

{"id":266,"date":"2012-03-07T16:57:00","date_gmt":"2012-03-07T19:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.hospedagemdesites.ws\/floresnoar\/?p=266"},"modified":"2012-06-24T11:24:28","modified_gmt":"2012-06-24T14:24:28","slug":"recife-a-cidade-que-contratou-seu-futuro-com-o-inferno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/recife-a-cidade-que-contratou-seu-futuro-com-o-inferno\/","title":{"rendered":"Recife: A cidade que contratou seu futuro com o inferno"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: red;\">Por Pablo Holmes<\/span><\/em><br \/>\n(publicando originalmente no blog <a href=\"http:\/\/acertodecontas.blog.br\/\">Acerto de Contas<\/a>)<\/p>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">A id\u00e9ia de que o ser humano percebe desatinos e absurdos, estando apto a combat\u00ea-los e critic\u00e1-los \u00e9 extremamente improv\u00e1vel. De fato, ao olhar ao redor, percebemos que os maiores absurdos podem ser facilmente naturalizados. Se prestamos aten\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, ao cotidiano da nossa cidade e a forma como seu futuro vem sendo definido, fica a clara impress\u00e3o de que, em Recife, temos uma capacidade ainda maior de naturalizar a insensatez.<!--more--><\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\"><span style=\"background-color: white;\">Vivendo h\u00e1 alguns anos fora da cidade, sempre voltei em intervalos regulares. Nos \u00faltimos anos, passei a ter a triste sensa\u00e7\u00e3o de que os maiores absurdos foram feitos em sua vida cotidiana, sem que seus habitantes pudessem refletir sobre eles.<\/span><\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Estando na cidade nos \u00faltimos dias, tive a clara sensa\u00e7\u00e3o de que algumas dessas tend\u00eancias se tornaram irrevers\u00edveis. E, ainda assim, parece que muito poucos se d\u00e3o conta do que est\u00e1 acontecendo. De fato, a insensatez foi passivamente naturalizada.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Ao assistir ao filme acima, realizado por Gabriela Alc\u00e2ntara e Marcelo Pedroso, encontrei pistas que me pareceram explicar um pouco o modo como isso foi poss\u00edvel. Nele, somos defrontados com o depoimento franco e genu\u00edno de um dos agentes respons\u00e1veis pelas transforma\u00e7\u00f5es mais profundas por que passou nossa cidade nos \u00faltimos anos.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Sua argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9 direta e indiscutivelmente sincera. E, se ela pode surpreender alguns como produto do desprop\u00f3sito, tenho certeza de que, aos ouvidos de muitos outros, ela soar\u00e1 bastante natural.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Com efeito, o Sr. do v\u00eddeo generaliza conceitos e define, em um s\u00f3 golpe ret\u00f3rico, aquilo que, para ele, seria nada menos que a \u201cnatureza humana\u201d. Recorre ao que, segundo ele, seria uma tend\u00eancia \u201cquase gen\u00e9tica\u201d do \u201chomem\u201d, para justificar o que lhe parece o processo natural e irrevers\u00edvel de radical privatiza\u00e7\u00e3o e verticaliza\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o urbana que transformou a face do Recife nos \u00faltimos anos. Em suas palavras, essas transforma\u00e7\u00f5es ganham uma forma interessante, que pode nos explicar um pouco acerca do que aconteceu.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\"><strong style=\"border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; font-style: inherit; font-weight: bold; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px; margin: 0px;\">Transforma\u00e7\u00e3o urbana<\/strong><\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Como \u00e9 de conhecimento de qualquer cachorrinho de estima\u00e7\u00e3o que tenha passeado pelas quase inexistentes cal\u00e7adas do Recife na \u00faltima d\u00e9cada e meia, a cidade vivenciou, em muito pouco tempo, uma profunda transforma\u00e7\u00e3o. At\u00e9 mesmo seus bairros mais agrad\u00e1veis \u2013 e outrora um tanto elegantes \u2013 se transformaram no retrato mais fiel do caos urbano das megal\u00f3poles do terceiro mundo.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Bairros como Gra\u00e7as, Jaqueira, Parnamirim, Espinheiro, Casa Forte ou mesmo Boa Viagem esqueceram, definitivamente, a calma um tanto buc\u00f3lica que os marcava ainda em fins d\u00e9cada de 1980 e passaram a lembrar o caos urbano t\u00edpico de metr\u00f3poles como o Cairo ou a Cidade do M\u00e9xico.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">De fato, as \u00e1reas mais utilizadas pela popula\u00e7\u00e3o, em Recife, sempre foram as mais mal cuidadas. Jogados para os morros e encostas, onde foram obrigados a morar, os mais pobres passaram a ser, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, os \u00fanicos que ainda frequentam, ao menos durante o dia, o centro da cidade.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Entretanto, nos \u00faltimos anos, tamb\u00e9m as velhas e novas classes m\u00e9dias viram uma cont\u00ednua e radical transforma\u00e7\u00e3o dos seus bairros tradicionais. Mesmo em bairros como Madalena, Torre, Rosarinho, o com\u00e9rcio local foi gradativamente diminuindo de intensidade, tendo seus espa\u00e7os tomados por edif\u00edcios, estacionamentos e servi\u00e7os de baixo valor. Compras passaram a ser feitas quase que exclusivamente em hipermercados. Cal\u00e7adas foram definitivamente esquecidas, piorando ainda mais e dando um aspecto ins\u00f3lito a uma cidade em que cal\u00e7adas vazias convivem com ruas paralisadas por congestionamentos.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Ao final, os espa\u00e7os de conviv\u00eancia coletiva foram cada vez mais reduzidos aos shopping centers e aos sal\u00f5es de festa de edif\u00edcios, ocupados sem qualquer espontaneidade. A\u00ed, uma arquitetura assassina, de \u00e2ngulos retos e nenhuma criatividade, naturalizou uma est\u00e9tica funcional de extremo mal gosto, cujo melhor exemplo \u00e9 o ins\u00f3lito h\u00e1bito de revestir faixadas e paredes com certa cer\u00e2mica barata, deixando-as com a interessante apar\u00eancia dos revestimentos de banheiros de restaurantes de beira de estrada.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Por outro lado, seguindo o processo de ocupa\u00e7\u00e3o desordenada e verticalizada, os carros passaram a ser, de modo ainda mais radical, os senhores da cidade. Andar a p\u00e9 passou a ser visto n\u00e3o s\u00f3 como uma aventura, mas quase como uma vergonha social: talvez um atestado de que ao pedestre lhe faltam as condi\u00e7\u00f5es de adquirir um carro e se tornar uma pessoa digna de valor. E, assim, naturalizamos tamb\u00e9m a id\u00e9ia de que temos de conviver com ru\u00eddo insuport\u00e1vel e o calor exparzido por motores em todos os recantos da cidade.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Mas, se do ponto de vista legal \u00e9 poss\u00edvel regular o fluxo de autom\u00f3veis recorrendo a pol\u00edticas de rod\u00edzio, ped\u00e1gio ou mesmo altas nas taxas de licenciamento, o mesmo n\u00e3o pode ser feito com edif\u00edcios de 40 andares j\u00e1 constru\u00eddos.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Mesmo que, um dia, consigamos diminuir de modo substancial a mis\u00e9ria e tenhamos condi\u00e7\u00f5es de repensar a cidade, melhorando o transporte p\u00fablico, iremos enfrentar s\u00e9rios problemas para faz\u00ea-lo, devido \u00e0 forma inescrupulosa como a cidade foi ocupada e verticalizada nos \u00faltimos 20 anos.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Como poder\u00edamos, por exemplo, introduzir ciclovias, trens de superf\u00edcie ou transporte coletivo limpo e silencioso nos bairros da zona norte? Afinal, com suas ruas estreitas e ocupadas por edif\u00edcios de 30 ou 40 andares em ambos os lados, de onde viria o espa\u00e7o? Dever\u00edamos desapropriar toda uma margem da Rua do Futuro, Rosa e Silva ou Rui Barbosa, demolindo sua multid\u00e3o de pr\u00e9dios?<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\"><strong style=\"border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; font-style: inherit; font-weight: bold; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px; margin: 0px;\">Naturaliza\u00e7\u00f5es da insensatez e democracia<\/strong><\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">O que mais entristece \u00e9 o fato de que esse processo continua; e a passos largos. Mais do que isso, ele parece continuar naturalizado: visto como um destino irrevog\u00e1vel.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Recife n\u00e3o foi capaz de desnaturalizar a forma destruidora como seus contornos foram definidos e parasitados por uma ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o civil deixada absolutamente desregulada. Naturalizamos essas transforma\u00e7\u00f5es e parecemos acreditar se tratar de um processo irrevers\u00edvel. N\u00e3o fomos capazes de imaginar uma cidade diferente.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Nesse ponto, \u00e9 preciso dizer que a argumenta\u00e7\u00e3o do Sr. do v\u00eddeo de Gabriela e Marcelo n\u00e3o nos revela apenas como pensa a ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o civil. Na verdade, ela nos diz algo a respeito da cidade como um todo, da forma como pensamos e vivemos. Ao definir a \u201cnatureza humana\u201d segundo seus interesses comerciais, aquele Sr. apenas verbalizou um poder exercido \u2013 talvez at\u00e9 mesmo inconscientemente \u2013 por meio de uma naturaliza\u00e7\u00e3o de absurdos que n\u00e3o \u00e9 nova. Na verdade ela remonta a nosso passado mais imemorial.<br \/>\nRecife sempre foi, afinal, uma cidade dividida, privatizada. \u00c0 medida que os pr\u00e9dios subiram, murando seus jardins privados e deixando aos pedestres uma ex\u00edgua cal\u00e7ada, onde t\u00eam de disputar cada cent\u00edmetro com carros e motocicletas, reproduziu-se apenas esse passado, que antes dividia casa grande e senzala.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Por outro lado, essa forma de reproduzir o poder n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o nossa. Id\u00e9ias simples, tornadas naturais, s\u00e3o a raiz de todo totalitarismo. \u00c0 medida que se naturalizam, id\u00e9ias governam o mundo \u00e0 revelia dos governados: \u201cOs negros s\u00e3o inferiores\u201d; \u201cos homossexuais s\u00e3o doentes\u201d; \u201cos nordestinos s\u00e3o burros\u201d; \u201cos brasileiros s\u00e3o pregui\u00e7osos\u201d. Uma vez aceitas como naturais (e elas muitas vezes o s\u00e3o!), essas id\u00e9ias permanecem sempre as mesmas, intocadas, ainda que o tempo passe a seu redor. Assim elas s\u00e3o capazes de definir o futuro, sem que possam ser problematizadas no presente.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Contudo, enquanto algumas sociedades parecem mostrar certa tend\u00eancia para naturalizar absurdos, outras parecem conseguir observ\u00e1-los, percebendo sua conting\u00eancia.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Com efeito, o que caracteriza a democracia \u00e9 exatamente sua capacidade de tornar decis\u00f5es vis\u00edveis, desnaturalizando id\u00e9ias que pretendem descrever de modo totalit\u00e1rio a realidade. Dessa maneira, uma sociedade democr\u00e1tica \u00e9 capaz de ver decis\u00f5es como o resultado de uma observa\u00e7\u00e3o da realidade que entende que o futuro depende apenas das decis\u00f5es que tomamos no presente. Nela, ningu\u00e9m est\u00e1 autorizado a definir a \u201cnatureza humana\u201d ou a fixar verdades que s\u00e3o tornadas imposs\u00edveis de ser criticadas.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Decidir passa a implicar, assim, uma certa responsabilidade. Aquele que decide pode ser cobrado, seja por aqueles que ser\u00e3o atingidos por sua decis\u00e3o ou mesmo por sua pr\u00f3pria consci\u00eancia. Ele sabe que sua decis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o resultado de um des\u00edgnio natural ou sobrenatural. N\u00e3o pode dizer que seu ato de decidir \u00e9 guiado por um destino imponder\u00e1vel ou uma \u201cnatureza humana\u201d incontest\u00e1vel.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Numa democracia, aquele que decide tem de estar, assim, consciente de que cada decis\u00e3o ser\u00e1 constitutiva para um futuro que, em maior ou menor grau, tem consequ\u00eancias marcantes para toda a coletividade.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Ao observar o Recife, tenho a impress\u00e3o de que nossa ancestral falta de democracia se mant\u00e9m da pior forma poss\u00edvel. Gra\u00e7as a ela, continuamos a abrir m\u00e3o da capacidade de decidir sobre o futuro. E, desse modo, abdicamos tamb\u00e9m de todo discernimento sobre as consequ\u00eancias de decis\u00f5es que, tomadas agora, v\u00e3o definir nossas vidas pelos pr\u00f3ximos 30, 50 ou mesmo 100, 200 anos. \u00c9 como se essas decis\u00f5es n\u00e3o existissem. Como insinua o Sr. do filme, elas s\u00e3o parte de um processo natural e inexor\u00e1vel de desenvolvimento.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\"><strong style=\"border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; font-style: inherit; font-weight: bold; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px; margin: 0px;\">Um movimento pela cidade<\/strong><\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Hoje, a responsabilidade com a cidade confunde-se com a pr\u00f3pria possibilidade da democracia entre n\u00f3s. Longe de se ser um problema que pode ser resolvido exclusivamente por meio da combalida pol\u00edtica partid\u00e1ria, o inferno cotidiano da cidade diz respeito a um esfor\u00e7o coletivo mais abrangente.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">A verticaliza\u00e7\u00e3o desordenada e a privatiza\u00e7\u00e3o descontrolada que alimentam nosso caos urbano crescente est\u00e3o bastante avan\u00e7adas, mas ainda podem ser estacionadas.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Nesse sentido, apenas um amplo movimento, que deve ser pol\u00edtico, mas n\u00e3o deve ser partid\u00e1rio, pode transcender os limites impostos ao d\u00e9bil poder p\u00fablico por aqueles que se apropriam da cidade de modo totalit\u00e1rio. Tampouco o Estado pode enfrentar sozinho a naturaliza\u00e7\u00e3o que pouco a pouco foi aceita como irrevers\u00edvel.<\/div>\n<div style=\"background-color: white; border-color: initial; border-image: initial; border-style: initial; color: #333333; font-family: Georgia, 'Bitstream Charter', serif; font-size: 14px; line-height: 23px; margin-bottom: 15px; outline-color: initial; outline-style: initial; outline-width: 0px; text-align: left; vertical-align: baseline; border-width: 0px; padding: 0px;\">Esse amplo movimento deve ter como objetivo esclarecer a sociedade de que o futuro da cidade \u00e9 depende de decis\u00f5es que t\u00eam de levar em conta sua permanente constitui\u00e7\u00e3o como uma coletividade interdependente. Desse modo, tal movimento poder\u00e1 impedir que dois ou tr\u00eas grupos empresariais contratem, \u00e0 nossa revelia, o futuro do Recife com o inferno, utilizando-se para isso das mais ins\u00f3litas defini\u00e7\u00f5es do que seja a \u201cnatureza humana\u201d.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Pablo Holmes (publicando originalmente no blog Acerto de Contas) A id\u00e9ia de que o ser humano percebe desatinos e absurdos, estando apto a combat\u00ea-los e critic\u00e1-los \u00e9 extremamente improv\u00e1vel. De fato, ao olhar ao redor, percebemos que os maiores absurdos podem ser facilmente naturalizados. 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