

{"id":26765,"date":"2016-10-25T15:57:34","date_gmt":"2016-10-25T18:57:34","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=26765"},"modified":"2016-10-25T15:57:34","modified_gmt":"2016-10-25T18:57:34","slug":"a-experiencia-do-parto-por-erico-andrade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/a-experiencia-do-parto-por-erico-andrade\/","title":{"rendered":"&#8216;A experi\u00eancia do parto&#8217;, por \u00c9rico Andrade"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o me parece adequado tecer um relato de parto sem antes esclarecer dois pontos: a experi\u00eancia fenomenol\u00f3gica do parto \u00e9 inacess\u00edvel aos homens e o exerc\u00edcio da paternidade \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o moral, \u00e9tica. Nesses termos, as linhas que se seguem n\u00e3o poder\u00e3o ser outra coisa sen\u00e3o o relato de uma experi\u00eancia afetiva vivenciada por quem ao lado de sua companheira e gra\u00e7as a ela p\u00f4de imergir no extraordin\u00e1rio acontecimento que \u00e9 a vinda de uma crian\u00e7a ao mundo. Comecemos. Ser\u00e1 um come\u00e7o um tanto filos\u00f3fico, mas com a pretens\u00e3o de servir de preparo para a vida, como parece ser, ali\u00e1s, a miss\u00e3o da filosofia.<\/p>\n<p>A associa\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo socr\u00e1tico, a mai\u00eautica, ao parto, \u00e9, sem nenhuma d\u00favida, uma constru\u00e7\u00e3o masculina, mas n\u00e3o deixa de registrar o fato de que o parto \u00e9 um evento \u00e1rido, duro e tortuoso, vivenciado pelas mulheres que portam no seu ventre uma nova vida. Fazer filosofia \u00e9 partejar, diria S\u00f3crates. Quem faz o parto, claro, s\u00e3o as mulheres, assim como o fil\u00f3sofo n\u00e3o pare outro fil\u00f3sofo pela mai\u00eautica. Notadamente, s\u00e3o as pessoas que se tornam fil\u00f3sofas, uma vez que o fil\u00f3sofo apenas facilita, por meio de quest\u00f5es, a reflex\u00e3o filos\u00f3fica, assim como as parteiras apenas facilitam, por meio de incentivos e t\u00e9cnicas, a gestante parir. N\u00f3s, homens, n\u00e3o parimos, mas podemos, assim como S\u00f3crates, que estava junto \u00e0queles que pariam a filosofia, estar junto de nossas companheiras. Ali\u00e1s, devemos estar juntos \u00e0quela que \u00e9 respons\u00e1vel por trazer a vida, ap\u00f3s um longo per\u00edodo de preparo, ao mundo; por lan\u00e7ar \u00e0 luz os primeiros gritos da vida. Compomos, com outras pessoas, uma rede de afetos para que a chegada, natural, da vida possa ser n\u00e3o tanto menos dolorosa, mas consciente de que a dor, a dor inimagin\u00e1vel e incontorn\u00e1vel do parto, \u00e9 o caminho trilhado pela vida para nos dizer o quanto marcante \u00e9 o seu advento.<\/p>\n<p>S\u00f3 sente dor quem est\u00e1 vivo e s\u00f3 se vive gra\u00e7as a transforma\u00e7\u00e3o da dor na for\u00e7a, pr\u00f3pria da mulheres, de parir. S\u00e3o as mulheres que nos conduzem \u00e0 exist\u00eancia e a elas n\u00e3o basta a gratid\u00e3o; \u00e9 preciso o apoio. E o qu\u00e3o lindo \u00e9 estar ao seu lado em todos os momentos em que a vida come\u00e7a a dar sinais que quer habitar o mundo e estar conosco com os seus bra\u00e7os tanto felizes quanto desordenados. A experi\u00eancia da vinda de Caetano circula nos meus dias, horas, na distra\u00e7\u00e3o cotidiana dos momentos em que a vida nos brinda com o \u00f3cio. Ela na verdade habita a minha pele com a marca daquilo que o tempo n\u00e3o apaga; a n\u00e3o ser quando o tempo resolve se apagar. Para sempre o corpo guarda na sua alma o que nos arrebata com a for\u00e7a poderosa da vida.<\/p>\n<p>E \u00e9 a vida que vai se movendo e com ela o corpo da m\u00e3e &#8211; Vanessa &#8211; que se prepara para lhe acolher e termina por tamb\u00e9m se mover: sinfonia. Quando o corpo da m\u00e3e se move: tudo passa a se mover; at\u00e9 o momento ent\u00e3o em que n\u00e3o se distingui mais o movimento da crian\u00e7a daquele do corpo, agora, dilatado, da m\u00e3e. S\u00e3o os \u00faltimos momentos de uma simbiose sem qual a vida n\u00e3o vinga. S\u00e3o horas, foram horas, que espa\u00e7avam dores, nem sempre regulares e que prenunciavam uma data inesquec\u00edvel de nossas vidas. Era preciso que as dores, sim as dores, pudessem ganhar um compasso, um ritmo para que Caetano dissesse ao mundo que a esperan\u00e7a \u00e9 sempre um grito! Tem for\u00e7a. For\u00e7a, ali\u00e1s, capaz de espantar o seu irm\u00e3o Heitor que numa tentativa ins\u00f3lita de compreender a dor de Vanessa, a quem ele acompanhava vigilante, trouxe uma paralelo, ainda sim distante de sua realidade, quando perguntou se a dor de Vanessa seria a mesma de uma crian\u00e7a quando ela \u00e9 agredida. De fato, mesmo sem nunca ter sido agredido Heitor percebia a for\u00e7a das dores sem as quais o seu irm\u00e3o, desde barriga t\u00e3o amado, n\u00e3o poderia lan\u00e7ar-se ao mundo para nos alegrar com o seu choro e nos felicitar com os seus primeiros movimentos.<\/p>\n<p>Essas dores foram paulatinamente, Vanessa poderia dizer, talvez, vagarosamente, ganhando ritmo. Heitor j\u00e1 n\u00e3o estava mais conosco. Era a sua vov\u00f3 de afeto e m\u00e3e de Vanessa que chegara, Jane. A expectativa naturalmente crescia, mas ela n\u00e3o fora acompanhada na mesma propor\u00e7\u00e3o desejada das contra\u00e7\u00f5es. Era ainda necess\u00e1rio mais ritmo, leia-se; dor. Mais compassada, mas dor. E elas s\u00f3 vieram \u00e0 noite, com a bolsa apresentando alguns sinais de ter sido levemente estourada e dando a entender que Caetano j\u00e1 n\u00e3o tinha tantas datas para vir. Estava muito pr\u00f3ximo. Agora, meu presente de anivers\u00e1rio, permitam-me dizer isso, n\u00e3o atrasaria mais, no m\u00e1ximo ele viria logo depois, tr\u00eas dias depois para ser preciso.<\/p>\n<p>Quando em nossa casa j\u00e1 estavam presentes as pessoas que compunham a nossa rede de cuidado (Rosinha, Tati e Maina) Caetano resolveu dar sinais claros de que estava perto. As dores, naturalmente, aumentaram e a sua dedicada m\u00e3e viu seu corpo se transformar numa regi\u00e3o de dor intensa, quase insuport\u00e1vel, mas paradoxalmente desejada porque sem ela Caetano n\u00e3o poderia estar em nossos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Eis que de \u00faltima hora, devo dizer que em geral sempre se tem o \u201cde \u00faltima hora\u201d, Caetano resolve se colocar numa posi\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. O encaixe j\u00e1 n\u00e3o era perfeito e as contra\u00e7\u00f5es voltavam a ser espa\u00e7as. Tudo muito dif\u00edcil para a minha invariavelmente forte companheira Vanessa. Num esfor\u00e7o dela, agora agarrada a mim com todas as suas for\u00e7as, conseguimos encaixar Caetano. Seria o \u00faltimo esfor\u00e7o em nossa casa porque no parto n\u00e3o h\u00e1 intervalos, n\u00e3o se pode recorrer a uma parada, por assim dizer regulamentar. \u00c9 dif\u00edcil mesmo respirar. A guerreira Vanessa precisava de uma for\u00e7a maior do que aquela que eu tentava lhe transmitir e com a qual ela aderia a mim com seus bra\u00e7os nos momentos mais delicados. A transfer\u00eancia para o hospital j\u00e1 n\u00e3o era algo distante. Da\u00ed, passou a ser iminente para que ent\u00e3o se tornasse uma realidade. Fomos. A emo\u00e7\u00e3o do trajeto, o cuidado com os buracos, muitos buracos, sabemos, e a ausculta constante dos batimentos do nosso pequeno sonho, a ser compartilhado para sempre, se faziam presente, muito presente. Tudo parecia denso, intenso e forte.<\/p>\n<p>Chegamos ao hospital. Tr\u00e2mites burocr\u00e1ticos que aceleravam a nossa ansiedade, mas n\u00e3o o parto, ainda que Caetano estivesse a pouco dedos de sair do corpo acolhedor de sua m\u00e3e. Pequenos desencontros, mudan\u00e7as de sala, roupas e, ent\u00e3o, nos encontramos numa sala cuja penumbra nos dava o conforto necess\u00e1rio para a concentra\u00e7\u00e3o e, com ela, as contra\u00e7\u00f5es, aceleradas, agora, com ocitocina, e compassadas num ritmo pr\u00f3prio do per\u00edodo que chamamos expuls\u00f3rio, mas que deriva do latim e significa literalmente: colocar para fora. Era a hora de Caetano sair. Afinal, a casa j\u00e1 era de Caetano, como dizia a m\u00fasica de Arnaldo Antunes, tocada tanto em casa quanto, por coincid\u00eancia, no hospital no celular do m\u00e9dico. A casa \u00e9 sua meu filho. O nome dessa casa \u00e9 Terra. O teu planeta j\u00e1 queria sentir os teus gritos circularem. N\u00f3s, filho, j\u00e1 faz\u00edamos morada na emo\u00e7\u00e3o. A tua m\u00e3e, sempre guerreira, fazia da dor uma aliada com qual ela te traria para os meus, agora j\u00e1 serenos, bra\u00e7os. N\u00e3o tardou mais. Veloz. Foste velozmente para os meus bra\u00e7os para em seguida retornar, por meio deles, para o conforto da tua m\u00e3e que acolhia nos seus exaustos, mas firmes bra\u00e7os, o ser com o qual ela existe num s\u00f3 corpo: Caetano! Foram os teus primeiros gritos filho que fizeram de nossas l\u00e1grimas o testemunho do que a vida tem de mais especial, a saber: a capacidade de gerar vida e, sobretudo, afeto; numa palavra: amor. Te amamos!<\/p>\n<p><em>Por \u00c9rico Andrade<\/em><br \/>\n<em> ericoandrade@gmail.com<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o me parece adequado tecer um relato de parto sem antes esclarecer dois pontos: a experi\u00eancia fenomenol\u00f3gica do parto \u00e9 inacess\u00edvel aos homens e o exerc\u00edcio da paternidade \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o moral, \u00e9tica. 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