

{"id":31571,"date":"2017-11-21T11:18:58","date_gmt":"2017-11-21T14:18:58","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=31571"},"modified":"2021-08-31T19:41:10","modified_gmt":"2021-08-31T22:41:10","slug":"caixa-de-pandora-o-coracao-que-renasce-entre-dores-e-cores-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/caixa-de-pandora-o-coracao-que-renasce-entre-dores-e-cores-parte-1\/","title":{"rendered":"[CAIXA DE PANDORA] O cora\u00e7\u00e3o que renasce entre dores e cores &#8211; Parte 1"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\" align=\"CENTER\">|\u00a0<em>Por\u00a0<a href=\"http:\/\/portalfloresnoar.com\/guiafloresnoar\/juliana-florencio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Juliana Florencio*<\/a><\/em>\u00a0|<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"CENTER\"><em>Este texto \u00e9 parte do trabalho que escrevi para a conclus\u00e3o do Curso de Forma\u00e7\u00e3o em Arteterapia pela Tra\u00e7os\/Faintvisa, em 2014.<\/em><\/p>\n<p><em>Nessa primeira parte abordarei o mito de Dioniso.<\/em><\/p>\n<p><em>O\u00a0artigo surgiu a partir da experi\u00eancia de est\u00e1gio em arteterapia no qual foram realizadas viv\u00eancias com mulheres com diagn\u00f3stico de depress\u00e3o associado a queixas som\u00e1ticas. Uma imagem bastante recorrente durante o processo foi o cora\u00e7\u00e3o e, a partir dela, houve a aproxima\u00e7\u00e3o com Dioniso e o que conta o mito sobre seu cora\u00e7\u00e3o sobrevivente.<\/em><\/p>\n<p><em>Tendo em vista o sofrimento dessas mulheres, considerando o esquartejamento do corpo em \u00e1reas apropriadas pela medicina, o rapto das imagens do cora\u00e7\u00e3o pelo preenchimento da palavra escrita religiosa, a realidade de aliena\u00e7\u00e3o do corpo e o recha\u00e7amento de aspectos do feminino, o processo arteterap\u00eautico grupal configurou-se como uma forma de cria\u00e7\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o de possibilidades de exist\u00eancia mais aut\u00eanticas no mundo.<\/em><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>DO CORA\u00c7\u00c3O DE DIONISO \u00c0 ARTETERAPIA: O PERCURSO DAS IMAGENS<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Dioniso, para os gregos, \u00e9 um deus estrangeiro, vindo do Oriente. De acordo com o orfismo, nasceu de Zeus e Pers\u00e9fone \u2013 Zagreu &#8211; o primeiro Dioniso. Filho preferido, Zeus pretendia que o sucedesse no governo do mundo. Por\u00e9m, Hera, esposa do Deus do Olimpo, por ci\u00fames convocou os Tit\u00e3s para destruir a crian\u00e7a divina, gerada fora do casamento. Estes enganaram Zagreu, atraindo-o com brinquedos. Desmembraram, cozinharam e devoraram o menino-deus. Zeus, enfurecido com este feito, fulminou os Tit\u00e3s com seus raios e destas cinzas nasceu a humanidade, filha de Tit\u00e3s e ao mesmo tempo de Dioniso, pois estes o haviam devorado.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><em><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\">&#8220;Zeus fulminou os tit\u00e3s e de suas cinzas nasceram os homens, o que explica no ser humano os dois lados: o bem e o mal. A nossa parte tit\u00e2nica \u00e9 a matriz do mal, mas como os Tit\u00e3s haviam devorado a Dioniso, a este se deve o que existe de bom em cada um de n\u00f3s. Na \u201catra\u00e7\u00e3o, morte e cozimento\u201d de Zagreu h\u00e1 v\u00e1rios ind\u00edcios de ritos inici\u00e1ticos. Diga-se, logo, que, sendo um deus, Dioniso propriamente n\u00e3o morre, pois que o mesmo renasce do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o\u201d. (BRAND\u00c3O, 2011)<\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Aten\u00e1 salvou o cora\u00e7\u00e3o de Dioniso ainda vivo, pulsante e o entregou a Zeus que o comeu. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Envolvido amorosamente com a princesa tebana S\u00eamele, Zeus a fecunda. Dessa forma, a princesa mortal engravidou e tinha o segundo Dioniso em seu ventre. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Hera, por ci\u00fames, transformou-se em ama de S\u00eamele, a fim de convenc\u00ea-la a pedir que o deus se revelasse em sua divindade. Zeus alertou a princesa que um mortal n\u00e3o suportaria a presen\u00e7a divina, por\u00e9m como tinha jurado, pelas \u00e1guas do rio Estige, nunca negar um pedido da sua amante, ao ser atendida, S\u00eamele foi fulminada. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Zeus, em um gesto, arrancou Dioniso ainda vivo do ventre da princesa e colocou-o em sua coxa, a fim de terminar a gesta\u00e7\u00e3o. Ao nascer, foi entregue a Hermes que o levou para longe das investidas de Hera.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Um deus que renasce de seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, este \u00e9 Dioniso.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Tomando o mito, a partir da sua compreens\u00e3o arquet\u00edpica, podemos dizer que na nossa por\u00e7\u00e3o dionis\u00edaca, daquela da qual tamb\u00e9m fomos formados, existe o potencial de renascimento.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Dioniso \u00e9 o deus da transforma\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><em><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\">&#8220;O mito \u00f3rfico relata que Dioniso nasceu da uni\u00e3o de Zeus, o senhor do Olimpo, deus da luz, criador de imagens, pai jubiloso e tolerante, com sua filha Pers\u00e9fone, a rainha do mundo subterr\u00e2neo, a de tornozelos bonitos, que personifica as escuras for\u00e7as do invis\u00edvel reino dos mortos. De modo que podemos imaginar que Dioniso \u00e9 o produto de opostos sumamente complexos. (&#8230;) \u00c9 importante entender que, diante dos mitos de outros deuses do pante\u00e3o grego, os de Dioniso nos movem de maneira diferente. Com Dioniso nossa imagina\u00e7\u00e3o se conecta imediatamente com os complexos mais arcaicos da humanidade. Em outras palavras, com ele nos adentramos em n\u00edveis mais profundos da psique.&#8221; (L\u00d3PEZ-PEDRAZA, 2011)<\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O mito traz o renascimento a partir do cora\u00e7\u00e3o: sobrevivente que manteve a ess\u00eancia dionis\u00edaca. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Este s\u00edmbolo encontra-se pulsante em sua pr\u00f3pria carnalidade. \u00c9 o \u00f3rg\u00e3o central da circula\u00e7\u00e3o: \u201cO cora\u00e7\u00e3o \u00e9 o primeiro \u00f3rg\u00e3o que nasce e o \u00faltimo que morre.\u201d (RAMOS, 95)<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Na experi\u00eancia de est\u00e1gio em arteterapia, percebemos essa for\u00e7a mobilizadora: desde os \u201capertos no peito\u201d e das sensa\u00e7\u00f5es de mal-estar apontadas para o t\u00f3rax, \u00e0s imagens de cora\u00e7\u00e3o-sol e produ\u00e7\u00f5es sobre desejos e queixas do cora\u00e7\u00e3o. \u00d3rg\u00e3o-s\u00edmbolo motor de renascimento e transforma\u00e7\u00e3o. Lugar de onde emergem tais imagens.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>O Desmembramento \u2013 Quando o cora\u00e7\u00e3o se manifesta pelo adoecimento<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">N\u00e3o podemos abordar o desmembramento de Dioniso, sem falar dos Tit\u00e3s. Da mesma forma, o conceito de titanismo entrela\u00e7a-se com o adoecimento das mulheres que chegam ao ambulat\u00f3rio, bem como ao contexto em que este ocorre.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">L\u00f3pez-Pedraza desenvolve o conceito de titanismo. De acordo com o autor, os tit\u00e3s n\u00e3o teriam configura\u00e7\u00e3o arquet\u00edpica; os gregos n\u00e3o lhes conferiram rituais pr\u00f3prios e estes ficaram destitu\u00eddos de imagens e formas. Seriam caracterizados por sua virilidade, mas que representa o excesso. A falta de formas \u00e9 preenchida de excesso.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: small;\">&#8220;Sabemos que para os gregos o maior \u2018pecado\u2019 foi a <\/span><\/span><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Hybris<\/span><\/span><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: small;\">. Poder\u00edamos traduzir a imagem de Zeus confinando com seu raio os tit\u00e3s ao \u00c9rebo, como uma imagem que imp\u00f5e formas e limites, como a a\u00e7\u00e3o que coloca sobre controle aquilo que representa a viol\u00eancia desmedida e sem limites, isto \u00e9, um excesso. A consci\u00eancia que tiveram os gregos da necessidade de manter os tit\u00e3s, cheios de<\/span><\/span><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: small;\"> hybris<\/span><\/span><\/em><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><em>, orgulho e viol\u00eancia, nos limites do \u00c9rebo, o equivalente pag\u00e3o do inferno, foi substitu\u00edda no cristianismo por um outro tipo de repress\u00e3o.&#8221;<\/em> (L\u00d3PEZ-PEDRAZA, 2011)<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Podemos dizer, a partir de L\u00f3pez-Pedraza, que os Tit\u00e3s, que personificavam o mal para os gregos, foram soltos do \u00c9bero com o advento do cristianismo. Os crist\u00e3os associaram o mal ao Diabo \u2013 este, sim, constela um arqu\u00e9tipo. A repress\u00e3o crist\u00e3 incidiu sobre os deuses ct\u00f4nicos e sobre as emo\u00e7\u00f5es que estes trazem. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Os Tit\u00e3s t\u00eam marcante apari\u00e7\u00e3o em nossa cultura e se revelam pela car\u00eancia de formas e pelo excesso. Apesar de presentes, \u00e9 dif\u00edcil de reconhec\u00ea-los em n\u00f3s mesmos:<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><em><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\">&#8220;Atrav\u00e9s da cultura ocidental tem sido dif\u00edcil reconhecer o titanismo, inclusive hoje em dia, quando sua presen\u00e7a \u00e9 t\u00e3o opressiva. Para Plat\u00e3o os tit\u00e3s eram um enigma, pois n\u00e3o eram nem deuses, nem homens e, para n\u00f3s, o que poder\u00edamos chamar de natureza tit\u00e2nica tamb\u00e9m continua sendo um enigma e continua sendo dif\u00edcil detectar sua presen\u00e7a em n\u00f3s mesmos. Neste sentido, Ernest J\u00fcnger (1993) contribui com a vis\u00e3o prof\u00e9tica do s\u00e9culo XXI como o s\u00e9culo em que o coletivo ser\u00e1 governado pelo titanismo.&#8221; (Ibdem) <\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Trazendo para o nosso campo de trabalho, podemos dizer que o titanismo est\u00e1 presente no desmembramento do feminino e que, tamb\u00e9m, est\u00e1 relacionado \u00e0 medicina exercida atualmente.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">\u00c9 importante salientar que v\u00e1rios aspectos do feminino foram condenados ao inferno, assim como os deuses ct\u00f4nicos. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>O desmembramento do feminino<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Vivemos numa cultura carregada de estere\u00f3tipos e preconceitos. A partir do s\u00e9culo XIX, com a medicaliza\u00e7\u00e3o do corpo feminino, foram criados verdadeiros estatutos de desordens potenciais relacionadas \u00e0s mulheres. No discurso m\u00e9dico disciplinante do corpo reside uma tend\u00eancia em demonstrar que existe nas mulheres uma degenera\u00e7\u00e3o, da\u00ed a import\u00e2ncia de um controle<\/span><\/span><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote1sym\" name=\"sdfootnote1anc\"><sup>1<\/sup><\/a><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Ser mulher, ao longo da hist\u00f3ria ocidental, esteve ligado ao incompleto<\/span><\/span><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote2sym\" name=\"sdfootnote2anc\"><sup>2<\/sup><\/a><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">, ao degenerado, ao perigoso, ao amoral, \u00e0 fragilidade, \u00e0 impulsividade, \u00e0 falta de raz\u00e3o e, por conseguinte, \u00e0 loucura. Neste sentido, podemos perceber como estes dois processos, o de medicaliza\u00e7\u00e3o do corpo feminino e a psiquiatriza\u00e7\u00e3o da sociedade, se imbricam. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">\u00c9 importante retomar que v\u00e1rios aspectos do feminino foram demonizados, assim como o universo dos deuses ct\u00f4nicos. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Dessa forma, podemos observar quantas loucuras foram destinadas \u00e0s mulheres que n\u00e3o se enquadraram nos modelos de feminilidade ou que n\u00e3o suportaram a opress\u00e3o de serem relegadas a um lugar de subalternidade e \u00e0s altas cobran\u00e7as por comportamentos sociais considerados adequados. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Por isso, ao trabalharmos no contexto de sa\u00fade mental, \u00e9 importante considerar as quest\u00f5es de g\u00eanero, pois estas tanto podem estar implicadas no processo do adoecimento quanto na cronifica\u00e7\u00e3o deste.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Medicina tit\u00e2nica<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Com a superespecializa\u00e7\u00e3o da medicina, muitas pessoas chegam ao servi\u00e7o de sa\u00fade mental depois de peregrina\u00e7\u00f5es por in\u00fameros profissionais, o que implica numa s\u00e9rie de exames, grande medicaliza\u00e7\u00e3o e pouca melhora dos sintomas.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><em><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\">&#8220;No mundo atual existem suficientes sintomas reveladores, onde predominam a tecnologia cient\u00edfica tit\u00e2nica, as comunica\u00e7\u00f5es globais, a pol\u00edtica e a criminalidade por toda parte, para se acreditar na profecia de J\u00fcnger. Portanto, ser\u00e1 cada vez maior o desafio que o tit\u00e2nico-coletivo apresenta para a consci\u00eancia individual.\u201d (Ibdem)<\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Por esta dicotomia corpo-psique, agravado pela compartimentaliza\u00e7\u00e3o da medicina, a associa\u00e7\u00e3o entre adoecimento do corpo e sofrimento ps\u00edquico tornou-se desconectada.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><em>&#8220;As chamadas doen\u00e7as da nossa \u00e9poca (&#8230;) constituem-se muitas vezes como verdadeiros desafios \u00e0 compet\u00eancia de profissionais s\u00e9rios e dedicados, justamente por se expressarem em sintomas multifacetados, variando entre o f\u00edsico e o ps\u00edquico. Por outro lado, os avan\u00e7os das pesquisas m\u00e9dicas apontam, a cada passo, para achados que refor\u00e7am a sutileza dos limites que se possa ainda tentar estabelecer entre a nossa constitui\u00e7\u00e3o f\u00edsica e o nosso psiquismo. Como bem sabemos, a expressividade da linguagem simb\u00f3lica do corpo se manifesta, sincronicamente, tanto por meio da sua pr\u00f3pria forma, fun\u00e7\u00e3o e constitui\u00e7\u00e3o, quanto pela fala dos sintomas e da dor.&#8221;<\/em> (FARAH, 2009)<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">De acordo com Hillman, a hist\u00f3ria da medicina transformou nossa rela\u00e7\u00e3o com o cora\u00e7\u00e3o: \u201ca eviscera\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o acontece quando o cora\u00e7\u00e3o perde sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza org\u00e2nica, sua empatia com todas as coisas, quando o \u00e2mago de nosso peito se move de uma imagina\u00e7\u00e3o animal para uma mec\u00e2nica.\u201d (HILLMAN, 2010)<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Tal fen\u00f4meno relaciona-se com o industrialismo. Para que isso ocorresse foi necess\u00e1ria transforma\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o trazida por Harvey<\/span><\/span><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote3sym\" name=\"sdfootnote3anc\"><sup>3<\/sup><\/a><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><em><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: small;\">&#8220;Agora o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais o animal do amor e do calor, o lugar de<\/span><\/span><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: small;\"> himma<\/span><\/span><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: small;\">, pulsando suas formas imaginativas. Agora seus sinais s\u00e3o decodificados em pequenas mensagens sobre a expectativa de vida. Pois meu cora\u00e7\u00e3o pode me insultar, pode me atacar. Devo acalm\u00e1-lo: falo isso de cora\u00e7\u00e3o, fa\u00e7o isso pelo cora\u00e7\u00e3o, cuido do cora\u00e7\u00e3o. Levo-o regularmente para um <\/span><\/span><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: small;\">check-up<\/span><\/span><\/em><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><em>. O modelo mec\u00e2nico, com o qual observo o cora\u00e7\u00e3o como se fosse uma coisa morta fora de mim, move-se com o progresso tecnol\u00f3gico, dos foles de \u00e1gua de Harvey ao estetosc\u00f3pio, ao aparelho de eletrocardiograma ligado a mim por cabos, meu cora\u00e7\u00e3o numa tela de TV. (&#8230;) O cora\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda rei, ainda marca o passo, mas agora \u00e9 um tirano, pois o cora\u00e7\u00e3o e as doen\u00e7as circulat\u00f3rias s\u00e3o os \u201cmatadores n\u00famero 1\u201d, geralmente atacando \u00e0 noite. Ele n\u00e3o \u00e9 confi\u00e1vel; n\u00e3o podemos ter f\u00e9 no pr\u00f3prio \u00f3rg\u00e3o que um dia foi a sede da f\u00e9. O cora\u00e7\u00e3o tornou-se meu inimigo, meu matador, minha morte.&#8221;<\/em> (Ibdem)<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Podemos falar de um fen\u00f4meno de industrializa\u00e7\u00e3o da medicina. As linhas de montagem e a aliena\u00e7\u00e3o do trabalho transcendem os muros das ind\u00fastrias e entram na vida de forma massiva. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A especializa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica acabou se transformando em esquartejamento \u2013 desmembramento &#8211; do humano. Uma das consequ\u00eancias \u00e9 a \u00e2nsia por diagn\u00f3sticos, muitas vezes, estatutos rotuladores e limitantes, pois, geralmente, s\u00e3o pouco questionados e alheios \u00e0s individualidades.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Trazendo para a experi\u00eancia de est\u00e1gio, as mulheres participantes chegaram ao servi\u00e7o com um discurso cristalizado: \u201ctenho depress\u00e3o cr\u00f4nica\u201d ou \u201ctenho depress\u00e3o cr\u00f4nica e fibromialgia\u201d.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Diferentemente, outros usu\u00e1rios chegam ao ambulat\u00f3rio queixando-se de \u201csistema nervoso\u201d. Temos percebido que dentro de \u201cum sistema nervoso\u201d cabem in\u00fameras imagens, existe um espectro de possibilidades, os limites s\u00e3o mais flex\u00edveis.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Quando h\u00e1 um enclausuramento diagn\u00f3stico, os caminhos de trabalho podem ser dificultados. Al\u00e9m do mais, o fetiche do diagn\u00f3stico vem acompanhado de uma rela\u00e7\u00e3o de consumo com a sa\u00fade: quanto mais m\u00e9dicos, mais exames e novas possibilidades de medica\u00e7\u00e3o melhor. Titanismo manifesto: falta de sentido preenchido por excesso.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O fortalecimento dessa cultura de desresponsabiliza\u00e7\u00e3o pela pr\u00f3pria sa\u00fade e a procura voraz por explica\u00e7\u00f5es e tratamentos m\u00e9dicos geram um desvio do processo criativo e do fluxo de imagens.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">\u201c<span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">o sofrimento tit\u00e2nico, que \u00e9 vazio, existencial, repetitivo e carente de qualquer possibilidade de reflex\u00e3o e de consci\u00eancia\u201d. (L\u00d3PEZ-PEDRAZA, 2011) Tal sofrimento fica exposto no estado de engessamento em torno da doen\u00e7a e na busca compulsiva por respostas prontas.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Religiosidade \u2013 quando as imagens s\u00e3o raptadas do cora\u00e7\u00e3o<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">As participantes do grupo arteterap\u00eautico s\u00e3o religiosas. Esta dimens\u00e3o tem grande import\u00e2ncia em suas vidas. Tr\u00eas seguem igrejas evang\u00e9licas neo-pentecostais e uma \u00e9 Testemunha de Jeov\u00e1. As idades variam entre 43 e 60 anos.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><em>&#8220;O produto do encontro entre a palavra escrita na heran\u00e7a grega com a palavra escrita na tradi\u00e7\u00e3o judaica. E como acabamos de assinalar, a religi\u00e3o que se expressou atrav\u00e9s da palavra escrita deixou sua marca no homem ocidental. Nossa hist\u00f3ria da religi\u00e3o \u00e9 uma constante e sistem\u00e1tica nega\u00e7\u00e3o do religioso que prov\u00e9m da experi\u00eancia; e a religi\u00e3o se tornou aquela que imp\u00f5em suas leis e seu poder A religi\u00e3o ocidental \u00e9, sobretudo, uma religi\u00e3o da palavra escrita. Esta tradi\u00e7\u00e3o distorceu o funcionamento ps\u00edquico do homem ocidental, e isto obviamente concerne especialmente \u00e0 psicoterapia junguiana, a que se interessa pela experi\u00eancia interior das imagens reprimidas pela tradi\u00e7\u00e3o religiosa e pela instru\u00e7\u00e3o acad\u00eamica de conhecimentos psicol\u00f3gicos.&#8221;<\/em> (L\u00d3PEZ-PEDRAZA, 2012)<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">No in\u00edcio do est\u00e1gio, a quest\u00e3o do discurso religioso foi bastante marcante. Ele aparecia, muitas vezes, como filtro para as viv\u00eancias arteterap\u00eauticas. Em v\u00e1rios momentos, quando compartilh\u00e1vamos as experi\u00eancias das atividades, as participantes usavam o discurso religioso para justificar o adoecimento e ao mesmo tempo atribuir uma cura ou melhora a Deus.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Uma das participantes, a de denomina\u00e7\u00e3o diferente, ao compartilhar suas imagens, utilizava este momento para doutrinar as outras. Ela n\u00e3o falava de suas imagens, que estavam ali de alguma forma, trazia um discurso pronto, como que autom\u00e1tico.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Neste sentido, Hillman aborda o Cora\u00e7\u00e3o de Agostinho \u2013 o cora\u00e7\u00e3o confessional -, o cora\u00e7\u00e3o preenchido pela religi\u00e3o escrita e que leva ao ex\u00edlio as imagens do cora\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><em>&#8220;Agora vemos o que acontece \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o em um cora\u00e7\u00e3o de sentimento pessoal. Ao personalizarmos o cora\u00e7\u00e3o e ali localizarmos a palavra de Deus, a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 lan\u00e7ada em seu ex\u00edlio. Seu lugar \u00e9 usurpado pelo dogma, por imagens j\u00e1 reveladas. A imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 lan\u00e7ada ao ex\u00edlio mais baixo da fantasia sexual, ao ex\u00edlio mais elevado das concep\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas, ou ao ex\u00edlio exterior dos dados objetivos, nenhum dos quais reside no cora\u00e7\u00e3o, e todos eles, portanto, parecem sem cora\u00e7\u00e3o, mero instinto, pura especula\u00e7\u00e3o, fato bruto. Quando a imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 lan\u00e7ada para fora, apenas a subjetividade permanece \u2013 o cora\u00e7\u00e3o de Agostinho&#8221;.<\/em> (HILLMAN, 2010) <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Com o desenrolar do processo, as participantes conseguiram revelar imagens do cora\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, suas cren\u00e7as religiosas continuaram ocupando o mesmo lugar de import\u00e2ncia. A emana\u00e7\u00e3o destas imagens flu\u00eda e parecia dialogar com as leis b\u00edblicas de alguma forma. Foi interessante perceber que estes limites eram el\u00e1sticos dependendo do momento e da participante.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Vale ressaltar que no meio do processo de est\u00e1gio, a participante, que buscava doutrinar as outras, deixou o grupo. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Outro aspecto peculiar entre essas mulheres foi o \u201cpassar mal\u201d. Uma das participantes, em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, passou mal. Este mal-estar era caracterizado principalmente pela perda da consci\u00eancia. Houve epis\u00f3dios tamb\u00e9m de choros, gritos, v\u00f4mitos e movimentos involunt\u00e1rios. Geralmente ocorriam depois de exerc\u00edcios de respira\u00e7\u00e3o e contato com o corpo.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">As outras participantes, em algumas ocasi\u00f5es, sentiram-se mal tamb\u00e9m; as principais queixas eram as dores, distonia, fraqueza, tontura, desfalecimento, \u201cagonia no peito\u201d, \u201cagonia no ju\u00edzo\u201d. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">No contato com seus pr\u00f3prios corpos, revelaram estranhamento, desconforto, dor, prazer, reencontro.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><em>&#8220;Os mist\u00e9rios prov\u00eaem a alma de uma dimens\u00e3o para viver a experi\u00eancia religiosa que, no caso de Dioniso, significa sentir-se em seu pr\u00f3prio corpo, na emo\u00e7\u00e3o particular do momento em que se est\u00e1 vivendo. (&#8230;) Parece que, atrav\u00e9s de Dioniso, atrav\u00e9s dessa experi\u00eancia corporal na qual o deus prov\u00ea \u00eaxtase, a mulher se conecta com seu sofrimento. Creio que h\u00e1 uma diferen\u00e7a muito importante entre a experi\u00eancia de conectar-se com o pr\u00f3prio sofrimento e simplesmente sofr\u00ea-lo.&#8221;<\/em> (L\u00d3PEZ-PEDRAZA, 2011)<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Experi\u00eancias de contato e aproxima\u00e7\u00e3o com seus corpos &#8211; n\u00e3o por m\u00e9dicos, n\u00e3o por exames, n\u00e3o pelo vi\u00e9s da doen\u00e7a -, aproximaram tais mulheres delas mesmas, de seus cora\u00e7\u00f5es e, al\u00e9m disso, revelaram aspectos do campo dionis\u00edaco.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Continuaremos abordando este tema na pr\u00f3xima postagem.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Para obter o artigo completo, envie um e-mail: juflorenciocs@gmail.com<\/p>\n<div id=\"sdfootnote1\">\n<p align=\"JUSTIFY\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote1anc\" name=\"sdfootnote1sym\">1<\/a> <span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">\u201cA \u201cnatureza feminina\u201d vai explicar a loucura, a degenera\u00e7\u00e3o moral, a criminalidade, de tal forma que a mulher \u00e9 considerada como um ser incapaz de autonomia. Apesar de deter o importante papel de transmissora da moral, a mulher \u00e9 um ser tutelado, de maneira que o modelo idealizado de m\u00e3e e esposa n\u00e3o possa ser negado sob o risco de transforma-la em doente. A doen\u00e7a passa a ter um significado de degenera\u00e7\u00e3o moral, e a ideia de mulher relaciona-se \u00e0 ideia de periculosidade.\u201d (VIEIRA, 2002)<\/span><\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote2\">\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote2anc\" name=\"sdfootnote2sym\">2<\/a><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><span style=\"font-size: xx-small;\"> \u201cA embriologia da \u00e9poca estabelece que o embri\u00e3o humano passava por todos os est\u00e1gios sucessivos de evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies animais, quer dizer, o embri\u00e3o primeiro \u00e9 f\u00eamea, depois transforma-se em macho, portanto macho \u00e9 a \u00faltima etapa da evolu\u00e7\u00e3o, estado superior, enquanto o embri\u00e3o que permanece f\u00eamea, conhece uma parada de desenvolvimento.\u201d (KNIBIEHLER e FOUQUET, Apud VIEIRA, 2002) <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"sdfootnote3\">\n<p align=\"JUSTIFY\"><span style=\"font-size: small;\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote3anc\" name=\"sdfootnote3sym\">3<\/a> <span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\">Hillman faz sua leitura retrospectiva sobre as transforma\u00e7\u00f5es ocorridas no cora\u00e7\u00e3o: o Cora\u00e7\u00e3o de Le\u00e3o, o Cora\u00e7\u00e3o de Harvey e o Cora\u00e7\u00e3o de Agostinho. \u201cO cora\u00e7\u00e3o morto nasceu na consci\u00eancia ocidental, de acordo com Romanyshyn, no momento em que Harvey concebeu o cora\u00e7\u00e3o dividido. Ele viu, bem no meio, separando direita de esquerda, uma parede intranspon\u00edvel. Por causa dessa parede, o sangue precisa necessariamente ser bombeado numa grande e complicada circula\u00e7\u00e3o, ou seja, atrav\u00e9s dos pulm\u00f5es e de todo o corpo a fim de se mover at\u00e9 o outro lado do cora\u00e7\u00e3o. Portanto, \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o dividido que torna poss\u00edvel a <\/span><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\"><i>circulatio<\/i><\/span><span style=\"font-family: 'Times New Roman', serif;\">.\u201d (HILLMAN, 2010)<\/span><\/span><\/p>\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><br \/>\n<em>ALMEIDA, L. H. H. A psicologia junguiana e o corpo no processo de individua\u00e7\u00e3o. In: ZIMMERMANN, E. B. (org). Corpo e Individua\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.<\/em><br \/>\n<em> AMARANTE, Paulo (org.). Loucos pela vida: a trajet\u00f3ria da reforma psiqui\u00e1trica no Brasil, 1995.<\/em><br \/>\n<em> FARAH, R. M. Introdu\u00e7\u00e3o. In: ZIMMERMANN, E. B. (org). Corpo e Individua\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.<\/em><br \/>\n<em> GUIA DE DIREITOS HUMANOS. Dispon\u00edvel em: .<\/em><br \/>\n<em> HILLMAN. J. O pensamento do cora\u00e7\u00e3o e a alma do mundo. S\u00e3o Paulo: Verus, 2010.<\/em><br \/>\n<em> L\u00d3PEZ-PEDRAZA, R. \u00c1rtemis e Hip\u00f3lito \u2013 Mito e Trag\u00e9dia. Rio de Janeiro: Vozes, 2012.<\/em><br \/>\n<em> ____________. Dioniso no Ex\u00edlio \u2013 sobre a repress\u00e3o da emo\u00e7\u00e3o e do corpo. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2011.<\/em><br \/>\n<em> MINIST\u00c9RIO DA SA\u00daDE. Pol\u00edtica nacional de aten\u00e7\u00e3o integral \u00e0 sa\u00fade da mulher: princ\u00edpios e diretrizes, 2004.<\/em><br \/>\n<em> PHILLIPPINI, A. Arteterapia: M\u00e9todos, Projetos e Processos. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2010.<\/em><br \/>\n<em> __________. Grupos em Arteterapia: redes criativas para colorir vidas. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011.<\/em><br \/>\n<em> QUINTAES, M. Dispon\u00edvel em: .<\/em><br \/>\n<em> RAMOS, D. G. A psique do cora\u00e7\u00e3o \u2013 Uma leitura anal\u00edtica do seu simbolismo. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1990.<\/em><br \/>\n<em> VICTORIO, M. Impress\u00f5es Sonoras \u2013 M\u00fasica em Arteterapia. Rio de Janeiro: Wak, 2008.<\/em><br \/>\n<em> VIEIRA, E. M. A medicaliza\u00e7\u00e3o do corpo feminino. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2002.<\/em><br \/>\n<em> ZIMMERMANN, E. B. (org). Corpo e Individua\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.<\/em><\/p>\n<p><em>* Juliana Florencio \u00e9 psic\u00f3loga, arteterapeuta e terapeuta do Jogo da Areia (em forma\u00e7\u00e3o). Atualmente mora na regi\u00e3o de Stuttgart, Alemanha, onde realiza seus atendimentos.<\/em><br \/>\n<em>Email:\u00a0<a href=\"mailto:juflorenciocs@gmail.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">juflorenciocs@gmail.com<\/a><\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>|\u00a0Por\u00a0Juliana Florencio*\u00a0| Este texto \u00e9 parte do trabalho que escrevi para a conclus\u00e3o do Curso de Forma\u00e7\u00e3o em Arteterapia pela Tra\u00e7os\/Faintvisa, em 2014. Nessa primeira parte abordarei o mito de Dioniso. O\u00a0artigo surgiu a partir da experi\u00eancia de est\u00e1gio em arteterapia no qual foram realizadas viv\u00eancias com mulheres com diagn\u00f3stico de depress\u00e3o associado a queixas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":302,"featured_media":31576,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[579,220],"tags":[34,244,612,633,634,76,635],"acf":[],"publishpress_future_action":{"enabled":false,"date":"1969-12-31 21:00:00","action":"","terms":[],"taxonomy":"","browser_timezone_offset":0},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31571"}],"collection":[{"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/users\/302"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31571"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31571\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/media\/31576"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31571"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31571"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31571"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}