim protegem as pessoas e os bens afetados.<\/p>\n<p>Logo, nas guerras em andamento, em particular nos conflitos envolvendo Israel, Palestina, S\u00edria, L\u00edbano e I\u00eamen proteger as v\u00edtimas de guerra e seus direitos fundamentais, independente da parte a qual pertencem, \u00e9 imprescind\u00edvel, e que se leve em conta e prevale\u00e7a a ideia de humanidade. O que lamentavelmente n\u00e3o est\u00e1 acontecendo, tendo em vista que o massacre naquelas regi\u00f5es, segue com o apoio, velado ou n\u00e3o, do Ocidente, o chamado mundo civilizado!<\/p>\n<p>______________________________________________<\/p>\n<p><em>* Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em F\u00edsica pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP\/SP), mestrado em Ci\u00eancias e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (DEN\/UFPE) e doutorado em Energ\u00e9tica, na Universidade de Marselha\/Aix, associado ao Centro de Estudos de Cadarache\/Comissariado de Energia At\u00f4mica (CEA)-Fran\u00e7a.<\/em><\/p>\n<pre><em>[O conte\u00fado dos artigos publicados na se\u00e7\u00e3o COLUNAS do Portal Flores no Ar \u00e9 de responsabilidade \r\ndos autores.]<\/em><\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Por Heitor Scalambrini Costa* | Em um mundo \u00e0 beira de uma cat\u00e1strofe nuclear e, tendo ainda de enfrentar a emerg\u00eancia clim\u00e1tica com a resist\u00eancia de grandes corpora\u00e7\u00f5es em abolir o uso do principal respons\u00e1vel pelo aquecimento global, os combust\u00edveis f\u00f3sseis, a popula\u00e7\u00e3o mundial se depara diante de um impasse que coloca em risco [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":45618,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[1289,220],"tags":[1521,1238,1395,1243],"acf":[],"publishpress_future_action":{"enabled":false,"date":"1969-12-31 21:00:00","action":"","terms":[],"taxonomy":"","browser_timezone_offset":0},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45617"}],"collection":[{"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45617"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45617\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":45619,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45617\/revisions\/45619"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/media\/45618"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45617"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45617"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45617"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}