

{"id":40148,"date":"2021-08-06T09:12:06","date_gmt":"2021-08-06T12:12:06","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=40148"},"modified":"2021-08-31T19:07:33","modified_gmt":"2021-08-31T22:07:33","slug":"caixa-de-pandora-eu-tambem-imigrante-entre-encontros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/caixa-de-pandora-eu-tambem-imigrante-entre-encontros\/","title":{"rendered":"[CAIXA DE PANDORA] Eu (tamb\u00e9m) imigrante: entre encontros"},"content":{"rendered":"<p>|\u00a0<em>Por Juliana Florencio*<\/em>\u00a0|<\/p>\n<figure id=\"attachment_40149\" aria-describedby=\"caption-attachment-40149\" style=\"width: 330px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-40149\" src=\"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/psicologa-juliana-florencio-1-588x700.jpeg\" alt=\"\" width=\"330\" height=\"393\" srcset=\"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/psicologa-juliana-florencio-1-588x700.jpeg 588w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/psicologa-juliana-florencio-1-252x300.jpeg 252w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/psicologa-juliana-florencio-1-768x914.jpeg 768w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/psicologa-juliana-florencio-1.jpeg 1080w\" sizes=\"(max-width: 330px) 100vw, 330px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-40149\" class=\"wp-caption-text\">Juliana Florencio \u00e9 psic\u00f3loga e arteterapeuta.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Neste texto eu gostaria de falar um pouco sobre a minha experi\u00eancia como imigrante.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas anos eu me mudei para a Alemanha. Eu vim por motivos do cora\u00e7\u00e3o&#8230; &#8220;aus Liebe&#8221;&#8230; &#8220;por amor&#8221;, como se diz aqui, pois me casei com um alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, o que gostaria de trazer neste texto s\u00e3o os desafios de integra\u00e7\u00e3o social e de inser\u00e7\u00e3o na sociedade atrav\u00e9s do trabalho. O trabalho sempre foi uma parte muito importante da minha vida, n\u00e3o apenas como fonte de sobreviv\u00eancia, de realiza\u00e7\u00e3o material e autonomia, mas tamb\u00e9m como promotor de satisfa\u00e7\u00e3o e sentidos.<\/p>\n<p>Eu amo minha profiss\u00e3o. Eu amo ser psic\u00f3loga cl\u00ednica. E isso tem sido o maior motivador e, ao mesmo tempo, o maior desafio para minha integra\u00e7\u00e3o. Quando soube que conseguiria atuar na \u00e1rea, fiquei muito feliz, mas ao mesmo tempo apreensiva, pois psicologia exige um alem\u00e3o fluente&#8230; e \u00e9 a\u00ed que come\u00e7a essa jornada .<\/p>\n<p>Comecei o curso de idioma do zero e no come\u00e7o tudo \u00e9 lucro. Quando se d\u00e1 os primeiros passos, \u00e9 como se se abrisse um novo mundo.<\/p>\n<p>Ao final do n\u00edvel b\u00e1sico (B1) existe uma prova que \u00e9 necess\u00e1ria para a maioria dos estrangeiros continuarem aqui. Ufa! Passei! Mas isso era s\u00f3 o come\u00e7o da jornada. Para atuar na minha \u00e1rea precisaria no m\u00ednimo do C1 (n\u00edvel universit\u00e1rio), mas o ideal mesmo \u00e9 o C2 (n\u00edvel nativo). Ent\u00e3o segui o caminho, embora esse horizonte parecesse inating\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que se avan\u00e7a, as exig\u00eancias no cotidiano ficam maiores. Mudei do ingl\u00eas do dia-a-dia para o alem\u00e3o. Esse passo foi decisivo para minha imers\u00e3o aqui, mas ao mesmo tempo tive que me permitir ser vulner\u00e1vel. E isso n\u00e3o foi f\u00e1cil. Parecia que eu estava abrindo m\u00e3o do que eu tinha constru\u00eddo na minha vida para come\u00e7ar de novo.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o de ser uma mulher adulta que n\u00e3o consegue se expressar \u00e9 muito desagrad\u00e1vel. Eu sentia muita vergonha. Muitas vezes evitei de encontrar pessoas para n\u00e3o ficar me sentindo mal, porque n\u00e3o conseguia falar&#8230;<\/p>\n<p>Pra piorar, o curso avan\u00e7ava e eu pensava &#8220;vou terminar o C2 e ainda n\u00e3o vou conseguir falar&#8221;. Isso me trazia muita ang\u00fastia, mas a possibilidade de trabalhar aqui me fazia continuar.<\/p>\n<p>Posso dizer que isso foi uma crise na minha vida que me impeliu a me redescobrir de outras maneiras. Eu entrei numa fase de maior introvers\u00e3o e me descobri por outra perspectiva.<\/p>\n<p>Quem eu era sem meu hist\u00f3rico profissional? Sem um lugar estabelecido nesta nova sociedade? O que eu queria mesmo pra minha vida? O que \u00e9 mesmo importante? O que eu precisaria abandonar?<\/p>\n<p>Uma coisa era certa: Eu precisaria abandonar uma ideia que eu tinha de mim mesma para poder recome\u00e7ar profissionalmente aqui.<\/p>\n<p>Em maio de 2020 chegaria o fim do curso de alem\u00e3o, mas a pandemia j\u00e1 havia mostrado a que veio. Eu tinha planejado fazer um est\u00e1gio ou trabalho volunt\u00e1rio em alguma organiza\u00e7\u00e3o para praticar a l\u00edngua enquanto esperava o documento de valida\u00e7\u00e3o do diploma e das minhas experi\u00eancias no Brasil. Devido ao Corona, os planos n\u00e3o deram certo. Continuei estudando em casa, fazendo meus atendimentos on-line e esperando os pap\u00e9is do reconhecimento. Foi um tempo de espera e horizontes nebulosos&#8230; n\u00e3o s\u00f3 para mim, mas para todo mundo.<\/p>\n<p>Bem, terminei todo o curso. O esfor\u00e7o valeu a pena! Mas eu ainda n\u00e3o era fluente, o que me deixava muito angustiada.<\/p>\n<p>No come\u00e7o deste ano algo bem importante aconteceu em mim: entendi que a comunica\u00e7\u00e3o era o mais importante. Parece \u00f3bvio, n\u00e3o \u00e9? Racionalmente \u00e9 evidente, mas essa compreens\u00e3o, desta vez, revelou-se de um lugar que n\u00e3o era a minha cabe\u00e7a, mas sim do meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o comecei a focar na comunica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o na gram\u00e1tica.<\/p>\n<p>Esse insight me encheu de coragem e assim fui para minha primeira entrevista de emprego.<\/p>\n<p>Fui contratada!<\/p>\n<p>Eu ainda tenho minhas dificuldades com a l\u00edngua e \u00e0s vezes bate aquela chatea\u00e7\u00e3o com meus erros, ou quando n\u00e3o consigo me expressar como gostaria. Mas uma coisa que aprendi \u00e9 rir de mim mesma.<\/p>\n<p>Ultimamente tenho rido muito do que eu chamo &#8220;mein besonderes Deutsch&#8221; &#8211; &#8220;meu alem\u00e3o especial&#8221;. Sim! Eu vou ser sempre estrangeira e nunca vou falar como uma pessoa que nasceu aqui. Isso n\u00e3o \u00e9 defeito, essa \u00e9 a minha trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Tenho percebido que meus erros gramaticais n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o importantes&#8230; O importante \u00e9 o encontro. O importante \u00e9 o que surge, se transforma e frutifica a partir do encontro entre pessoas.<\/p>\n<p>E eu posso errar sim! Esse \u00e9 um exerc\u00edcio de auto-acolhimento, paci\u00eancia comigo mesma e auto-aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tenho vivenciado com mais intensidade e de uma forma mais ampla esses dois aspectos: a import\u00e2ncia da persist\u00eancia e dos pequenos passos cotidianos (continuo aprendendo alem\u00e3o); e a din\u00e2mica dos encontros. Encontros de verdade acontecem simultaneamente em v\u00e1rios n\u00edveis&#8230; do verbal ao n\u00e3o verbal, da inten\u00e7\u00e3o ao afeto&#8230; e, talvez, em outras esferas que n\u00e3o tenhamos conhecimentos.<\/p>\n<p>Na minha pr\u00e1tica cl\u00ednica um encontro pode acontecer em portugu\u00eas, alem\u00e3o ou tamb\u00e9m com int\u00e9rpretes \u2013 trabalho com pessoas refugiadas e muitas vezes conto com esses profissionais. O encontro pode ocorrer tamb\u00e9m atrav\u00e9s dos recursos expressivos, na arteterapia; da movimenta\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de imagens atrav\u00e9s do Sandplay; e atrav\u00e9s do trabalho com o corpo.<\/p>\n<p>Assim como no Setting terap\u00eautico, tamb\u00e9m acontecem os demais encontros da vida. Estes n\u00e3o dependem s\u00f3 de mim, ou s\u00f3 do outro, pois um encontro n\u00e3o \u00e9 a soma dos envolvidos, \u00e9 algo \u00fanico que acontece e tem vida pr\u00f3pria. Um encontro de verdade \u00e9 um exerc\u00edcio que nos chama para abertura, disponibilidade e aceita\u00e7\u00e3o&#8230; em outras palavras, um encontro pede para estarmos presentes, no aqui e no agora, do jeito que somos, com o que temos, dispon\u00edveis a interagir e, quem sabe, ou quem dera, nos transformar.<\/p>\n<p><em><span style=\"color: #808080;\"><span style=\"font-family: OpenSansRegular;\">* Juliana Florencio \u00e9 psic\u00f3loga, arteterapeuta e terapeuta do Jogo da Areia (em forma\u00e7\u00e3o). Atualmente mora na regi\u00e3o de Stuttgart, Alemanha, onde realiza seus atendimentos.<\/span><\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #808080;\"><span style=\"font-family: OpenSansRegular;\">Email:\u00a0<a href=\"mailto:juflorenciocs@gmail.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">juflorenciocs@gmail.com<\/a><\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>|\u00a0Por Juliana Florencio*\u00a0| Neste texto eu gostaria de falar um pouco sobre a minha experi\u00eancia como imigrante. H\u00e1 tr\u00eas anos eu me mudei para a Alemanha. Eu vim por motivos do cora\u00e7\u00e3o&#8230; &#8220;aus Liebe&#8221;&#8230; &#8220;por amor&#8221;, como se diz aqui, pois me casei com um alem\u00e3o. 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