

{"id":31421,"date":"2017-11-17T06:19:38","date_gmt":"2017-11-17T09:19:38","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=31421"},"modified":"2021-08-31T19:43:03","modified_gmt":"2021-08-31T22:43:03","slug":"caixa-de-pandora-cuidar-de-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/caixa-de-pandora-cuidar-de-casa\/","title":{"rendered":"[CAIXA DE PANDORA] Cuidar de Casa"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter wp-image-31426\" src=\"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/img-juliana-florencio.jpg\" alt=\"\" width=\"652\" height=\"367\" srcset=\"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/img-juliana-florencio.jpg 720w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/img-juliana-florencio-300x169.jpg 300w, https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/img-juliana-florencio-700x394.jpg 700w\" sizes=\"(max-width: 652px) 100vw, 652px\" \/><\/p>\n<p>|\u00a0<em>Por\u00a0<a href=\"http:\/\/portalfloresnoar.com\/guiafloresnoar\/juliana-florencio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Juliana Florencio*<\/a><\/em>\u00a0|<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico sempre me inquietou, mas desde que, recentemente, voltei de uma temporada na Alemanha, comecei a ter mais clareza sobre a import\u00e2ncia deste assunto.<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses ditos desenvolvidos n\u00e3o ocorre o que acontece aqui no Brasil nas classes economicamente mais favorecidas: a terceiriza\u00e7\u00e3o do lidar com a vida cotidiana &#8211; inclusive o cuidado com as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Tenho percebido que venho de uma gera\u00e7\u00e3o em que as m\u00e3es tentaram nos poupar do \u201ctrabalho de casa\u201d, com o discurso de que dever\u00edamos focar nos estudos, a prioridade deveria ser esta. Isto tem algumas consequ\u00eancias importantes: uma delas \u00e9 a sobrecarga das m\u00e3es, com suas injustas triplas jornadas de trabalho; outra, \u00e9 uma esp\u00e9cie de infantiliza\u00e7\u00e3o, no sentido, de que o indiv\u00edduo n\u00e3o aprende, n\u00e3o adquire habilidades para lidar com coisas muito b\u00e1sicas da vida, como limpar a casa, mant\u00ea-la organizada, cozinhar, lavar roupas, ter uma rotina dom\u00e9stica&#8230;<\/p>\n<p>Sabemos que muito disso se deve \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o do que \u00e9 atribu\u00eddo ao feminino. O cuidar da casa sempre foi basicamente uma fun\u00e7\u00e3o feminina e isso a relega a uma categoria inferior, de n\u00e3o import\u00e2ncia. Existe um ditado que diz que o trabalho dom\u00e9stico \u00e9 invis\u00edvel at\u00e9 que deixe de ser feito. E como isso \u00e9 real!<\/p>\n<p>Provavelmente nossas m\u00e3es tenham tentado nos poupar dessa invisibilidade e menos valia. Acharam que a solu\u00e7\u00e3o seria o foco nos estudos e no mercado de trabalho \u2013 que ancestralmente fazem parte do universo masculino, dessa forma, valorizados.<\/p>\n<p>Esse rebaixamento de import\u00e2ncia dos cuidados dom\u00e9sticos emba\u00e7am o real lugar que este aspecto tem em nossas vidas. A casa \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o do nosso corpo, \u00e9 a morada da nossa exist\u00eancia, \u00e9 onde nossa intimidade \u00e9 vivida&#8230; e isso tem sido relegado, desvalorizado e &#8230; terceirizado.<\/p>\n<p>Esta terceiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 experenciada como sinal de <i>status<\/i>, privil\u00e9gio.<\/p>\n<p>Alia-se \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o do feminino, um forte componente escravocata que, infelizmente, a aboli\u00e7\u00e3o n\u00e3o tirou do nosso \u201cDNA cultural\u201d. A mentalidade brasileira divide as pessoas em dois tipos: os poucos que fazem parte da casa grande e os muitos da senzala.<\/p>\n<p>Ora, os senhores e senhoras n\u00e3o cuidavam de suas casas&#8230; grandes&#8230; nem das suas crian\u00e7as, as escravas sim, que al\u00e9m da sua fam\u00edlia, tinham que cuidar da fam\u00edlia dos brancos. Ora, isso pouco mudou no Brasil, essa mentalidade continua a existir e forte.<\/p>\n<p>Machismo e cultura de privil\u00e9gios: que tr\u00e1gica combina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos pensar que \u00e9 tr\u00e1gico apenas para as mulheres e para as\/os trabalhadoras\/es que prestam este tipo de servi\u00e7o (empregadas dom\u00e9sticas, bab\u00e1s, faxineiras, servi\u00e7os gerais, porteiros, zeladores etc etc.) e sim a carga sobre estes \u00e9 muito mais pesada e passa por desvaloriza\u00e7\u00f5es desde remunera\u00e7\u00e3o at\u00e9 morais. Mas, estas quest\u00f5es atingem a todos. Uma parte fica sobrecarregada e diminu\u00edda em sua import\u00e2ncia e a outra alienada de uma experi\u00eancia vital: cuidar da casa \u00e9 cuidar de si. Este duo de n\u00e3o-cuidado\/terceiriza\u00e7\u00e3o tem impactos importantes sobre a vida pr\u00e1tica e ps\u00edquica.<\/p>\n<p>Como cantaria Caetano \u201cAlguma coisa est\u00e1 fora da ordem, fora da nova ordem mundial&#8230;\u201d. Vemos uma classe m\u00e9dia mergulhada numa luta di\u00e1ria, muitas vezes exasperante, para a manuten\u00e7\u00e3o dessa cultura de privil\u00e9gios. Ora, deve ter alguma coisa muito disfuncional quando uma fam\u00edlia n\u00e3o pode dar conta de suas pr\u00f3prias necessidades de auto-cuidado, necessitando, como \u00fanica via, desta terceiriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou dizendo que contar com este tipo de trabalho seja errado. N\u00e3o \u00e9 isso! Questiono a manuten\u00e7\u00e3o de um ideal de estilo de vida que leva pessoas a serem ref\u00e9ns do capitalismo sem a m\u00ednima reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos achar que seria aprisionante apenas para as empregadas dom\u00e9sticas, por exemplo, mas n\u00e3o \u00e9, acaba sendo para todos.<\/p>\n<p>A luta pela manuten\u00e7\u00e3o de uma cultura de privil\u00e9gios, al\u00e9m de injusta, pode ser exaustiva.<\/p>\n<p>Vivi uma exper\u00eancia na Alemanha que me levou a refletir bastante e de forma bem pr\u00e1tica: fui fazer a faxina na casa e utilizei um equipamento que me deixou fascinada&#8230; era s\u00f3 um esfreg\u00e3o! Mas este objeto facilitava tanto a limpeza que fiquei pensando em como aqui no Brasil n\u00e3o investimos em solu\u00e7\u00f5es para lidar com este ran\u00e7o de tortura e desprezo em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho dom\u00e9stico. Como as\/os faxineiras\/os, e n\u00f3s mesmas\/os, estamos submetidas\/os ao mesmo tipo de esfor\u00e7o de 500 anos atr\u00e1s&#8230; Como este tipo de cuidado \u00e9 invis\u00edvel e renegado!<\/p>\n<p>Para concluir minha reflex\u00e3o, gostaria de citar a frase de Jung que penso que se encaixa bem a este questionamento sobre a manuten\u00e7\u00e3o do machismo e da cultura de privil\u00e9gios: \u201cOnde o amor impera, n\u00e3o h\u00e1 desejo de poder; onde o poder predomina, h\u00e1 falta de amor. Um \u00e9 a sombra do outro.\u201d<\/p>\n<p><em>* Juliana Florencio \u00e9 psic\u00f3loga, arteterapeuta e terapeuta do Jogo da Areia (em forma\u00e7\u00e3o). Atualmente mora na regi\u00e3o de Stuttgart, Alemanha, onde realiza seus atendimentos.<\/em><br \/>\n<em>Email:\u00a0<a href=\"mailto:juflorenciocs@gmail.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">juflorenciocs@gmail.com<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>|\u00a0Por\u00a0Juliana Florencio*\u00a0| A quest\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico sempre me inquietou, mas desde que, recentemente, voltei de uma temporada na Alemanha, comecei a ter mais clareza sobre a import\u00e2ncia deste assunto. 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