

{"id":40489,"date":"2021-11-07T18:51:41","date_gmt":"2021-11-07T21:51:41","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=40489"},"modified":"2021-11-07T20:05:03","modified_gmt":"2021-11-07T23:05:03","slug":"carta-de-denilson-baniwa-sobre-o-encantamento-do-artista-jaider-esbell","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/carta-de-denilson-baniwa-sobre-o-encantamento-do-artista-jaider-esbell\/","title":{"rendered":"Carta de Denilson Baniw\u00e1 sobre o encantamento do artista Jaider Esbell"},"content":{"rendered":"<p><figure id=\"attachment_40497\" aria-describedby=\"caption-attachment-40497\" style=\"width: 561px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-40497\" src=\"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/imagem-do-instagram-de-jaider-esbell-672x700.jpeg\" alt=\"\" width=\"561\" height=\"584\" srcset=\"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/imagem-do-instagram-de-jaider-esbell-672x700.jpeg 672w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/imagem-do-instagram-de-jaider-esbell-288x300.jpeg 288w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/imagem-do-instagram-de-jaider-esbell.jpeg 714w\" sizes=\"(max-width: 561px) 100vw, 561px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-40497\" class=\"wp-caption-text\">Obra: Akipa, a mulher de Makunaim\u00ee. (Acervo particular de colecionador.) [Imagem reproduzida do instagram de Jaider Esbell].<\/figcaption><\/figure>&#8220;Espero que esteja firme mesmo nestes tempos dif\u00edceis que passamos.<\/p>\n<p>Como deve saber, esta semana fomos surpreendidos pelo encantamento de Jaider Esbell.<\/p>\n<p>Desde que eu e ele nos encontramos neste mundo, vivemos e constru\u00edmos juntos caminhos que penso que foram importantes para a cena que se nota hoje.<\/p>\n<p>Ele foi um amigo a quem eu chamava de maninho, modo carinhoso de chamar irm\u00e3o na regi\u00e3o onde nasci. Como irm\u00e3o, nos amamos, brigamos, discutimos, brincamos, viajamos juntos pelo calor e frio do mundo, rimos, choramos, \u201cbagun\u00e7amos o coreto\u201d como dizem por aqui, ficamos sem nos falar, voltamos a nos falar, trabalhamos, pulamos em muitos rios e mares, concordamos com muita coisa, discordamos de outras muitas coisas, mas em uma coisa er\u00e1mos incorrupt\u00edveis: no desejo de construir uma arte onde pessoas ind\u00edgenas pudessem ter voz ativa e chances de quem sabe chegar ao topo, lugar onde nunca estivemos antes. Jaider chegou a esse lugar e o que para os brancos \u00e9 considerado sucesso (ou a melhor fase de sua carreira, como li em mat\u00e9rias de jornais), para n\u00f3s dois esse fake-sucesso-branco, foi dia a dia tornando-se um peso. Infelizmente ficou pesado demais para ele, mas poderia ter sido para qualquer um de n\u00f3s artistas ind\u00edgenas. A cobran\u00e7a de respostas para salvar a arte, a press\u00e3o por n\u00e3o falhar em nossa caminhada ou com nossos parentes ind\u00edgenas, a ininterrupta fome de quem nos v\u00ea como uma novidade devor\u00e1vel no mercado, tudo isso que \u00e9 consider\u00e1vel sucesso e o auge da carreira \u00e9 um muro que nos cerca e nos tira do que \u00e9 mais importante: uma vida saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>No momento em que sentimos as m\u00e3os do mundo ocidental nos puxar, eu me retirei para desacelerar e pensar sobre o que estava acontecendo. Primeiro foram as redes sociais, que voltei e revoltei, pois, me ligavam, mandavam mensagens como uma exig\u00eancia de que era preciso estar online o tempo todo, e pior, dispon\u00edvel o tempo todo. Depois deletei meu n\u00famero e comprei um n\u00famero novo de celular s\u00f3 para amigos ou para quem eu quisesse dar aten\u00e7\u00e3o. Poucas semanas atr\u00e1s deletei de novo minhas redes sociais a fim de sair dessa press\u00e3o em estar sempre dispon\u00edvel e sendo obrigado a responder como \u201cdescolonizar o mundo\u201d. Como se isso fosse nossa responsabilidade, salvar o mundo sozinhos. Como se n\u00e3o fosse uma responsabilidade de todos. Ah, n\u00e3o! N\u00f3s somos obrigados a salvar um mundo que nunca nos quis, mas no momento que precisam nos recorrem e exigem que estejamos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Demorou trinta e dois anos para o mundo me dar aten\u00e7\u00e3o, eu sei que muitos dos abra\u00e7os e beijos hoje, s\u00f3 fazem parte da etiqueta social dos brancos. Antes disso s\u00f3 receb\u00edamos desprezo desse mundo. Mas, esse sangue ind\u00edgena que guarda rancor, mas ao mesmo tempo quer amar o mundo, nos faz aceitar essa etiqueta branca.<\/p>\n<p>Estive com Jaider a semana passada, conversamos pouco pois nossos e-mails estavam lotados, nossa caixa de mensagem estava lotada, nossos hor\u00e1rios estavam lotados. Mesmo todo dia juntos, do caf\u00e9 da manh\u00e3 \u00e0 hora de dormir, por uma semana inteira conversamos pouco. E nas poucas conversas nossas reclama\u00e7\u00f5es eram as mesmas, a vontade de socar a cara da pr\u00f3xima pessoa que nos pedisse uma webreuni\u00e3o. Jaider estava cansado. Eu estou cansado. N\u00f3s estamos cansados.<\/p>\n<p>O que \u00e9 postado nas redes sociais n\u00e3o representam o quanto de dor estamos passando diariamente. O Jaider Esbell fora do online n\u00e3o era o postado. O Denilson Baniwa fora do online n\u00e3o \u00e9 de longe o que voc\u00eas veem em lives. Quantas lives eu fiz for\u00e7ando estar bem para n\u00e3o deixar ningu\u00e9m preocupado. Quantas lives literalmente eu fiz doente, com febre, com dor. Mas isto n\u00e3o era postado. E eu, e com certeza Jaider n\u00e3o fazemos isso pra agradar branco ou pra ficar famoso, o motivo principalmente era pra construir um caminho para outros ind\u00edgenas, construir possibilidades para os nossos. \u00c9ramos o espelho para quem \u00e9 ind\u00edgena ainda sonha em ser artista ou ser qualquer coisa diferente da realidade horrorosa que jovens e crian\u00e7as ind\u00edgenas vivem hoje. Nos for\u00e7amos a estar dispon\u00edveis para um mundo que enquanto baniwa eu acredito: para aqueles que ainda ir\u00e3o nascer.<\/p>\n<p>Mas isso pesa. Deste modo, pe\u00e7o com muito respeito ao Jaider e aos artistas ind\u00edgenas passados-presentes-futuros que cuidemos que esse caminho aberto por n\u00f3s nunca seja interditado, nunca deixe o mato cerrar. Que n\u00f3s, eu e voc\u00ea limpemos o caminho sempre e que num futuro pr\u00f3ximo seja mais f\u00e1cil de caminhar nele. Cuidemos da mem\u00f3ria de Jaider Esbell. E principalmente, cuidemos para que seja mais leve o caminhar, o nosso e de outras pessoas.<\/p>\n<p>Pois entendendo que se o sucesso e topo a que tanto lutamos, tem como resultado a trag\u00e9dia, sinto que preciso pensar ainda mais sobre que tipo de arte ind\u00edgena eu tenho que construir. E se a recep\u00e7\u00e3o que o mundo da arte ocidental nos deu, levou um de n\u00f3s ao grave fim, preciso pensar ainda mais em que tipo de rela\u00e7\u00e3o quero manter com a arte ocidental.<\/p>\n<p>Eu vou desacerelar ainda mais, at\u00e9 o ponto que seja um cooper e n\u00e3o um triathlon. Meu trabalho continuar\u00e1 em honra de Jaider Esbell, assim como era em mem\u00f3ria de tantos outros parentes ind\u00edgenas antes de mim. Se \u00e9 pela arte que resistiremos, vai ser pela arte. Mas da minha parte ela n\u00e3o ser\u00e1 para satisfazer a fome de nenhum glut\u00e3o da arte.<\/p>\n<p>Com carinho e admira\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>Denilson Baniwa&#8221;<\/p>\n<p><em>Fonte:\u00a0<a href=\"https:\/\/jornalistaslivres.org\/a-arte-em-luto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/jornalistaslivres.org\/a-arte-em-luto\/<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Espero que esteja firme mesmo nestes tempos dif\u00edceis que passamos. Como deve saber, esta semana fomos surpreendidos pelo encantamento de Jaider Esbell. Desde que eu e ele nos encontramos neste mundo, vivemos e constru\u00edmos juntos caminhos que penso que foram importantes para a cena que se nota hoje. 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