

{"id":40982,"date":"2022-02-09T10:14:44","date_gmt":"2022-02-09T13:14:44","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=40982"},"modified":"2023-02-09T19:09:19","modified_gmt":"2023-02-09T22:09:19","slug":"artigo-o-negacionismo-nuclear","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/artigo-o-negacionismo-nuclear\/","title":{"rendered":"[COLUNA DO SCALAMBRINI] O negacionismo nuclear"},"content":{"rendered":"<p>| <em>Por Heitor Scalambrini Costa*<\/em> |<\/p>\n<p>O negacionismo do atual desgoverno est\u00e1 presente em v\u00e1rios atos e atitudes de seus membros, em particular do presidente da Rep\u00fablica. O termo negacionismo \u00e9 o ato de negar fatos, acontecimentos e evid\u00eancias cient\u00edficas. Tal estrat\u00e9gia tem sido utilizada para a forma\u00e7\u00e3o de uma governamentalidade (defini\u00e7\u00e3o dada pelo fil\u00f3sofo franc\u00eas Michel Foucault, como sendo o conjunto de t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias usadas para exercer o poder e conduzir as condutas dos governados), e assim criar as pr\u00f3prias verdades. O que acaba dificultando e confundindo a percep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico em geral, do risco de determinados eventos de grandes impactos e repercuss\u00e3o, como, por exemplo, o que tem acontecido com a pandemia do Coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de uma realidade paralela caracteriza-se por negar a pr\u00f3pria pandemia, propagandear o uso de rem\u00e9dios ineficazes e questionar a efic\u00e1cia da vacina, o que contribuiu nestes dois \u00faltimos anos para ceifar uma quantidade elevada de vidas humanas. Segundo cientistas, se cuidados b\u00e1sicos tivessem sido implementados pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade para enfrentar a pandemia, um grande n\u00famero de \u00f3bitos seria evitado.<\/p>\n<p>Outro tipo de negacionismo praticado tem sido o negacionismo nuclear. Com uma campanha publicit\u00e1ria lan\u00e7ada recentemente pela Eletrobr\u00e1s Eletronuclear, o desgoverno federal escolheu exaltar mentiras, distorcer fatos, manipular e esconder dados sobre as usinas nucleares, cujas instala\u00e7\u00f5es no pa\u00eds se tornaram uma prioridade.<\/p>\n<p>O que tem sido constatado ap\u00f3s o \u00faltimo acidente nuclear, ocorrido em Fukushima (antes o de Chernobyl), \u00e9 que financiadores de <em>\u201cthink tanks\u201d<\/em> (institui\u00e7\u00f5es que se dedicam a produzir conhecimento, e cuja principal fun\u00e7\u00e3o \u00e9 influenciar a tomada de decis\u00e3o das esferas p\u00fablica e privada, como de formuladores de pol\u00edticas) e lobistas defensores da tecnologia nuclear est\u00e3o com campanhas pr\u00f3 usinas nucleares\u00a0 muito ativas e atuantes, se valendo de desinforma\u00e7\u00e3o. A falta de transpar\u00eancia \u00e9 a arma utilizada pelos interesses dos neg\u00f3cios nucleares.<\/p>\n<p>Negar fatos e evid\u00eancias cient\u00edficas, mesmo que elas estejam muito bem explicadas, documentadas, \u00e9 a ess\u00eancia da pr\u00e1tica que serve para explicar qualquer tipo de negacionismo, incluindo o do uso de usinas nucleares, que nada mais s\u00e3o do que instala\u00e7\u00f5es industriais, que empregam materiais radioativos para produzir calor, e a partir deste calor gerar energia el\u00e9trica, como em uma termoel\u00e9trica. O que muda nas termel\u00e9tricas \u00e9 o combust\u00edvel utilizado.<\/p>\n<p>No caso do uso da energia nuclear, tamb\u00e9m conhecida como energia at\u00f4mica, algumas mentiras sobre esta fonte energ\u00e9tica s\u00e3o defendidas, disseminadas, replicadas, compartilhadas, e, assim, passam a construir verdades que acabam exercendo press\u00e3o, com o objetivo de minimizar e dificultar a percep\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o sobre os reais riscos e perigos que esta tecnologia representa, al\u00e9m de ser cara e suja, e\u00a0 totalmente desnecess\u00e1ria para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica energ\u00e9tica atual tem-se caracterizado pela falta de apoio efetivo \u00e0s fontes renov\u00e1veis de energia. Ao contr\u00e1rio, o ministro de Minas e Energia proclama como priorit\u00e1rio a nucleoeletricidade. Insiste em priorizar e promover fontes de energia questionadas, mesmo abandonadas pelo resto do mundo, caso do apoio ao carv\u00e3o mineral para termel\u00e9tricas, e da pr\u00f3pria energia nuclear.<\/p>\n<p>No mundo em que vivemos cada a\u00e7\u00e3o praticada implica em riscos. Assim, precisamos decidir sobre quais riscos s\u00e3o aceit\u00e1veis, j\u00e1 que elimin\u00e1-los \u00e9 imposs\u00edvel. N\u00e3o existe risco zero.<\/p>\n<p>A ocorr\u00eancia de um acidente severo em usinas nucleares \u00e9 catastr\u00f3fica aos seres vivos, ou seja, o vazamento de material radioativo confinado no interior do reator para o meio ambiente. <strong>\u00c9 bom que se saiba que inexiste qualquer outro tipo de acidente que se assemelha \u00e0 radioatividade lan\u00e7ada ao meio ambiente, e suas consequ\u00eancias e impactos, presentes e futuros<\/strong>.<\/p>\n<p>No caso de usinas nucleares, onde rea\u00e7\u00f5es nucleares com material f\u00edssil produz grande quantidade de calor concentrada em um espa\u00e7o pequeno, no n\u00facleo do reator, maiores s\u00e3o as consequ\u00eancias de qualquer anomalia acontecer, e se tornar uma cat\u00e1strofe. Quanto maior a complexidade do sistema, mais elementos interagem entre si, e maiores s\u00e3o as chances de acidentes, mesmo com todos os cuidados preventivos. Neste caso, existe a possibilidade concreta de se cumprir a Lei de Murphy, segundo a qual \u201cse uma coisa pode dar errado, ela dar\u00e1, e na pior hora poss\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p><strong>Eis algumas mentiras que s\u00e3o propagadas, e que s\u00e3o motivadas pelas consequ\u00eancias pol\u00edticas e econ\u00f4micas que representam, e que merecem os esclarecimentos devidos:<\/strong><\/p>\n<p><em>&#8220;A energia nuclear \u00e9 inesgot\u00e1vel, ilimitada&#8221;<\/em><br \/>\nAs usinas nucleares existentes no pa\u00eds, e as novas propostas, utilizam como combust\u00edvel o ur\u00e2nio 235 (is\u00f3topo do ur\u00e2nio encontrado na natureza). Este tipo de ur\u00e2nio, que se presta \u00e0 fiss\u00e3o nuclear, \u00e9 encontrado na natureza na propor\u00e7\u00e3o, em m\u00e9dia, de 0,7%. Todavia \u00e9 necess\u00e1ria uma concentra\u00e7\u00e3o superior a 3% para ser usado como combust\u00edvel, assim \u00e9 necess\u00e1rio enriquec\u00ea-lo, aumentando o teor do elemento f\u00edssil. Pode-se afirmar que haver\u00e1 ur\u00e2nio 235, suficiente para mais 30-50 anos, a custos razo\u00e1veis, para atender as usinas nucleares existentes.<\/p>\n<p><em>&#8220;A energia nuclear \u00e9 barata&#8221;<\/em><br \/>\n\u00c9 muito mais cara do que nos fazem crer, sem contar com os custos de armazenagem do lixo radioativo, e o desmantelamento\/descomissionamento no fim da vida \u00fatil da usina (custa aproximadamente o mesmo valor que a de sua constru\u00e7\u00e3o). Logo, o custo do kWh produzido \u00e9 pr\u00f3ximo, e mesmo superior ao das termel\u00e9tricas a combust\u00edveis f\u00f3sseis. E sem d\u00favida, acontecer\u00e1 o repasse de tais custos para o consumidor final.<\/p>\n<p><em>&#8220;A taxa de mortalidade de um desastre nuclear \u00e9 baixa&#8221;<\/em><br \/>\nO contato de seres vivos, em particular de humanos, com a radia\u00e7\u00e3o liberada por uma usina nuclear, tem efeitos biol\u00f3gicos dram\u00e1ticos, e vai depender de uma s\u00e9rie de fatores, entre os quais: o tipo de radia\u00e7\u00e3o, o tipo de tecido vivo atingido, o tempo de exposi\u00e7\u00e3o e a intensidade da fonte radioativa. Conforme a dose recebida, os danos \u00e0s c\u00e9lulas podem levar um tempo. Podem ser desde queimaduras at\u00e9 aumento da probabilidade de c\u00e2ncer em diferentes partes do organismo humano. Portanto, em casos de acidentes severos j\u00e1 ocorridos, o n\u00famero de mortes logo ap\u00f3s o contato com material radioativo n\u00e3o foi grande; mas as mortes posteriores foram expressivas, segundo organismos n\u00e3o governamentais. Nestes casos a dificuldade de contabilizar a verdadeira taxa de mortalidade \u00e9 dificultada pela mobilidade das pessoas. Pessoas que moravam pr\u00f3ximas ao local destas trag\u00e9dias, e que foram contaminadas, se mudam, e a evolu\u00e7\u00e3o da sa\u00fade individual fica praticamente imposs\u00edvel de se acompanhar.<\/p>\n<p><em>&#8220;O nuclear \u00e9 seguro&#8221;<\/em><br \/>\nEmbora o risco de acidente nuclear seja pequeno, \u00e9 preciso consider\u00e1-lo, haja vista que j\u00e1 aconteceu em diferentes momentos da hist\u00f3ria, e possui consequ\u00eancias devastadoras. Um acidente nuclear torna a \u00e1rea em que ocorreu inabit\u00e1vel. Rios, lagos, len\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos e solos s\u00e3o contaminados. Esse tipo de acidente ainda ocasiona altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas em seres vivos.<\/p>\n<p><em>&#8220;O uso da energia nuclear est\u00e1 em pleno crescimento no mundo&#8221;<\/em><br \/>\nEsta \u00e9 uma fal\u00e1cia recorrente dos que creditam a esta tecnologia um crescimento mundial. V\u00e1rios pa\u00edses t\u00eam criado dificuldades para a expans\u00e3o de usinas, e mesmo abandonando a nucleoeletricidade. Como exemplos temos a Alemanha, \u00c1ustria, B\u00e9lgica, It\u00e1lia, Portugal, &#8230;. E em outros pa\u00edses o movimento anti usinas nucleares tem crescido entre a popula\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso da Fran\u00e7a e Jap\u00e3o.<\/p>\n<p><em>&#8220;A energia nuclear \u00e9 necess\u00e1ria, \u00e9 inevit\u00e1vel&#8221;<\/em><br \/>\nNo caso do Brasil, as duas usinas existentes participam da matriz el\u00e9trica com menos de 2% da pot\u00eancia total instalada. E mesmo que as proje\u00e7\u00f5es governamentais apontem para mais 10.000 MW at\u00e9 2050, assim mesmo, a contribui\u00e7\u00e3o da nucleoeletricidade ser\u00e1 inferior aos 4%. A energia nuclear n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria no Brasil que det\u00e9m uma biodiversidade extraordin\u00e1ria e fontes renov\u00e1veis em abund\u00e2ncia.<\/p>\n<p><em>&#8220;A energia nuclear \u00e9 limpa&#8221;<\/em><br \/>\nPor princ\u00edpio n\u00e3o existe energia limpa, e sim as sujas e as menos sujas. No caso da energia nuclear ela \u00e9 classificada de suja, pois \u00e9 respons\u00e1vel por emiss\u00f5es de gases de efeito estufa ao longo do ciclo do combust\u00edvel nuclear (da minera\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o das pastilhas combust\u00edveis), e produz o chamado lixo radioativo. O lixo \u00e9 composto por tudo o que teve contato com a radioatividade. Logo, entra nessa categoria: res\u00edduos do preparo das subst\u00e2ncias qu\u00edmicas radioativas, a minera\u00e7\u00e3o, o encanamento atrav\u00e9s do qual passam, as vestimentas dos funcion\u00e1rios, as ferramentas utilizadas, entre outros. Parte deste lixo, por ser extremamente radioativo, precisando ser isolado do meio ambiente por centenas, e mesmo milhares de anos. N\u00e3o existe uma solu\u00e7\u00e3o definitiva de como armazen\u00e1-lo. Um problema n\u00e3o solucionado que ser\u00e1 herdado pelas gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n<p><em>&#8220;O nuclear resolve nosso problema energ\u00e9tico, evitando os apag\u00f5es e o desabastecimento&#8221;<\/em><br \/>\nContribui atualmente com 2% da pot\u00eancia total instalada no pa\u00eds, podendo chegar a 4% em 2050, caso novas usinas sejam instaladas. O peso das pot\u00eancias total instaladas, atual e futura, na matriz el\u00e9trica \u00e9 muito inferior ao potencial das alternativas renov\u00e1veis (por ex.: sol e vento) dispon\u00edveis. Logo, a afirmativa de que a solu\u00e7\u00e3o para eventuais desabastecimentos de energia pode ser compensada pela energia nuclear \u00e9 uma mentira das grandes.<\/p>\n<p><strong>O que est\u00e1 ocorrendo no pa\u00eds, caso prossiga a atual pol\u00edtica energ\u00e9tica nefasta, no sentido econ\u00f4mico, social e ambiental, \u00e9 um verdadeiro desastre que deve ser evitado.<\/strong><\/p>\n<p>Para saber mais, sugiro a leitura dos livros \u201cPor um Brasil livre das usinas nucleares\u201d (Chico Whitaker); \u201cBomba at\u00f4mica pra qu\u00ea? (Tania Malheiros). E os artigos de opini\u00e3o \u201cEnergia nuclear \u00e9 suja, cara e perigosa\u201d (Chico Whitaker); \u201cO Brasil n\u00e3o precisa de mais usinas nucleares\u201d (Ildo Sauer e Joaquim Francisco de Carvalho), \u201cPorque o Brasil n\u00e3o precisa de usinas nucleares\u201d (Heitor Scalambrini Costa e Zoraide Vilasboas); e o estudo sobre a \u201cInseguran\u00e7a na usina nuclear de Angra 3\u201d(C\u00e9lio Bermann e Francisco Corr\u00eaa).<\/p>\n<p><strong>* Heitor Scalambrini Costa \u00e9 professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>[Nota: As opini\u00f5es expressas pelos autores dos artigos neste site publicados n\u00e3o representam necessariamente a opini\u00e3o do Portal Flores no Ar.]<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Por Heitor Scalambrini Costa* | O negacionismo do atual desgoverno est\u00e1 presente em v\u00e1rios atos e atitudes de seus membros, em particular do presidente da Rep\u00fablica. 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