

{"id":40264,"date":"2021-09-02T10:57:29","date_gmt":"2021-09-02T13:57:29","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=40264"},"modified":"2021-09-03T08:28:42","modified_gmt":"2021-09-03T11:28:42","slug":"caixa-de-pandora-imagens-da-depressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/caixa-de-pandora-imagens-da-depressao\/","title":{"rendered":"[CAIXA DE PANDORA] Imagens da depress\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_40265\" aria-describedby=\"caption-attachment-40265\" style=\"width: 639px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-40265\" src=\"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/minha-nigredo_juliana-florencio-700x439.jpg\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"401\" srcset=\"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/minha-nigredo_juliana-florencio-700x439.jpg 700w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/minha-nigredo_juliana-florencio-300x188.jpg 300w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/minha-nigredo_juliana-florencio.jpg 720w\" sizes=\"(max-width: 639px) 100vw, 639px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-40265\" class=\"wp-caption-text\">Arte: Juliana Florencio<\/figcaption><\/figure>\n<p>| <em>Por Juliana Florencio*<\/em> |<\/p>\n<p>Com a chegada do Setembro Amarelo gostaria de falar sobre a depress\u00e3o a partir de imagens.<\/p>\n<p>Quero come\u00e7ar com esta imagem que Leader conta na introdu\u00e7\u00e3o de seu livro &#8220;Al\u00e9m da Depress\u00e3o&#8221;:<\/p>\n<p>&#8220;Ap\u00f3s receber uma receita m\u00e9dica de um dos antidepressivos mais populares e compr\u00e1-lo na farm\u00e1cia, a jovem volta para casa e abre o pacotinho. Imaginara um frasco amarelado, repleto de c\u00e1psulas firmemente embaladas, como comprimidos de vitamina. Em vez disso, encontrou uma embalagem met\u00e1lica plana, com comprimidos separados uns dos outros por um espa\u00e7o desproporcional de papel alum\u00ednio vazio. \u201cCada comprimido encontra-se em total solid\u00e3o\u201d \u2013 disse \u2013 \u201cem conchas met\u00e1licas olhando umas para as outras. Cada um em suas pequenas pris\u00f5es individuais. Por que n\u00e3o est\u00e3o todos juntos em uma caixa, livres e soltos?\u201d A forma como os comprimidos foram empacotados perturbou-a. \u201cEles est\u00e3o alinhados como soldadinhos obedientes \u2013 por que pelo menos um deles n\u00e3o se rebela?\u201d. Sua pr\u00f3xima ideia foi engolir todos os comprimidos de uma vez. Quando indaguei sobre o porqu\u00ea, disse: \u201cPara que n\u00e3o se sintam t\u00e3o sozinhos e claustrof\u00f3bicos.\u201d &#8220;(LEADER, 2011)<\/p>\n<p>Essa imagem amplifica nossos sentidos para a tem\u00e1tica e fala por si s\u00f3. A situa\u00e7\u00e3o dos comprimidos, semelhante \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o frente \u00e0 fragiliza\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos afetivos e sociais, nos remonta \u00e0 depress\u00e3o como rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Podemos pensar na depress\u00e3o, tamb\u00e9m, como efeito colateral de um sistema voltado para a produ\u00e7\u00e3o e desempenho, no qual fatores promovedores de Eros (aspectos criativos e vinculares) seriam menosprezados por n\u00e3o serem lucrativos ou n\u00e3o fazerem sentido numa l\u00f3gica de produtividade.<\/p>\n<p>A dissocia\u00e7\u00e3o \u00e9 outra nuance que a imagem da separa\u00e7\u00e3o dos comprimidos pode nos trazer. Dissocia\u00e7\u00e3o como n\u00e3o-viv\u00eancia de partes nossas que foram reprimidas ou que n\u00e3o puderam se desenvolver. Isso tamb\u00e9m tem um custo energ\u00e9tico \u2013 o que era pra ser e n\u00e3o \u00e9, o que n\u00e3o flui, o que est\u00e1 estagnado, semi-morto. Poderia, tamb\u00e9m, implicar numa experi\u00eancia de luto difusa por esses potenciais n\u00e3o vividos.<\/p>\n<p>Como estamos inseridos num determinado modus operandi, o adoecimento ps\u00edquico \u00e9 explicado e tratado de forma que o indiv\u00edduo retome ao seu estado produtivo e consumidor.<\/p>\n<p>O que temos visto majoritariamente \u00e9 um reducionismo do sofrimento humano a diagn\u00f3sticos e medicaliza\u00e7\u00e3o. A dor \u00e9 calada novamente. A rea\u00e7\u00e3o \u00e9 aprisionada num discurso m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u00c9 importante aqui salientar, principalmente nestes tempos de extremismos e simplifica\u00e7\u00f5es, que considero fundamental a pesquisa e a terap\u00eautica com medica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas. O que pretendo com este texto \u00e9 discutir a profundidade e as m\u00faltiplas facetas de um adoecimento ps\u00edquico.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o importante que Leader aborda \u00e9 a falta de espa\u00e7os coletivos para vivenciar os lutos, a dor da falta. H\u00e1 n\u00e3o muito tempo, o luto era vivido coletivamente, as pessoas realizavam rituais sociais durante este processo. Leader, diferentemente de Freud, afirma que \u201co luto exige outras pessoas\u201d.<\/p>\n<p>A partir da imagem dos comprimidos, trazida por Leader, me chega outra: a da oxida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se os comprimidos fossem guardados juntos certamente amarelariam a partir do momento em que o pote fosse aberto, pois sofreriam a a\u00e7\u00e3o do ar.<\/p>\n<p>Estar junto e sob a influ\u00eancia do ar mudaria o estado original &#8211; &#8220;ideal&#8221; &#8211; dos comprimidos. E essa mudan\u00e7a pode ser considerada como um dano.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um grande paradoxo do estar vivo. Ao respirarmos, oxidamos. Somos transformados pelo oxig\u00eanio, envelhecemos e morremos. Mas a condi\u00e7\u00e3o de estar vivo \u00e9 respirar!<\/p>\n<p>Um dos momentos mais tensos e cruciais da nossa exist\u00eancia \u00e9 se ao nascermos respiraremos ou n\u00e3o. O choro inicial, nossa estreia no mundo, \u00e9 esperado com ansiedade. Quando o rec\u00e9m-nascido chora, inaugurando com dor os pulm\u00f5ezinhos, \u00e9 motivo de al\u00edvio e grande alegria.<\/p>\n<p>\u201cDe acordo com o Physiologus (o folclore tradicional de psicologia animal), os filhotes de le\u00e3o s\u00e3o natimortos. Devem ser acordados para a vida com um rugido. \u00c9 por isso que o le\u00e3o tem aquele rugido, para despertar os le\u00f5ezinhos do sono, pois eles dormem em nosso cora\u00e7\u00e3o.\u201d (HILLMAN, 2010)<\/p>\n<p>&#8220;Empacotados e isolados n\u00e3o oxidamos, n\u00e3o somos afetados, mas, tamb\u00e9m, n\u00e3o nos relacionamos, muitas vezes nem com n\u00f3s mesmos. Estar\u00edamos vivos? Ou esperando o rugido de um le\u00e3o para nos acordar?&#8221;<\/p>\n<p>Ao entrarmos em contato com o outro \u2013 e as partes de n\u00f3s mesmos, das quais estamos separados &#8211; a alquimia ocorre, perdemos nosso estado imaculado, somos transformados, modificados pelas experi\u00eancias, vivemos.<\/p>\n<p>Podemos olhar os estados depressivos de forma ampliada. Biologiza\u00e7\u00e3o e medicaliza\u00e7\u00e3o reduzem essa experi\u00eancia e privam o humano de sua complexidade.<\/p>\n<p>A depress\u00e3o, como rea\u00e7\u00e3o a um modo de vida entorpecedor, tem sido deslegitimada e amorda\u00e7ada, impedindo que transforma\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias aconte\u00e7am.<\/p>\n<p>O humano \u00e9 calado e colocado em caixas de comprimidos, separados uns dos outros, de si mesmo.<\/p>\n<p>Podemos considerar a depress\u00e3o como um grito mudo da alma, um grito para dentro, talvez um grito que n\u00e3o queira incomodar, mas que, provavelmente, o maior desejo \u00e9 poder ser ouvido&#8230; pelo outro e por si mesmo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Um grito que informa que o le\u00e3o est\u00e1 adoecido ou dorme como enfeiti\u00e7ado. Nosso le\u00e3o talvez tenha desaprendido a rugir. Um le\u00e3o que desaprendeu a gritar seus desejos, necessidades, suas inquieta\u00e7\u00f5es, seus estranhamentos, sua beleza, sua dor, sua pot\u00eancia.<\/p>\n<p>Tentei escrever este texto a partir de imagens. As imagens falam por si s\u00f3 e guardam pot\u00eancia em si mesmas. S\u00e3o catalisadoras e potencializadoras de mudan\u00e7a. Sua apari\u00e7\u00e3o \u00e9 germe e transforma\u00e7\u00e3o em si. Ao deixar que as imagens fluam na abordagem da depress\u00e3o podemos acolher a complexidade do humano e da vida.<\/p>\n<p><em><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/em><br \/>\n<em>HILLMAN. J. O pensamento do cora\u00e7\u00e3o e a alma do mundo. S\u00e3o Paulo: Verus, 2010.<\/em><br \/>\n<em> LEADER. D. Al\u00e9m da Depress\u00e3o. Rio de Janeiro: BestSeller, 2011.<\/em><\/p>\n<p><em>* Juliana Florencio \u00e9 psic\u00f3loga, arteterapeuta e terapeuta do Jogo da Areia (em forma\u00e7\u00e3o). Atualmente mora na regi\u00e3o de Stuttgart, Alemanha, onde realiza seus atendimentos.<\/em><br \/>\n<em>Email: juflorenciocs@gmail.com<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Por Juliana Florencio* | Com a chegada do Setembro Amarelo gostaria de falar sobre a depress\u00e3o a partir de imagens. 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