

{"id":42461,"date":"2022-11-08T10:57:30","date_gmt":"2022-11-08T13:57:30","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=42461"},"modified":"2023-02-09T19:00:38","modified_gmt":"2023-02-09T22:00:38","slug":"artigo-o-que-o-brasil-real-vai-apresentar-na-cop27","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/artigo-o-que-o-brasil-real-vai-apresentar-na-cop27\/","title":{"rendered":"[COLUNA DO SCALAMBRINI] O que o Brasil real vai apresentar na COP27?"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Heitor Scalambrini Costa*<\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-medium wp-image-42470 alignleft\" src=\"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/cop-27-egito-300x160.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"160\" srcset=\"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/cop-27-egito-300x160.png 300w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/cop-27-egito.png 595w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>O sistema clim\u00e1tico da Terra tem uma hist\u00f3ria de transforma\u00e7\u00f5es, de aquecimento a resfriamento. Nos dias atuais estamos vivenciando mudan\u00e7as impulsionadas pelos impactos das atividades humanas com seu modo de vida consumista, perdul\u00e1rio e de completa falta de respeito aos direitos da natureza.<\/p>\n<p>Para enfrentar este ciclo de aquecimento global s\u00e3o necess\u00e1rias interven\u00e7\u00f5es dr\u00e1sticas e r\u00e1pidas, n\u00e3o somente com rela\u00e7\u00e3o ao combust\u00edvel f\u00f3ssil (petr\u00f3leo e derivados, g\u00e1s natural e carv\u00e3o mineral), que usamos e como usamos, e que deve ser substitu\u00eddo na matriz energ\u00e9tica mundial por fontes renov\u00e1veis de energia (sol, \u00e1gua, vento, biomassa). Mas tamb\u00e9m mudar o estilo de vida, e manter uma rela\u00e7\u00e3o respeitosa e harmoniosa com o meio ambiente.<\/p>\n<p>V\u00e1rias tentativas n\u00e3o tiveram \u00eaxito a n\u00edvel mundial de criar uma governan\u00e7a para enfrentar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, que sem d\u00favida alguma \u00e9 o maior desafio da humanidade. O que estamos presenciando \u00e9 que a crise clim\u00e1tica e ecol\u00f3gica est\u00e1 acontecendo aqui e agora, muito mais cedo do que o esperado.<\/p>\n<p>Uma vasta documenta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica produzida, e os alertas seguidos do Painel Intergovernamental de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC), mostram que as emiss\u00f5es m\u00e9dias de Gases de Efeito Estufa (GEE\u2019s) continuam aumentando, atingindo os n\u00edveis mais altos da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Vale destacar recente declara\u00e7\u00e3o do secret\u00e1rio-geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas Ant\u00f3nio Guterres, com rela\u00e7\u00e3o ao novo relat\u00f3rio elaborado pelo Grupo de Trabalho II do IPCC, como um &#8220;atlas do sofrimento humano e uma acusa\u00e7\u00e3o condenat\u00f3ria da falha de lideran\u00e7a clim\u00e1tica&#8221;, classificando o relat\u00f3rio como \u201cum arquivo da vergonha, catalogando as promessas vazias que nos colocam firmemente no caminho para um mundo inabit\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>De 6 a 18 de novembro pr\u00f3ximo, ser\u00e1 realizada a 27\u00aa Confer\u00eancia do Clima, organizada pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas. A frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 grande, pois todas outras Confer\u00eancias ocorridas nos \u00faltimos anos resultaram insuficientes para reduzir as emiss\u00f5es de GEE\u2019s, principal respons\u00e1vel pelo aquecimento global, e cujos aspectos mais \u00f3bvios envolvem os combust\u00edveis f\u00f3sseis e o desmatamento.<\/p>\n<p>Nesta COP27 ser\u00e3o, mais uma vez, cobrados dos pa\u00edses as metas de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00f5es at\u00e9 2030, as chamadas Contribui\u00e7\u00f5es Nacionalmente Determinadas (em ingl\u00eas, NDCs), que devem ser cumpridas e alinhadas com a meta estabelecida em 2015 pelo Acordo de Paris, para limitar o aumento da temperatura global a 1,5\u00ba C.<\/p>\n<p>A poucos dias do in\u00edcio da Confer\u00eancia, somente 26 pa\u00edses se manifestaram, assumindo compromissos mais ousados para redu\u00e7\u00e3o dos GEE\u2019s. Entre os principais emissores, o Brasil n\u00e3o apresentou at\u00e9 o momento seus planos clim\u00e1ticos, que necessitam de apoio de pol\u00edticas p\u00fablicas para atingirem seus objetivos.<\/p>\n<p>Na contram\u00e3o de seus compromissos volunt\u00e1rios, o atual governo brasileiro tem priorizado a\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias ao cumprimento dos acordos internacionais. A falta de a\u00e7\u00f5es concretas deve fazer o pa\u00eds reprisar o papel de p\u00e1ria internacional na COP27, como j\u00e1 aconteceu na COP25, COP26. O que se verifica nos \u00faltimos anos s\u00e3o decis\u00f5es que representam pol\u00edticas nefastas, que contribuem e n\u00e3o combatem as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Eis algumas delas:<\/p>\n<p><strong>Desmatamento crescente nos biomas<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil, a principal causa das emiss\u00f5es de GEE\u2019s, segundo o Minist\u00e9rio de Minas e Energia (MME), \u00e9 o desmatamento, representando quase 50% de todas as emiss\u00f5es. O crescimento desta atividade, majoritariamente ilegal, tem sido monitorada pelo Instituto de Pesquisa Espacial (INPE). Lamentavelmente, os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos federais, que deveriam combater e reprimir tais pr\u00e1ticas, foram completamente desfigurados, quer pela ocupa\u00e7\u00e3o de dirigentes descompromissados com a preserva\u00e7\u00e3o ambiental, quer pela redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica dos repasses federais. Os n\u00fameros est\u00e3o a\u00ed para comprovar a completa falta de engajamento do atual governo federal, que insiste em mentir para a comunidade internacional, e assim n\u00e3o cumprir suas responsabilidades. Narrativas oficiais geram a desinforma\u00e7\u00e3o a respeito da Amaz\u00f4nia, e de outros biomas, negando o que a ci\u00eancia tem afirmado, e o que se tem verificado de fato.<\/p>\n<p><strong>Incentivo ao carv\u00e3o mineral<\/strong> (combust\u00edvel f\u00f3ssil poluente e perigoso para a sa\u00fade, e para o meio ambiente)<\/p>\n<p>A desativa\u00e7\u00e3o de termel\u00e9tricas a combust\u00edveis f\u00f3sseis, especialmente aquelas que queimam carv\u00e3o mineral, \u00e9 uma das a\u00e7\u00f5es em andamento no mundo inteiro, como parte dos esfor\u00e7os globais de descarboniza\u00e7\u00e3o do planeta. Durante a COP26, em Glasgow\/Esc\u00f3cia, o Brasil assumiu, ao lado de mais de 40 pa\u00edses, o compromisso de eliminar o uso do carv\u00e3o para gerar eletricidade. Todavia, no in\u00edcio de 2022, o governo federal sancionou o Programa de Transi\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica Justa que garantiu a contrata\u00e7\u00e3o, at\u00e9 2040, da energia gerada por termel\u00e9tricas a carv\u00e3o. De fato, determinou a prorroga\u00e7\u00e3o dos contratos das usinas. Isso quer dizer que continuar\u00e3o gerando energia para o sistema el\u00e9trico nacional. \u00c9 o dinheiro p\u00fablico que financia a polui\u00e7\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o ambiental promovida pela ind\u00fastria carbon\u00edfera. Em 2021 foram mais de 750 milh\u00f5es de reais de subs\u00eddios a esta atividade que contribui muito para o efeito estufa, e consequentemente para o aquecimento global.<\/p>\n<p><strong>O desest\u00edmulo \u00e0 gera\u00e7\u00e3o distribu\u00edda (GD)<\/strong><\/p>\n<p>A Lei 14.300\/2022 criou o Marco Legal da Gera\u00e7\u00e3o Distribu\u00edda (GD). O ponto central desta mudan\u00e7a foi de que tudo que o sistema gerador produzia era injetado na rede, e poderia ser consumido sem pagar taxas (somente as taxas tribut\u00e1rias PIS e COFINS s\u00e3o cobradas). Todavia, a partir do dia 07\/01\/2023, o sistema de compensa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 parcial. A partir desta data ser\u00e1 necess\u00e1rio pagar o Fio B \u00e0 distribuidora, que equivale em m\u00e9dia 30% da redu\u00e7\u00e3o desse cr\u00e9dito injetado. Sem d\u00favida, esta mudan\u00e7a proporcionada e defendida pelas distribuidoras (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Distribuidores de Energia El\u00e9trica-ABRADEE), vai interferir no mercado da GD, tornando os sistemas fotovoltaicos de at\u00e9 3 MW, mais caros, menos atrativos. Tudo para favorecer as distribuidoras. Este aumento no custo do sistema ficou conhecido como \u201ctaxa do Sol\u201d. Outro aspecto que merece destaque foi a retirada dos enquadramentos de projetos de micro e mini GD de programas como o Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (REIDI), Fundos de Investimento em Participa\u00e7\u00e3o (FIP) e deb\u00eantures incentivadas. Assim, os projetos de GD n\u00e3o ser\u00e3o financiados por estes mecanismos. Outra mudan\u00e7a de desest\u00edmulo para o consumidor de sistemas de GD.<\/p>\n<p><strong>Aumento do uso das termel\u00e9tricas a g\u00e1s natural<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil aumentou em 77% a gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica por meio das usinas termel\u00e9tricas a combust\u00edveis f\u00f3sseis de 2020 a 2021, segundo estudo divulgado pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA). Os dados foram publicados no Invent\u00e1rio de Emiss\u00f5es Atmosf\u00e9ricas em Usinas Termel\u00e9tricas. O crescimento do uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis para produzir eletricidade vai na contram\u00e3o dos objetivos globais de reduzir as emiss\u00f5es GEE\u2019s. Dentre as fontes fosseis foi o g\u00e1s natural quem apresentou o maior crescimento nos \u00faltimos 20 anos. Mesmo gerando menos GEE\u2019s, comparando com o carv\u00e3o mineral, n\u00e3o deixa de ser um combust\u00edvel altamente poluente, e que precisa ser substitu\u00eddo por fontes renov\u00e1veis. O avan\u00e7o das termel\u00e9tricas a g\u00e1s \u00e9 not\u00f3rio. A lei que tratou da privatiza\u00e7\u00e3o da Eletrobras prev\u00ea a contrata\u00e7\u00e3o de 8 GW de termel\u00e9tricas a g\u00e1s. O que mostra o avan\u00e7o desta tecnologia na matriz el\u00e9trica nacional. Segundo a Ag\u00eancia Internacional de Energia (AIE), a queima de uma tonelada equivalente de petr\u00f3leo (tep) de g\u00e1s natural produz 2,12 toneladas de CO2.<\/p>\n<p><strong>A frouxid\u00e3o no licenciamento ambiental e na fiscaliza\u00e7\u00e3o de complexos e\u00f3licos<\/strong><\/p>\n<p>A energia e\u00f3lica em grande escala tem tido um crescimento espantoso no Brasil. Em 15 anos passou de 1 MW de pot\u00eancia instalada para 22 GW (812 parques e\u00f3licos, 9.200 aerogeradores, presente em 12 Estados), com complexos instalados em terra firme (onshore). Os impactos, conflitos e injusti\u00e7as socioambientais est\u00e3o presentes neste modelo de expans\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica, em particular no NE, onde concentra mais de 3\/4 de toda pot\u00eancia instalada no pa\u00eds. Com regras frouxas de licenciamento, e falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o, v\u00e1rios impactos socioambientais s\u00e3o detectados, e que poderiam ser evitados. Uma ampla bibliografia produzida na academia, pelos movimentos sociais est\u00e1 dispon\u00edvel sobre este tema. Todavia o governo federal, governos estaduais, aliados as empresas, insistem em n\u00e3o discutir e propor alternativas para tais problemas, o que tem provocado: aumento do desmatamento, problemas de sa\u00fade dos moradores pr\u00f3ximos a estas instala\u00e7\u00f5es (<a href=\"https:\/\/infosaofrancisco.canoadetolda.org.br\/noticias\/energia-eolica\/negocios-do-vento-nova-fronteira-de-desmatamento-do-semiarido\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/infosaofrancisco.canoadetolda.org.br\/noticias\/energia-eolica\/negocios-do-vento-nova-fronteira-de-desmatamento-do-semiarido\/<\/a>), altera\u00e7\u00f5es do n\u00edvel hidrost\u00e1tico do len\u00e7ol fre\u00e1tico no processo de instala\u00e7\u00e3o da estrutura das torres, aterramento e devasta\u00e7\u00e3o de dunas, deslocamentos for\u00e7ados de popula\u00e7\u00f5es com destrui\u00e7\u00f5es de modos de vida de popula\u00e7\u00f5es tradicionais, expropria\u00e7\u00e3o de terras (com cl\u00e1usulas contratuais draconianos de arrendamento), e pagamento irris\u00f3rio dos arrendantes. \u00c9 necess\u00e1ria uma ampla revis\u00e3o da conduta das empresas que n\u00e3o cumprem as boas pr\u00e1ticas socioambientais, e dos \u00f3rg\u00e3os governamentais (<a href=\"https:\/\/congressoemfoco.uol.com.br\/temas\/meio-ambiente\/geracao-eolica-nao-cumpre-as-boas-pratica-socioambientais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/congressoemfoco.uol.com.br\/temas\/meio-ambiente\/geracao-eolica-nao-cumpre-as-boas-pratica-socioambientais\/<\/a>), que compactuam com as in\u00fameras viola\u00e7\u00f5es cometidas pelos \u201cneg\u00f3cios do vento\u201d. (<a href=\"https:\/\/portal.unicap.br\/-\/por-que-nao-discutir-os-impactos-socioambientais-dos-negocios-do-vento\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/portal.unicap.br\/-\/por-que-nao-discutir-os-impactos-socioambientais-dos-negocios-do-vento<\/a>).<\/p>\n<p><strong>A insist\u00eancia em programas nucleares, com as indesej\u00e1veis usinas e submarinos nucleares<\/strong><\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o por usinas nucleoel\u00e9tricas no territ\u00f3rio nacional \u00e9 um dos maiores erros na pol\u00edtica energ\u00e9tica brasileira, decidida por poucos. O Brasil n\u00e3o precisa das usinas nucleares para produzir energia el\u00e9trica, principalmente pela grande diversidade de fontes renov\u00e1veis dispon\u00edveis. Ao analisar sob diversos aspectos a instala\u00e7\u00e3o de usinas nucleares, n\u00e3o faltam raz\u00f5es para rejeitar esta tecnologia, que v\u00e3o desde a quest\u00e3o da seguran\u00e7a energ\u00e9tica, o alto custo da energia gerada, a polui\u00e7\u00e3o ambiental, aspectos sociais, os enormes riscos provocados, a prolifera\u00e7\u00e3o e militariza\u00e7\u00e3o nuclear, criando a insustentabilidade energ\u00e9tica, e interferindo na pr\u00f3pria democracia (<a href=\"https:\/\/www.ecodebate.com.br\/2019\/08\/29\/porque-o-brasil-nao-precisa-de-energia-nuclear-artigo-de-heitor-scalambrini-costa-e-zoraide-vilasboas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.ecodebate.com.br\/2019\/08\/29\/porque-o-brasil-nao-precisa-de-energia-nuclear-artigo-de-heitor-scalambrini-costa-e-zoraide-vilasboas\/<\/a>). Uma forte influ\u00eancia da poderosa ind\u00fastria nuclear em diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina \u00e9 exercida nos setores legislativos e sobre os decididores da pol\u00edtica energ\u00e9tica, tentando impor tal tecnologia, sob o falso argumento de que a energia nuclear \u00e9 uma fonte \u201climpa\u201d, segura, barata, e que contribui para evitar o aquecimento global. No caso do uso militar desta tecnologia, o Brasil tem avan\u00e7ado na constru\u00e7\u00e3o de submarinos nucleares, com um olho na fabrica\u00e7\u00e3o da bomba nuclear tupiniquim.<\/p>\n<p><strong>Regramento \u201c\u00e0s pressas\u201d para gera\u00e7\u00e3o e\u00f3lica <em>offshore<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A press\u00e3o das empresas, dos grandes investidores nacionais e internacionais levou o governo federal a\u00e7odadamente a propor regras para a contrata\u00e7\u00e3o de \u00e1reas mar\u00edtimas (costa de 7.367 km e 3,5 milh\u00f5es km2 sob jurisdi\u00e7\u00e3o) para a instala\u00e7\u00e3o de complexos e\u00f3licos <em>offshore<\/em>. Como \u00e9 recorrente nas decis\u00f5es sobre pol\u00edtica energ\u00e9tica, a falta de transpar\u00eancia e a participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil foi inexistente. As portarias ministeriais editadas em 20 de outubro \u00faltimo, vieram atender os \u201cneg\u00f3cios do vento\u201d, os principais benefici\u00e1rios. Grande parte do que est\u00e1 posto nas atuais regras, veio do setor representado pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Energia E\u00f3lica (Abee\u00f3lica). A Portaria n\u00ba 52 do Minist\u00e9rio das Minas e Energia (MME) detalha a delega\u00e7\u00e3o de compet\u00eancia \u00e0 Ag\u00eancia Nacional de Energia El\u00e9trica (Aneel) que ter\u00e1 amplos poderes. A Portaria Interministerial n\u00ba 3, definiu regras para a cria\u00e7\u00e3o e funcionamento de um Portal \u00danico de Gest\u00e3o do Uso de \u00c1reas <em>Offshore<\/em>. As portarias s\u00e3o uma continuidade do decreto 10.946\/2022, que iniciou o estabelecimento do marco regulat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Se j\u00e1 conhecemos os impactos socioambientais das instala\u00e7\u00f5es terrestres, negados pelos empreendedores, e com a omiss\u00e3o do poder p\u00fablico, o que poder\u00e1 representar estas instala\u00e7\u00f5es para a sobreviv\u00eancia das popula\u00e7\u00f5es que vivem da pesca e da coleta de frutos do mar? E os impactos para o meio ambiente mar\u00edtimo com centenas e mesmo milhares de aerogeradores? Al\u00e9m do uso tradicional (recreacional, pesca, turismo e navega\u00e7\u00e3o), como vai interferir em outras atividades: cient\u00edficas e econ\u00f4micas? A corrida para a produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica pelos complexos e\u00f3licos <em>offshore<\/em> \u00e9 grandiosa. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis (Ibama) contabiliza 170 gigawatts (GW) em projetos (em torno de 11.500 aerogeradores), aguardando licenciamento. O volume de energia gerado ter\u00e1 como principal objetivo produzir a nova commodity sensa\u00e7\u00e3o, o hidrog\u00eanio. E assim desenvolver projetos e\u00f3lica <em>offshore<\/em>\/hidrog\u00eanio, mesmo que tenham custos mais altos.<\/p>\n<p><strong>Investimentos crescentes na ind\u00fastria de petr\u00f3leo e g\u00e1s (aumento da produ\u00e7\u00e3o)<\/strong><\/p>\n<p>Segundo dados da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Empresas de Servi\u00e7os de Petr\u00f3leo (ABESPetro) os investimentos da ind\u00fastria de petr\u00f3leo e g\u00e1s no Brasil alcan\u00e7ar\u00e3o em torno de US$24 bilh\u00f5es por ano, ou o equivalente a R$120 bilh\u00f5es\/ano, at\u00e9 2025. Os projetos j\u00e1 aprovados totalizam investimentos de US$156 bilh\u00f5es at\u00e9 2030. Estes n\u00fameros mostram que mesmo o petr\u00f3leo e g\u00e1s, fontes f\u00f3sseis de energia, s\u00e3o os maiores emissores de GEE\u2019s, o pa\u00eds ainda privilegia e financia quem provoca o aquecimento global.<\/p>\n<p>O governo brasileiro se comprometeu a neutralizar as emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono at\u00e9 o meio do s\u00e9culo, e at\u00e9 2030 reduzir pela metade; e erradicar o desmatamento ilegal at\u00e9 2028. As promessas brasileiras j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais cred\u00edveis, diante de tantas a\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias ao enfrentamento da emerg\u00eancia clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Devemos levar em conta que toda atividade humana acarreta algum tipo de risco, de impacto sobre o meio ambiente e as pessoas. Devemos avaliar se o risco compensa. Infelizmente verifica-se que o tal propalado desenvolvimento sustent\u00e1vel \u00e9 algo usado como propaganda, sem a\u00e7\u00f5es robustas e concretas que justifiquem o almejado desenvolvimento que enfrente as desigualdades sociais, a fome, e que promova a justi\u00e7a socioambiental.<\/p>\n<p>Do lado das empresas, seu prop\u00f3sito n\u00e3o \u00e9 salvar o mundo, mas sim lucrar, obter o m\u00e1ximo de lucro, e assim deixar seus acionistas e os mercados satisfeitos. Do lado do governo federal, existe uma inequ\u00edvoca decis\u00e3o de contrariar os preceitos da ci\u00eancia, diante dos constantes alertas sobre a grave crise energ\u00e9tica-ecol\u00f3gica; e assim caminhar na dire\u00e7\u00e3o do desastre clim\u00e1tico. Logo, resta \u00e0 sociedade (re)agir diante das decis\u00f5es equivocadas do atual governo.<\/p>\n<p><em>*Heitor Scalambrini Costa \u00e9 professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Heitor Scalambrini Costa* O sistema clim\u00e1tico da Terra tem uma hist\u00f3ria de transforma\u00e7\u00f5es, de aquecimento a resfriamento. Nos dias atuais estamos vivenciando mudan\u00e7as impulsionadas pelos impactos das atividades humanas com seu modo de vida consumista, perdul\u00e1rio e de completa falta de respeito aos direitos da natureza. 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