

{"id":3671,"date":"2012-11-01T10:56:14","date_gmt":"2012-11-01T13:56:14","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.hospedagemdesites.ws\/floresnoar\/?p=3671"},"modified":"2012-11-01T10:56:14","modified_gmt":"2012-11-01T13:56:14","slug":"espiritualidade-materialismo-e-poeticidade-por-marcelo-mario-de-melo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/espiritualidade-materialismo-e-poeticidade-por-marcelo-mario-de-melo\/","title":{"rendered":"Espiritualidade, materialismo e poeticidade, por Marcelo M\u00e1rio de Melo"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 um erro prim\u00e1rio identificar materialismo com consumismo, uma vez que ser materialista \u00e9, simplesmente, optar pelo primado material, considerar que a mat\u00e9ria \u00e9 anterior \u00e0 consci\u00eancia, sendo esta um produto superior daquela. Em contraponto se coloca o idealismo, que considera a mat\u00e9ria como resultado de uma intelig\u00eancia superior e associa a consci\u00eancia \u00e0 alma imortal, com din\u00e2mica pr\u00f3pria independente do corpo.<\/p>\n<p>A atitude das pessoas ante o usufruto dos bens materiais, os padr\u00f5es de consumo e seus correspondentes no campo das id\u00e9ias e das representa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o t\u00eam nada a ver com esta polariza\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. No pref\u00e1cio ao <em>Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere<\/em>, Graciliano Ramos faz ironia a esse respeito, dizendo que os homens do primado espiritual viviam bem, cuidavam do corpo, enquanto ele e outros \u201cdesgra\u00e7ados materialistas\u201d, habitando e se alimentando precariamente, viviam como pobres esp\u00edritos.<!--more--><\/p>\n<p>O materialista Marx denuncia o aviltamento humano sob a dimens\u00e3o do consumismo, em largas p\u00e1ginas do O Capital e em outras obras. O Manifesto Comunista tamb\u00e9m \u00e9 pr\u00f3digo nessa den\u00fancia. Paul Lafargue d\u00e1 um tratamento sat\u00edrico \u00e0 quest\u00e3o, no texto <em>O Direito \u00e0 Pregui\u00e7a<\/em>, em que denuncia e ridiculariza a ideologia do ter, em detrimento do ser. A volumosa cr\u00edtica marxista \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o e \u00e0 fetichiza\u00e7\u00e3o da mercadoria e da riqueza seria suficiente para vetar a arcaica identifica\u00e7\u00e3o de materialismo com consumismo, que ainda ocorre.<\/p>\n<p>Desfeita a malversa\u00e7\u00e3o, resta o problema. Como encarar a vida sem se envolver no consumismo? H\u00e1 os que partem para os modelos tipo sociedade alternativa, do que os hippies s\u00e3o uma refer\u00eancia. Mas como escapar do consumismo levando uma vida normal de trabalho, fam\u00edlia e estudo, exercendo-se a condi\u00e7\u00e3o de consumidor e sob o cerco de uma oferta permanente de produtos e servi\u00e7os diversificados, alimentados por uma publicidade encantadora e onipresente?<\/p>\n<p>Pessoas de filia\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica idealista colocam a espiritualidade como uma resposta ao consumismo. Na vertente materialista, e considerando a religi\u00e3o como a filha desnaturada da emo\u00e7\u00e3o e da poesia, apresenta-se a poeticidade como o contraponto mais adequado. A dimens\u00e3o da poesia, envolvendo as ebuli\u00e7\u00f5es \u00edntimas, as rela\u00e7\u00f5es sociais e as correla\u00e7\u00f5es c\u00f3smicas, pode ser uma excelente ferramenta anti-consumista a ser utilizada, ecumenicamente, por crentes e descrentes. Esclare\u00e7o que o termo poeticidade \u00e9 utilizado aqui no sentido amplo de artisticidade, e n\u00e3o s\u00f3 no que se refere, especificamente, \u00e0 arte po\u00e9tica, situada no campo da literatura.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das raias restritas da utilidade imediata, a sensibilidade po\u00e9tica possibilita uma vis\u00e3o de recuo e antevis\u00e3o em que o aqui e o agora se situam no panorama mais amplo dos grandes movimentos da vida e das suas especifica\u00e7\u00f5es microsc\u00f3picas, envolvendo encantos e espantos, pontes e abismos, ousadias e medos, avan\u00e7os e recuos, verdades e mentiras, pus e seiva, falar e ouvir, agir e refletir, chorar e sorrir, andar, correr, saltar, marchar, desfilar e dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das proje\u00e7\u00f5es de status a partir de atributos heredit\u00e1rios, disponibilidades materiais, grada\u00e7\u00f5es de disp\u00eandio, potencialidades concorrenciais, poderes de influ\u00eancia e posi\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas, a frui\u00e7\u00e3o dos valores da vida e a travessia dos seus ciclos, vistos com profundidade e largueza. A cultura, a cria\u00e7\u00e3o, a contempla\u00e7\u00e3o, a amizade, o afeto, a satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9tica, a atividade revolucion\u00e1ria, a solidariedade e a compaix\u00e3o, elevam a condi\u00e7\u00e3o humana e avivam a sua chama.<\/p>\n<p>Nessas raias podemos todos caminhar de m\u00e3os dadas em movimento espiral arcoirisado. Rompendo os limites de c\u00edrculos, ret\u00e2ngulos, tri\u00e2ngulos e elipses. Escalando a quinta parede do sonho. Procurando unir vaga-lumes e estrelas. Insuflando id\u00e9ias e a\u00e7\u00f5es. Instilando novas seivas no cotidiano. Contra o bin\u00f3culo invertido do consumismo, acredite-se e mergulhe-se na ressurrei\u00e7\u00e3o po\u00e9tica da vida.<\/p>\n<p><em>Marcelo M\u00e1rio de Melo \u00e9 jornalista e poeta.<br \/>\nE-mail: marcelomariodemelo@gmail.com<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 um erro prim\u00e1rio identificar materialismo com consumismo, uma vez que ser materialista \u00e9, simplesmente, optar pelo primado material, considerar que a mat\u00e9ria \u00e9 anterior \u00e0 consci\u00eancia, sendo esta um produto superior daquela. 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