

{"id":41807,"date":"2022-06-20T09:06:21","date_gmt":"2022-06-20T12:06:21","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=41807"},"modified":"2022-06-20T09:07:08","modified_gmt":"2022-06-20T12:07:08","slug":"artigo-eu-quero-o-meu-sertao-de-volta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/artigo-eu-quero-o-meu-sertao-de-volta\/","title":{"rendered":"[ARTIGO] Eu quero o meu Sert\u00e3o de volta"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_41808\" aria-describedby=\"caption-attachment-41808\" style=\"width: 607px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-41808\" src=\"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Sert\u00e3o-paraibano_-foto-Lu-Rabelo-700x393.jpg\" alt=\"\" width=\"607\" height=\"341\" srcset=\"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Sert\u00e3o-paraibano_-foto-Lu-Rabelo-700x393.jpg 700w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Sert\u00e3o-paraibano_-foto-Lu-Rabelo-300x169.jpg 300w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Sert\u00e3o-paraibano_-foto-Lu-Rabelo-768x432.jpg 768w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Sert\u00e3o-paraibano_-foto-Lu-Rabelo.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 607px) 100vw, 607px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-41808\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Banco de Imagens\/ Flores no Ar<\/figcaption><\/figure>\n<p>|<em> Por Anselmo Alves*<\/em> |<\/p>\n<pre>(Texto escrito no ano de 2010)<\/pre>\n<p>Nos \u00faltimos dez anos tenho viajado frequentemente pelo sert\u00e3o de Pernambuco, e assistido, n\u00e3o sem revolta, a um processo cruel de desconstru\u00e7\u00e3o da cultura sertaneja com a coniv\u00eancia da maioria das prefeituras e r\u00e1dios do interior. Em todos os espa\u00e7os de conviv\u00eancia, pra\u00e7as bares e na quase maioria dos shows, o que se escuta \u00e9 m\u00fasica de p\u00e9ssima qualidade que, n\u00e3o raro, desqualifica e coisifica a mulher e embrutece o homem.<\/p>\n<p>O que adianta as campanhas bem intencionadas do governo federal contra o alcoolismo e a prostitui\u00e7\u00e3o infantil, quando a popula\u00e7\u00e3o canta \u201cbeber cair e levantar\u201d, ou &#8220;dinheiro na m\u00e3o e calcinha no ch\u00e3o\u201d?<\/p>\n<p>O que adianta o governo estadual criar novas delegacias da mulher se elas pr\u00f3prias tamb\u00e9m cantam e rebolam ao som de letras que incitam a viol\u00eancia sexual? O que dizer de homens que se divertem cantando \u201cvou soltar uma bomba no cabar\u00e9 e vai ser peda\u00e7o de puta pra todo lado\u201d? Ser\u00e1 que s\u00e3o esses trogloditas que chegam em casa, depois de beber, cair e levantar, e surram suas mulheres e abusam de suas filhas e enteadas?<\/p>\n<p>Por onde andam as mulheres que fizeram movimento feminista, t\u00e3o atuante nos anos 70 e 80, que n\u00e3o reagem contra essa onda musical grosseira e violenta? Se fazem alguma coisa, tem sido de forma muito discreta, pois leio os tr\u00eas jornais de maior circula\u00e7\u00e3o no estado todos os dias, e nada encontro que questione tamanha barb\u00e1rie. E boa parte dos meios de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o coniventes, pois existe muito dinheiro e interesses envolvidos na dissemina\u00e7\u00e3o dessas m\u00fasicas de baixa qualidade.<\/p>\n<p>E n\u00e3o pense que essa avalanche de mediocridade atinge apenas os menos favorecidos da base de nossa pir\u00e2mide social, e com menor grau de instru\u00e7\u00e3o escolar. Cansei de ver (e ouvir) jovens que estacionam onde bem entendem, escancaram a mala de seus carros exibindo, como pav\u00f5es emplumados, seus modern\u00edssimos equipamentos de som e v\u00eddeo na execu\u00e7\u00e3o exageradamente alta dos cds e dvds dessas bandas que se dizem forr\u00f3 eletr\u00f4nico. O que fazem os promotores de justi\u00e7a, ju\u00edzes, delegados que n\u00e3o co\u00edbem, dentro de suas \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o, esses abusos?<\/p>\n<p>Quando Luiz Gonzaga e seus grandes parceiros, Humberto Teixeira e Z\u00e9 Dantas, criaram o forr\u00f3, n\u00e3o imaginavam que depois de suas mortes essas bandas que hoje se multiplicam pelo Brasil praticassem um estelionato po\u00e9tico ao usarem o nome forr\u00f3 para a m\u00fasica que fazem.<\/p>\n<p>O que esses conjuntos musicais praticam n\u00e3o \u00e9 forr\u00f3! O forr\u00f3 \u00e9 inspirado na matriz po\u00e9tica do sertanejo; eles se inspiram numa matriz sexual chula! O forr\u00f3 \u00e9 uma dan\u00e7a alegre e sensual; eles exibem uma coreografia explicitamente sexual! O forr\u00f3 \u00e9 g\u00eanero musical que agrega v\u00e1rios ritmos como o xote, o bai\u00e3o, o xaxado; eles criaram uma \u00fanica pancada musical que, em absoluto, n\u00e3o corresponde aos ritmos do forr\u00f3! E se apresenta como bandas de \u201cforr\u00f3 eletr\u00f4nico\u201d! Na verdade, Elba Ramalho e o pr\u00f3prio Gonzaga j\u00e1 faziam o verdadeiro forr\u00f3 eletr\u00f4nico, de qualidade, nos anos 80.<\/p>\n<p>Em contrapartida, o movimento do forr\u00f3 p\u00e9-de-serra deixa a desejar na produ\u00e7\u00e3o de um forr\u00f3 de qualidade. Na maioria das vezes as letras s\u00e3o pouco criativas; tornaram-se ref\u00e9ns de uma mesma tem\u00e1tica. Os arranjos executados s\u00e3o parecidos! Pouco se pesquisa no valioso e grande arquivo gonzaguiano. A qualidade t\u00e9cnica e visual da maioria dos cds tamb\u00e9m deixa a desejar, e falta uma produ\u00e7\u00e3o mais cuidadosa para as apresenta\u00e7\u00f5es em geral.<\/p>\n<p>Da dan\u00e7a da garrafa de Carla Perez at\u00e9 os dias de hoje formou-se uma gera\u00e7\u00e3o que se acostumou com o lixo musical! N\u00e3o, meus amigos: n\u00e3o \u00e9 conservadorismo, nem saudosismo! Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel o novo sem os alicerces do velho! Que o digam Chico Science e o Cordel do Fogo Encantado que, inspirados nas nossas matrizes musicais, criaram um novo som para o mundo. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel qualidade de vida plena com mediocridade cultural, intoler\u00e2ncia, incitamento \u00e0 viol\u00eancia sexual e ao alcoolismo!<\/p>\n<p>Mas, felizmente, h\u00e1 exemplos que podem ser seguidos. A Prefeitura do Recife tem conseguido realizar um S\u00e3o Jo\u00e3o e outras festas de nosso calend\u00e1rio cultural com uma boa curadoria musical e retorno excelente de p\u00fablico. A Fundarpe tem demonstrado a mesma boa vontade ao priorizar os projetos de qualidade e relev\u00e2ncia cultural.<\/p>\n<p>Escrevendo essas linhas, recordo minha inf\u00e2ncia em Serra Talhada, ouvindo o maestro Moacir Santos e meu querido tio Ed\u00e9sio em seus encontros musicais, cada um com o seu sax, em verdadeiros di\u00e1logos po\u00e9ticos! Hoje s\u00e3o estrelas no c\u00e9u do Paje\u00fa das Flores! Eu quero o meu sert\u00e3o de volta!<\/p>\n<p><em>* Anselmo Alves, pernambucano, nascido em Serra Talhada, \u00e9 pesquisador e documentarista.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Por Anselmo Alves* | (Texto escrito no ano de 2010) Nos \u00faltimos dez anos tenho viajado frequentemente pelo sert\u00e3o de Pernambuco, e assistido, n\u00e3o sem revolta, a um processo cruel de desconstru\u00e7\u00e3o da cultura sertaneja com a coniv\u00eancia da maioria das prefeituras e r\u00e1dios do interior. 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