

{"id":26634,"date":"2016-10-11T11:10:03","date_gmt":"2016-10-11T14:10:03","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=26634"},"modified":"2016-10-11T11:10:03","modified_gmt":"2016-10-11T14:10:03","slug":"debate-energetico-enviesado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/debate-energetico-enviesado\/","title":{"rendered":"Debate energ\u00e9tico enviesado"},"content":{"rendered":"<pre>Por Heitor Scalambrini Costa*<\/pre>\n<p>A mat\u00e9ria publicada na Revista Caros Amigos (no 232\/2016) intitulada \u201cSob o mito da energia limpa\u201d da jornalista Lillian Primi foi a motiva\u00e7\u00e3o dos coment\u00e1rios que fa\u00e7o a seguir. Falar em energia nos aproxima de temas correlatos como economia, meio ambiente, tecnologia, modelo de sociedade. Logo, dif\u00edcil, ou quase imposs\u00edvel encontrar consensos nesta discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Todavia alguns pontos s\u00e3o inquestion\u00e1veis, e mesmo assim conceitos s\u00e3o deturpados junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 o caso do uso frequente do termo \u201cenergia limpa\u201d. Toda fonte energ\u00e9tica ao ser convertida em outra forma produz algum tipo de res\u00edduo, emiss\u00e3o, contamina\u00e7\u00e3o, polui\u00e7\u00e3o, que afeta o meio ambiente e as pessoas. Al\u00e9m de que as obras e instala\u00e7\u00f5es realizadas para o processo de gera\u00e7\u00e3o, dentro do modelo de expans\u00e3o vigente, e mesmo a transmiss\u00e3o da energia, provocam danos, expuls\u00f5es, priva\u00e7\u00f5es, preju\u00edzos, destrui\u00e7\u00f5es de vidas e de bens muitas vezes permanentes e irrevers\u00edveis. Portanto \u00e9 falso e desaconselh\u00e1vel o uso deste termo. Meros interesses econ\u00f4micos da m\u00eddia corporativa, aliada das empresas tentam confundir quando antep\u00f5em energia limpa versus energia suja.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que as chamadas fontes n\u00e3o renov\u00e1veis \u2013 petr\u00f3leo, g\u00e1s natural, carv\u00e3o e min\u00e9rios radioativos \u00a0&#8211; s\u00e3o as principais respons\u00e1veis pelo aquecimento global, pelas emiss\u00f5es que provocam, e consequentemente, com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que ocorrem no planeta. Evidentemente, este efeito \u00e9 agravado de maneira substancial pelo modo de produ\u00e7\u00e3o e consumo da atual civiliza\u00e7\u00e3o. E aqui \u00e9 ressaltado o papel nefasto do petr\u00f3leo e seus derivados como o inimigo n\u00famero um do aquecimento global.<\/p>\n<p>Por outro lado, as fontes renov\u00e1veis de energia \u2013 sol, vento, \u00e1gua, biomassa &#8211; s\u00e3o as que menos contribuem para as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, e consequentemente, para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Mas ai tem um por\u00e9m, e que foi muito bem registrado na referida mat\u00e9ria sobre os problemas socioambientais causados pela gera\u00e7\u00e3o centralizada da energia e\u00f3lica, e o que tudo indica tamb\u00e9m da energia solar fotovoltaica. O atual modelo de implanta\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o destas tecnologias \u00e9 t\u00e3o catastr\u00f3fico do ponto de vista socioambiental, como o do uso das fontes n\u00e3o renov\u00e1veis. Neste caso a vantagem comparativa inexiste. \u00c9 o que ocorre atualmente no Nordeste brasileiro com a devasta\u00e7\u00e3o do bioma Caatinga, e com as mudan\u00e7as dos modos de vida infligidas \u00e0s popula\u00e7\u00f5es que se dedicavam \u00e0 pesca, coleta de mariscos, e \u00e0 agricultura familiar.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma discuss\u00e3o sobre a quest\u00e3o das mega hidroel\u00e9tricas com a constru\u00e7\u00e3o das barragens. Alguns gestores p\u00fablicos, membros da academia, t\u00e9cnicos e grupos empresariais, ainda insistem na defesa de grandes e destruidores empreendimentos, onde as desvantagens superam em muito as vantagens. Os deslocamentos de milhares de pessoas acarretam danos irrevers\u00edveis a estas popula\u00e7\u00f5es, conforme constata\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. Por outro lado, \u00e9 consenso que as hidroel\u00e9tricas tamb\u00e9m emitem uma consider\u00e1vel quantidade de GEE, principalmente o metano resultante da degrada\u00e7\u00e3o microbiol\u00f3gica da mat\u00e9ria org\u00e2nica existente nos reservat\u00f3rios. Todavia, os defensores desta tecnologia, ap\u00f3s terem que aceitar esta contasta\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, ainda tentam desqualificar aqueles que s\u00e3o contr\u00e1rios a constru\u00e7\u00e3o de mega hidroel\u00e9tricas na regi\u00e3o Amaz\u00f4nica, insistindo erroneamente em afirmar que s\u00e3o imprescind\u00edveis.<\/p>\n<p>Neste contexto n\u00e3o se pode esquecer que vivemos em um sistema capitalista, onde o lucro \u00e9 o objetivo principal. E a\u00ed o vale tudo tem imperado. Desde o afrouxamento da legisla\u00e7\u00e3o ambiental para atender aos interesses econ\u00f4micos imediatos, a falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o sobre tais empreendimentos, e os contratos draconiamos de arrendamento da terra. Em nome da maximiza\u00e7\u00e3o do lucro, o meio ambiente e as pessoas acabam sendo prejudicadas, com o Estado se omitindo e muitas vezes incentivando pr\u00e1ticas n\u00e3o condizentes com os discursos de prote\u00e7\u00e3o ambiental e de sustentabilidade.<\/p>\n<p>Logo, os investimentos em fontes renov\u00e1veis est\u00e3o orientados pela l\u00f3gica capitalista, e s\u00e3o tratados como um neg\u00f3cio como outro qualquer, e muito rent\u00e1vel, onde o lucro e a justi\u00e7a s\u00e3o incompat\u00edveis. \u00c9 o que tem atra\u00eddo fundos de pens\u00e3o de outros pa\u00edses, empresas multinacionais e nacionais, grandes investidores particulares que encontraram no Brasil um fil\u00e3o para os \u201cneg\u00f3cios do vento e do sol\u201d, aliados a uma legisla\u00e7\u00e3o que muda conforme seus interesses.<\/p>\n<p>Como bem constatamos na hist\u00f3ria recente do pa\u00eds, o \u201ccapitalismo brasileiro\u201d n\u00e3o convive com a democracia, com a justi\u00e7a ambiental, com os direitos sociais. E \u00e9 nesta l\u00f3gica, em um pa\u00eds onde a informa\u00e7\u00e3o \u00e9 controlada e manipulada, que os interessses dos grupos empresariais, que se dedicam aos neg\u00f3cios da energia prosperam e com altas taxas de explora\u00e7\u00e3o. Com a inexist\u00eancia plena da liberdade de imprensa, discuss\u00e3o junto a sociedade sobre energia para que? Energia para quem? E como produzi-la? Acabam restritas a setores acad\u00eamicos e a poucos grupos sociais.<\/p>\n<p>Verifica-se que na quest\u00e3o energ\u00e9tica, em particular, na expans\u00e3o das fontes renov\u00e1veis de energia solar-e\u00f3lica, o Estado \u00e9 o maior gerador de conflitos socioambientais. Contradit\u00f3riamente, diante da fun\u00e7\u00e3o que seria de mediar os conflitos de classe, o Estado brasileiro tem lado, e favorece os grupos empresariais.<\/p>\n<p>Nesta discuss\u00e3o, a seguran\u00e7a energ\u00e9tica de um pais \u00e9 assegurada pela diversidade e complementariedade. Ambas n\u00e3o repousam somente no duo e\u00f3lico-solar, e sim em um mix de tecnologias dispon\u00edveis localmente e escolhidas dentro de crit\u00e9rios t\u00e9cnicos e socioambientais para satisfazer as necessidades dos diferentes setores da sociedade.<\/p>\n<p>Parabenizo a jornalista Lillian Primi pela provoca\u00e7\u00e3o. Lamento que na sua mat\u00e9ria somente alguns interesses foram representados e tiveram voz, em particular, t\u00e9cnicos cujas posi\u00e7\u00f5es s\u00e3o bem conhecidas em prol das megahidroel\u00e9tricas.<\/p>\n<p><em>* Heitor Scalambrini Costa \u00e9 professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco<\/em><\/p>\n<pre>O conte\u00fado dos artigos publicados no Portal Flores no Ar s\u00e3o de responsabilidade dos seus autores.<\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Heitor Scalambrini Costa* A mat\u00e9ria publicada na Revista Caros Amigos (no 232\/2016) intitulada \u201cSob o mito da energia limpa\u201d da jornalista Lillian Primi foi a motiva\u00e7\u00e3o dos coment\u00e1rios que fa\u00e7o a seguir. Falar em energia nos aproxima de temas correlatos como economia, meio ambiente, tecnologia, modelo de sociedade. 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