

{"id":35388,"date":"2019-03-19T15:36:50","date_gmt":"2019-03-19T18:36:50","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=35388"},"modified":"2022-02-04T16:15:56","modified_gmt":"2022-02-04T19:15:56","slug":"kelly-saura-a-arte-de-se-perder-e-mais-tarde-encontrar-se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/kelly-saura-a-arte-de-se-perder-e-mais-tarde-encontrar-se\/","title":{"rendered":"[A MULHER N\u00d4MADE] A arte de se perder, e, mais tarde, encontrar-se"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-35443\" src=\"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/elena-morando.jpg\" alt=\"\" width=\"631\" height=\"419\" srcset=\"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/elena-morando.jpg 720w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/elena-morando-300x200.jpg 300w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/elena-morando-700x466.jpg 700w\" sizes=\"(max-width: 631px) 100vw, 631px\" \/><\/p>\n<p><em><strong>[ Tradu\u00e7\u00e3o do poema \u201cL\u2019arte del perdersi e del poi, ritrovarsi\u201d, de Elena Morando ]<\/strong><\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que isso acontece. Comecei aos cinco anos e depois nunca mais parei. Eu gosto de me perder. Mas n\u00e3o em qualquer lugar. Eu gosto de me perder no mato e na mata, perder as coordenadas, em suma, arriscar a n\u00e3o voltar para casa, dizer adeus a amigos e parentes, pra desaparecer. Ou pelo menos, ter a impress\u00e3o de desaparecer.<\/p>\n<p>Imagine que por um tempo \u201cestou sozinha como a \u00faltima das mulheres restantes, uma esp\u00e9cie de Eva ao contr\u00e1rio, que n\u00e3o se queixa sobre assuntos triviais relacionados a querer uma ma\u00e7\u00e3 ou acasalar com um da mesma esp\u00e9cie\u201d. O caminho nem sempre leva \u00e0 casa, \u00e0s vezes longe de casa, voc\u00ea entra em clareiras, prados aparecem, margaridas precoces quebram o verde e os p\u00e2ntanos, sob as aroeiras, entre as murtas, emergindo em lagoas pr\u00e9-rafaelitas. Se parece a Of\u00e9lia, mas s\u00e3o ossos, ossos de animais esbranqui\u00e7ados pelo sol, um esqueleto inteiro disperso, tem tamb\u00e9m um chifre, tamb\u00e9m uma t\u00edbia, como se a morte inclu\u00edda neste espa\u00e7o natural j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais uma inimiga, mas parte da beleza.<\/p>\n<p>Eu ando e me perco. Uma parte da inf\u00e2ncia reaparece, \u00e9 feita das mesmas coisas: ossos esbranqui\u00e7ados, margaridas prepotentes, p\u00e2ntanos, e, em seguida, fortalezas, estas catedrais em Gallura s\u00e3o chamadas de rochas. Elas s\u00e3o altas, t\u00eam buracos, casas, paredes, \u00e0s vezes covas de animais selvagens, \u00e0s vezes, cabanas constru\u00eddas pelo homem. Na pedra acima da cave que parece um muro, \u00e9 uma pequena casa. Minhas casas perdidas e depois redescobertas, eu poderia ficar aqui por horas s\u00f3 para contemplar e em vez disso continuo, eu chego ao topo, em um territ\u00f3rio desconhecido do vizinho. Hectares de terra dos pastores, pasto limpo, belo verde o pistache da grama. E mais uma vez, uma sombra, o claro-escuro do muro que envolve toda a fazenda. O que ter\u00e1 sido antes do bloqueio? Um para\u00edso? Uma terra com uma paisagem em constante mudan\u00e7a que se abre como pequenas janelas-matrioska longe do mar, longe da costa que \u00e9 quase invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Os \u00edndios em Gallura viviam assim, andavam, \u00e0s vezes olhavam para o mar, outras vezes n\u00e3o. A vista de tirar o f\u00f4lego \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do homem que quer colonizar. Que n\u00e3o quer se perder, que quer comprar.<\/p>\n<p>E assim eles andavam, de um stazzo a outro, essas mulheres e esses homens, esses \u00edndios. Esses ancestrais, av\u00f3s de todos, que conheciam o territ\u00f3rio na palma da sua m\u00e3o. Antes da lei do bloqueio, e mesmo depois, n\u00e3o havia espa\u00e7o inexplorado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, finalmente, depois dessas contempla\u00e7\u00f5es e nostalgia, finalmente me perdi. No local imposs\u00edvel onde os caminhos s\u00e3o estreitos e se contradizem, onde voc\u00ea sai de quatro e se arranha. Acho que pedi ao cachorro para me levar de volta para casa. Depois fomos juntos at\u00e9 a rocha mais alta, observando at\u00e9 onde fomos, a soar a gaita de foles, com a concha virada para cima que era usada para chamar, de campo para campo, sobre os bosques e vales. Tomado o caminho, perdi o len\u00e7o florido de seda colorida, me escapou como um sonhador pol\u00ednico, dois ou tr\u00eas versos descascados entre p\u00e2ntanos largos, ossos brancos e margaridas prepotentes. Para encontr\u00e1-los novamente amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><em>Elena Morando \u00e9 uma escritora e artista interdisciplinar sarda. Ensina artes marciais na escola \u201cBozzoli di seta e zampe di tigre\u201d. \u00c9 gestora de projetos para adultos e crian\u00e7as ligados a teatro, literatura e artes visuais.<\/em><br \/>\n<em>Foto: Alessandro Vigan\u00f2.\u201dThe Eighth Step\u201d, filme de Elena Morando, produ\u00e7\u00e3o Martin Kunz-K10.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[ Tradu\u00e7\u00e3o do poema \u201cL\u2019arte del perdersi e del poi, ritrovarsi\u201d, de Elena Morando ] N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que isso acontece. Comecei aos cinco anos e depois nunca mais parei. Eu gosto de me perder. Mas n\u00e3o em qualquer lugar. 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