

{"id":27711,"date":"2017-04-01T03:40:39","date_gmt":"2017-04-01T06:40:39","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=27711"},"modified":"2017-04-01T13:46:35","modified_gmt":"2017-04-01T16:46:35","slug":"morte-aos-verdes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/morte-aos-verdes\/","title":{"rendered":"&#8216;Morte aos Verdes&#8217;"},"content":{"rendered":"<pre>Por Bruno Montarroyos\r\n<a href=\"http:\/\/querosermaishumano.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">http:\/\/querosermaishumano.blogspot.com.br\/<\/a><\/pre>\n<p>Era uma sociedade diferente aquela. Pessoas em filas para in\u00fameras pistas de corrida. Basicamente dois tipos de pessoas, as verdes e as azuis.<\/p>\n<p>Os seres humanos azuis eram bel\u00edssimos, vistosos, fortes, dava gosto de se ver. J\u00e1 os verdes, s\u00f3 de olhar para eles, muitas vezes a rea\u00e7\u00e3o primeira era o medo.<\/p>\n<p>A atividade di\u00e1ria de cada um era bem clara: correr. Sim, correr. A pista n\u00e3o era em metros, mas em horas. Uma pista que tinha exatamente o tamanho de oito horas e n\u00e3o importava a velocidade, a chegada estaria a oito horas de dist\u00e2ncia da largada.<\/p>\n<p>Bem pr\u00f3ximo \u00e0 chegada havia algumas pessoas elegantes bloqueando a passagem at\u00e9 a linha de chegada. As regras diziam que era necess\u00e1rio pedir com delicadeza, educa\u00e7\u00e3o, calma, tranquilidade, paz, determina\u00e7\u00e3o e f\u00e9 para que as pessoas elegantes sa\u00edssem do caminho. Se o pedido fosse conforme previsto nas regras, ent\u00e3o as pessoas elegantes liberariam o caminho at\u00e9 a linha de chegada. Bem simples!<\/p>\n<p>A qualidade de vida de cada pessoa ia sendo determinada pela quantidade de vezes que elas conseguiam cruzar a linha de chegada sem infringir as regras. Acesso a comida, a \u00e1gua, a lazer, a liberdade, etc., tudo era determinado pelas premia\u00e7\u00f5es ou penalidades. Infringir as regras era pass\u00edvel de duras penas. Tentar agredir ou empurrar as pessoas elegantes que bloqueiam a linha de chegada tinha como resultado espancamento, restri\u00e7\u00e3o da liberdade, proibi\u00e7\u00e3o de acesso a \u00e1gua e comida, dentre outras.<\/p>\n<p>Desde antes de nascer, ainda na barriga da m\u00e3e, ou mesmo rec\u00e9m-nascidos, todos participavam desta atividade at\u00e9 o final da juventude. As m\u00e3es precisavam carregar os seus filhos enquanto eles mesmos n\u00e3o pudessem correr.<\/p>\n<p>As pistas eram sempre duplas, um lado verde e um azul, mas quem corria de um dos lados n\u00e3o conseguia ter a vis\u00e3o do outro.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que era liberado um verde para iniciar a corrida, era liberado um azul.<\/p>\n<p>A multid\u00e3o de verdes e azuis que esperavam a sua pr\u00f3pria vez de correr podiam acompanhar uma cobertura sensacional pelos tel\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas os tel\u00f5es s\u00f3 mostravam na cobertura o caminho completo dos azuis. O \u00fanico trecho do caminho dos verdes que aparecia na cobertura dos tel\u00f5es era a chegada. Bem, isso n\u00e3o seria um problema, porque era s\u00f3 prestar aten\u00e7\u00e3o ao percurso dos azuis, da largada \u00e0 chegada e imaginar que o dos verdes seria igual, apenas mudando a cor.<\/p>\n<p>As chegadas eram, de fato, iguais, a verde e a azul. Todavia, havia diferen\u00e7as no caminho.<\/p>\n<p>A pista dos azuis era perfeitamente conservada. Ao longo do caminho havia \u00e1gua dispon\u00edvel, e at\u00e9 paradas para refei\u00e7\u00f5es e descanso. Al\u00e9m disso havia uma torcida gritando palavras de motiva\u00e7\u00e3o e at\u00e9 ajudando quando preciso em alguma dificuldade.<\/p>\n<p>A pista dos verdes era cheia de buracos e armadilhas. N\u00e3o havia \u00e1gua, nem refei\u00e7\u00f5es ou descanso no caminho, pelo contr\u00e1rio, havia diversos obst\u00e1culos e ainda carrascos que tornavam a corrida ainda mais dura para os verdes. Viol\u00eancia f\u00edsica e moral. Gritavam palavras de \u00f3dio, de desencorajamento, espancavam, jogavam pedras, coisas podres, mas, como j\u00e1 falado, essa parte n\u00e3o sa\u00eda na cobertura dos tel\u00f5es.<\/p>\n<p>Todos podiam ver o que acontecia nas chegadas de todas as pistas, em forma de cobertura espetacular. Era poss\u00edvel ver a grande maioria dos azuis pedirem com delicadeza, educa\u00e7\u00e3o, calma, tranquilidade, paz, determina\u00e7\u00e3o e f\u00e9 \u00e0s pessoas elegantes para sa\u00edrem do caminho e, ent\u00e3o, cruzavam felizes a linha de chegada. Apenas alguns poucos chegavam mal humorados e n\u00e3o conseguiam o controle suficiente para seguir as regras e terminavam sendo punidos, mas com toda a delicadeza, afinal, eram azuis, belos, fortes e davam gosto de se ver. Pra dizer a verdade, por serem azuis, muitas vezes nem eram punidos. Afinal, a sociedade \u00e9 t\u00e3o beneficiada com gente importante assim, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo era poss\u00edvel ver como a grande maioria dos verdes chegavam descontrolados. Como n\u00e3o conseguiam pedir \u00e0s pessoas elegantes conforme a regra, com delicadeza, educa\u00e7\u00e3o, calma, tranquilidade, paz, determina\u00e7\u00e3o e f\u00e9, logo n\u00e3o eram atendidos. Revoltados, tentavam cruzar a linha de chegada com o uso da for\u00e7a, da viol\u00eancia, do desespero, machucando as pessoas elegantes. N\u00e3o adiantava muito, pois alcan\u00e7ar a linha de chegada fora das regras, pelo menos para os verdes, significava, no lugar de premia\u00e7\u00f5es, duras penas, severas, violentas, dolorosas. Todavia, alguns poucos verdes, pouqu\u00edssimos mesmo, conseguiam manter o controle apesar de todas as dificuldades. Conseguiam seguir as regras e cruzar a linha de chegada. Sim, \u00e9 verdade que algumas vezes mesmo conseguindo o controle para seguir as regras, alguns verdes n\u00e3o conseguiam que as pessoas elegantes quisessem sair da frente. As pessoas elegantes \u00e0s vezes diziam que um olhar do verde teria indicado uma inten\u00e7\u00e3o que poderia significar falta de f\u00e9, ou coisa parecida. E davam a puni\u00e7\u00e3o, devida e indevida. Mas s\u00e3o verdes, n\u00e3o \u00e9 verdade? Que falta fariam a essa sociedade?<\/p>\n<p>Cada pessoa voltaria a correr no outro dia, mesmo as penalizadas. Cada um voltaria a correr, dia ap\u00f3s dia, at\u00e9 os dezoito anos completos, lembra? Voltariam a correr no outro dia, carregando os frutos de suas premia\u00e7\u00f5es ou de suas penalidades. Principalmente no caso dos verdes, muitos morriam antes de completar os dezoito anos, seja pelo ac\u00famulo de penalidades das corridas, seja por serem exterminados pelo \u00f3dio popular. Isso explico abaixo.<\/p>\n<p>Enquanto assistiam \u00e0 cobertura espetacular pelos tel\u00f5es, todas as pessoas, inclusive as verdes, achavam que os verdes eram, de fato, pessoas muito m\u00e1s. Afinal \u00e9 poss\u00edvel ver nos tel\u00f5es como elas s\u00e3o violentas, verdadeiros animais. Os tel\u00f5es mostram que ambos os corredores, o verde e o azul, saem em igualdade de condi\u00e7\u00f5es, apesar de suas apar\u00eancias f\u00edsicas e de sa\u00fade, e a chegada \u00e9 exatamente igual. \u00c9 \u00f3bvio que os verdes s\u00e3o maus e os azuis s\u00e3o bons. Sim, h\u00e1 uns poucos verdes bons e uns menos ainda azuis maus, mas isso \u00e9 s\u00f3 a exce\u00e7\u00e3o. Todavia essa exce\u00e7\u00e3o torna \u00f3bvio que todo verde poderia ser bom se assim o quisesse, n\u00e3o acha? Se uns conseguem porque todos os demais n\u00e3o conseguiriam? Obviamente porque n\u00e3o se esfor\u00e7am o suficiente, bando de pregui\u00e7osos maus. Enfim, justa essa sociedade \u00e9 sim, mas s\u00f3 falta exterminar todos os verdes infratores para que seja perfeita. E era isso o que a multid\u00e3o conversava e repetia e aumentava o coro: Morte aos verdes infratores! Morte aos verdes infratores! Com certeza era a solu\u00e7\u00e3o para os problemas daquela sociedade. E os pr\u00f3prios verdes que assistiam engrossavam o coro. A cobertura espetacular dos tel\u00f5es e a multid\u00e3o endossando representavam uma veracidade infal\u00edvel, cheia de autoridade.<\/p>\n<p>Acontece que alguns verdes conseguiam enxergar a pista dos verdes tamb\u00e9m, fora dos tel\u00f5es. E se revoltavam contra o que acontecia em seu percurso. Eles gritavam outros sons. N\u00e3o pediam a morte dos verdes infratores, mas pediam que houvesse puni\u00e7\u00e3o aos carrascos, conserto dos buracos da pista dos verdes, que houvesse tamb\u00e9m \u00e1gua, refei\u00e7\u00f5es e descanso no caminho, que houvesse palavras de est\u00edmulo e ajuda tamb\u00e9m. Mas esse grito era recebido com vaias, com palavras de \u00f3dio que cresciam. A multid\u00e3o achava sem sentido esse grito destoante. Ser\u00e1 que esse povo n\u00e3o consegue enxergar a realidade? Est\u00e1 t\u00e3o clara na cobertura espetacular dos tel\u00f5es. Deveriam morrer tamb\u00e9m, junto com os verdes infratores.<\/p>\n<p>Os espancamentos, linchamentos, exterm\u00ednios dos verdes que infringiam as regras nas chegadas das pistas eram aplaudidos. A multid\u00e3o se realizava, se regozijava ao ver um verde, depois de violentar as pessoas elegantes, serem agredidos at\u00e9 \u00e0 morte. Isso! Matem todos! \u00c9 a solu\u00e7\u00e3o! \u00c9 a solu\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Mas o que chamava mais a aten\u00e7\u00e3o era que quando corriam duas m\u00e3es, cada uma com um rec\u00e9m-nascido nos bra\u00e7os, uma verde e uma azul, os dois beb\u00eas, o verde e o azul, pareciam mais iguais do que pareceriam quando estivessem pr\u00f3ximos aos dezoito anos. Isso se a morte precipitada do verde n\u00e3o viesse impedir a futura compara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bruno Montarroyos http:\/\/querosermaishumano.blogspot.com.br\/ Era uma sociedade diferente aquela. 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