

{"id":15836,"date":"2020-09-01T10:07:19","date_gmt":"2020-09-01T13:07:19","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=15836"},"modified":"2020-09-06T16:29:40","modified_gmt":"2020-09-06T19:29:40","slug":"obinrin-o-simbolismo-feminino-dentro-dos-sistemas-psiquico-e-religioso-povo-yoruba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/obinrin-o-simbolismo-feminino-dentro-dos-sistemas-psiquico-e-religioso-povo-yoruba\/","title":{"rendered":"Obinrin: o simbolismo do feminino dentro dos sistemas ps\u00edquico e religioso do povo Yorub\u00e1"},"content":{"rendered":"<pre>Por Felipe Alves da Silva*<\/pre>\n<p><em>(Artigo publicado no Flores no Ar em mar\u00e7o de 2015)<\/em><\/p>\n<p>A imagem do feminino, bem como a ambival\u00eancia de seu poder ao mesmo tempo criador e destruidor, apaziguador e col\u00e9rico, s\u00e3o vistos desde a cria\u00e7\u00e3o do mundo \u2013 que nos prim\u00f3rdios era uma massa uniforme e gen\u00e9rica \u2013 por ordem de Ol\u00f3run\/Ol\u00f3d\u00f9mar\u00e8 (O Senhor do c\u00e9u), at\u00e9 o controle e\/ou participa\u00e7\u00e3o no culto \u00e0s divindades nos dias atuais. De acordo com Santos (2008), \u00d2<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>al\u00e1 &#8211; o grande genitor &#8211; princ\u00edpio do masculino, dividiu com Od\u00f9 &#8211; princ\u00edpio do feminino, a constru\u00e7\u00e3o do \u00e0iy\u00e9 (o mundo). Essa deu contorno e firmeza ao mundo f\u00edsico, \u00e0 terra; aquele modelou e deu a forma a todos os seres viventes, para que Ol\u00f3run lhes desse o sopro da vida. Assim, enquanto \u00d2<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>al\u00e1 est\u00e1 associado ao ar, e \u00e0 chuva (\u00e1gua-s\u00eamen, que cai do c\u00e9u e fecunda), Od\u00f9 est\u00e1 ligada \u00e0 terra (o mist\u00e9rio, o segredo oculto) e \u00e0 \u00e1gua contida nas entranhas da terra, sangue branco, o l\u00edquido que garante a vida no ventre sagrado. Terminada a empreitada da cria\u00e7\u00e3o do orbe terrestre, Od\u00f9 recebe de Ol\u00f3run um igb\u00e1 (caba\u00e7a), chamada Igbadu (a caba\u00e7a de Od\u00f9), contendo um p\u00e1ssaro (ey<span style=\"text-decoration: underline;\">e<\/span>), s\u00edmbolo do poder. A caba\u00e7a, dividida latitudinalmente, apresenta duas partes, e representa o pr\u00f3prio universo \u2013 a liga\u00e7\u00e3o entre o c\u00e9u e a terra, a parte de cima, branca, e a de baixo, preta \u2013 e simboliza tamb\u00e9m o \u00fatero. Essa ideia, assemelha-se a do ovo \u00f3rfico, como s\u00edmbolo arquet\u00edpico da cria\u00e7\u00e3o, e orientou v\u00e1rias concep\u00e7\u00f5es de cria\u00e7\u00e3o do mundo (NEUMANN, 1996). Assim, Od\u00f9 torna-se \u00ccy\u00e0mi Eley<span style=\"text-decoration: underline;\">e<\/span> \u2013 A minha M\u00e3e, dona do p\u00e1ssaro. Moura (2003, p. 16) faz alus\u00e3o a esse fato quando diz: \u201cRecebe tamb\u00e9m uma caba\u00e7a, imagem do mundo e reposit\u00f3rio de seu poderio\u201d. Tendo, por\u00e9m Od\u00f9, abusado desse poder, Ol\u00f3d\u00f9mar\u00e8 retira-lhe a caba\u00e7a e entrega a \u00d2<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>al\u00e1, seu par oposto masculino.<\/p>\n<p>Analisando o mito da cria\u00e7\u00e3o e a dualidade de seus elementos, podemos fundamentar as explana\u00e7\u00f5es que ser\u00e3o feitas a posteriori no decorrer do trabalho. O estado ps\u00edquico inicial e a situa\u00e7\u00e3o primordial nos quais o ego n\u00e3o est\u00e1 diferenciado do Self, s\u00e3o representados pelo Urob\u00f3ros, uma\u00a0<a title=\"Serpente\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Serpente\">serpente<\/a>, ou um\u00a0<a title=\"Drag\u00e3o\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Drag%C3%A3o\">drag\u00e3o<\/a>, que morde a pr\u00f3pria cauda \u2013 s\u00edmbolo da eternidade. O nome vem do grego antigo: oura, \u201ccauda\u201d e boros, \u201cdevora\u201d (aquele que devora a pr\u00f3pria cauda). Ele representa o princ\u00edpio, e como s\u00edmbolo da origem carrega o potencial para fazer a transi\u00e7\u00e3o entre a indiferencia\u00e7\u00e3o, o gen\u00e9rico \u2013 no mito da g\u00eanesis do mundo, aludido atrav\u00e9s da figura de Ol\u00f3run \u2013 e o individual, os opostos \u2013 positivo e negativo, masculino e feminino, luz e escurid\u00e3o \u2013 o par da cria\u00e7\u00e3o, \u00d2<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>al\u00e1\/Od\u00f9, os arqu\u00e9tipos do Grande Masculino e do Grande Feminino, que far\u00e3o a transi\u00e7\u00e3o para os arqu\u00e9tipos do Grande Pai e da Grande M\u00e3e (NEUMANN, 1996).<\/p>\n<p>Od\u00f9 \u00e9 tamb\u00e9m referida como a representa\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica e coletiva da ancestralidade feminina, sendo reverenciada como \u00ccy\u00e0mi (minha m\u00e3e) ou \u00ccy\u00e1 \u00c0gb\u00e0 (a m\u00e3e idosa e respeit\u00e1vel); o que nos remete ao conceito junguiano do arqu\u00e9tipo materno. \u00ccy\u00e0mi, portanto, reporta-se as genitoras de toda a ra\u00e7a humana, nossas m\u00e3es ancestrais. Atrav\u00e9s dos mitos recolhidos poderemos perceber as v\u00e1rias faces da divindade feminina, individualizadas atrav\u00e9s de Yemoj\u00e1, no caso deste trabalho. As imagens simb\u00f3licas de um arqu\u00e9tipo n\u00e3o s\u00e3o o pr\u00f3prio arqu\u00e9tipo, pois como dito anteriormente, ele \u00e9 inintelig\u00edvel e invis\u00edvel, portanto, s\u00e3o as imagens simb\u00f3licas que d\u00e3o visibilidade ao arqu\u00e9tipo. Estas imagens s\u00e3o a fonte criativa do ser humano.\u00a0\u201cO s\u00edmbolo indica, sugere e estimula\u201d\u00a0(Neumann,1996 p. 29).<\/p>\n<p>Santos (2008) faz refer\u00eancia \u00e0 subjetividade dos conte\u00fados da esfera psicol\u00f3gica dos mitos e dos ritos:<\/p>\n<pre style=\"text-align: right;\">A interpreta\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo, uma vez descoberto seu nexo ontog\u00eanico, seu ou seus referentes, permite-nos tornar expl\u00edcita a realidade fatual. J\u00e1 dissemos que n\u00e3o entendemos o s\u00edmbolo com um significado constante; sua interpreta\u00e7\u00e3o est\u00e1 sempre em rela\u00e7\u00e3o a um contexto. Sua mensagem est\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o de outros elementos.<\/pre>\n<p>Temos aqui o enfoque antropol\u00f3gico, mas encontramos refer\u00eancia na mesma esfera etnol\u00f3gica do uso dos s\u00edmbolos, quando vemos em Jung (2011, p. 18): \u201cO que chamamos de s\u00edmbolo \u00e9 um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida cotidiana, embora possua conota\u00e7\u00f5es especiais al\u00e9m do significado evidente e convencional\u201d. Logo, algo pode ser considerado simb\u00f3lico, quando implica alguma coisa al\u00e9m do significado manifesto imediatamente. O que n\u00e3o \u00e9 diferente com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 figura da mulher.<\/p>\n<p>Obinrin \u2013 a mulher \u2013 na cultura yorub\u00e1 pode assumir v\u00e1rios pap\u00e9is; uma m\u00e3e, uma esposa, uma filha, uma sacerdotisa, ou mesmo uma bruxa. O caminho trilhado, ent\u00e3o, depende da percep\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o por ela ocupada. E, essas diferentes percep\u00e7\u00f5es se refletem atrav\u00e9s das mais variadas manifesta\u00e7\u00f5es como arte, can\u00e7\u00f5es, linguagem, m\u00fasica, religi\u00e3o entre outros.<\/p>\n<p>Mas o maior valor \u00e9 dado \u00e0 mulher, quando ela \u00e9 m\u00e3e, porque o povo Yorub\u00e1 reverencia a maternidade. Um prov\u00e9rbio muito popular entre os Yorub\u00e1 nos diz da preciosidade desse est\u00e1gio:<\/p>\n<p><i>\u00a0 \u00ccy\u00e1 ni wura \u00a0&#8211; \u00a0<\/i>A m\u00e3e \u00e9 ouro,<\/p>\n<p><i>\u00a0Bab\u00e1 ni dingi<\/i>\u00a0 &#8211; \u00a0O pai \u00e9 espelho.<\/p>\n<p>A forma como a m\u00e3e \u00e9 reverenciada na cultura faz a maioria das mulheres olhar para frente, tendo a maternidade como meta:<\/p>\n<p><i>Ori<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>\u00e1 bi \u00ecy\u00e1 ko si<\/i>\u00a0 &#8211; \u00a0N\u00e3o h\u00e1 Ori<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>\u00e1 sem a m\u00e3e<\/p>\n<p><i>\u00ccy\u00e1 la ba ma a bo<\/i>\u00a0&#8211; \u00c9 a m\u00e3e que \u00e9 digna de ser adorada<\/p>\n<p>Apesar dos elogios derramados sobre a m\u00e3e, a esposa (\u00ecy\u00e0w\u00f3) n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o reverenciada. Na maior parte da cultura Yorub\u00e1, a esposa, \u00e9 referida como escrava (eru), sendo a ambi\u00e7\u00e3o de quase toda garota casar-se, porque \u00e9 atrav\u00e9s do casamento que ela pode se tornar uma m\u00e3e poderosa e orgulhosa de seu status. As mulheres ignoram, portanto, a escravid\u00e3o ligada ao fato de serem esposas, porque sabem que, a autoridade que lhes falta nessa fase elas possuir\u00e3o como m\u00e3es. N\u00e3o obstante as mulheres yorubanas gozarem de bastantes privil\u00e9gios, como liberdade e autonomia em rela\u00e7\u00e3o aos homens, a sociedade n\u00e3o \u00e9 matrilinear, mas sim patrilinear. Segundo Verger (1985), esta relativa liberdade est\u00e1 associada \u00e0 poligamia masculina. Isso n\u00e3o significa supremacia feminina, mas a dilui\u00e7\u00e3o do poder masculino entre as v\u00e1rias mulheres. A mulher, sob a imagem da m\u00e3e (a que gera, transforma, que det\u00e9m o segredo), \u00e9 quem cuida das finan\u00e7as, negocia no mercado (cora\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais do povo yorub\u00e1), acumula dinheiro, e cuida da casa.<\/p>\n<p>Yemoj\u00e1 ocupa todos esses lugares de acordo com muitos itan (lendas). O grande Ori<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>\u00e1, a esposa de Obatal\u00e1 (outro nome dado a \u00d2<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>al\u00e1), a filha de Ol\u00f3kun, a m\u00e3e dos Ori<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>\u00e1, a sereia, a f\u00faria das \u00e1guas, o feminino multifacetado. Um desses itan fala da for\u00e7a destruidora de Yemoj\u00e1 e da cumplicidade com seus filhos.<\/p>\n<p>Yemoj\u00e1, sendo esposa do rei e m\u00e3e de <span style=\"text-decoration: underline;\">S<\/span>ang\u00f2, v\u00ea seu filho dileto ser apontado por membros da corte do pai, que por invejarem a beleza e eloqu\u00eancia do jovem, acusam-no de inten\u00e7\u00e3o de matar o pr\u00f3prio pai para apoderar-se do trono. Mas a inj\u00faria \u00e9 rebatida no mesmo instante por Yemoj\u00e1, que em repres\u00e1lia, invadiu as terras da cidade com suas \u00e1guas, fazendo com que todos que injusti\u00e7aram seu filho fossem destru\u00eddos pela inunda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aqui nos deparamos com as consequ\u00eancias das atitudes de uma m\u00e3e em defesa de seu filho, a imagem da m\u00e3e boa. Mas essa m\u00e3e n\u00e3o s\u00f3 ama e protege sua cria, como tamb\u00e9m destr\u00f3i os seus ofensores, e sendo o desejo de aniquila\u00e7\u00e3o, um dos conte\u00fados do arqu\u00e9tipo da sombra, esse pensamento \u00e9 comumente, recha\u00e7ado e criticado pela nossa sociedade ocidental moderna. Segundo outro itan, Yemoj\u00e1, a \u00faltima l\u00edder <i>Geled\u00e9<\/i> \u2013 sociedade feminina \u2013 foi tra\u00edda por <i>E<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>\u00fa, Ori<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>\u00e1<\/i> dos caminhos, e violentada por <i>\u00d2<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>al\u00e1<\/i> que a deixou desfalecida na relva, e, segundo Manzini (2001, p. 41) ao acordar: \u201csentiu tamanho asco, que, transformando-se num rio, retornou, por seu leito, ao reino de seu pai <i>Ol\u00f3kun<\/i>, o oceano. Este rio existe at\u00e9 hoje em terras yorub\u00e1, chama-se <i>Od\u00f2 \u00d2g\u00f9n<\/i> [&#8230;] e desta maneira abandonou a forma humana\u201d. Ela \u00e9 <i>\u00ccy\u00e1 mi Aj\u00e9<\/i>, minha M\u00e3e Feiticeira, e tem o poder de transformar-se em peixe.<\/p>\n<p><i>Yemoj\u00e1<\/i> ou &#8220;<i>y\u00e9y\u00e9 omo ej\u00e1<\/i>&#8221; (m\u00e3e dos filhos peixes) simboliza a maternidade e \u00e9 reverenciada como:<\/p>\n<p><i>\u00ccy\u00e1 oloyan oruba &#8211; \u00a0\u00a0<\/i>A m\u00e3e com o seio \u00famido,<\/p>\n<p><i>Onirun abe osiki \u00a0&#8211;\u00a0<\/i>com muito cabelo em sua parte privada<\/p>\n<p><i>A b\u2019obo fun ni l\u2019orun bi egbe i<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>u \u00a0&#8211; \u00a0<\/i>A dona vagina que sufoca como inhame seco \u00a0na garganta.<\/p>\n<p>A louva\u00e7\u00e3o faz alus\u00e3o, \u00e0s duas partes mais importantes do processo de tornar-se m\u00e3e \u2013 os seios e a vagina. O seio farto \u00e9 assumido como o sumo continente, por conter um fluxo inesgot\u00e1vel de leite para seus filhos. Segundo Lawal (1996, p. 73 apud MAKINDE, 2004, p. 166) \u201cYemoj\u00e1 \u00e9 tamb\u00e9m referida como &#8220;a m\u00e3e generosa e perigosa&#8221;, a sufocante vagina que pode ser fonte de poder e de vida, mas tamb\u00e9m de morte\u201d. Assim, a Grande M\u00e3e pode tanto dar amor como suprimi-lo para demonstrar seu poder, sendo uma designa\u00e7\u00e3o da imagem\u00a0geral, formada pela experi\u00eancia cultural coletiva. Como uma imagem, ela revela uma plenitude arquet\u00edpica, mas tamb\u00e9m uma polaridade positivo-negativa. Um beb\u00ea tende a organizar suas experi\u00eancias de vulnerabilidade precoce e depend\u00eancia de sua m\u00e3e em torno de polos positivo e negativo. O p\u00f3lo positivo re\u00fane qualidades tais como solicitude e simpatia maternais, a autoridade m\u00e1gica da mulher, a sabedoria e exalta\u00e7\u00e3o espiritual que transcendem a raz\u00e3o, qualquer instinto ou impulso \u00fatil, tudo aquilo que \u00e9 benigno, tudo que acaricia e sust\u00e9m, que propicia o crescimento e a fertilidade. Em suma, a m\u00e3e bondosa. O p\u00f3lo negativo sugere a m\u00e3e m\u00e1 \u2013 tudo que \u00e9 secreto, oculto, obscuro, o abismo, o mundo dos mortos, tudo que devora, seduz e envenena, o que \u00e9 aterrador e inevit\u00e1vel como o destino (SAMUELS, 1986).<\/p>\n<p>Observamos a partir dessa exulta\u00e7\u00e3o, as duas faces do car\u00e1ter elementar do Feminino. O car\u00e1ter elementar \u00e9 a tend\u00eancia de conservar em si o que gerou, num eterno pertencer, mantendo-o assim, pr\u00f3ximo. Quando o ego e a consci\u00eancia ainda est\u00e3o indiscriminados do inconsciente, esse \u00e9 bastante dominante, \u00e9 a base dos aspectos conservados, est\u00e1veis e imut\u00e1veis do Feminino que \u00e9 a caracter\u00edstica primordial do Maternal. Esse car\u00e1ter elementar pode se manifestar de modo positivo \u2013 provedor de prote\u00e7\u00e3o, calor, alimento \u2013 referenciado atrav\u00e9s do seio, como fonte inesgot\u00e1vel na louva\u00e7\u00e3o; ou ainda aparecer do modo negativo \u2013 rep\u00fadio, priva\u00e7\u00e3o, morte \u2013 a vagina sufocante. Podemos aqui discorrer ainda, sobre a atua\u00e7\u00e3o do p\u00f3lo negativo do car\u00e1ter elementar Feminino sobre a consci\u00eancia individualizada, a partir do itan que fala da \u00e9gide de Yemoj\u00e1 sobre todas as cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>Ol\u00f3d\u00f9mar\u00e8, ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o do mundo, repartiu entre os Ori<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>\u00e1 v\u00e1rios poderes, dando a cada um deles um reino para cuidar. Para Yemoj\u00e1, Ol\u00f3d\u00f9mar\u00e8 destinou os cuidados da casa de \u00d2<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>al\u00e1, assim como a cria\u00e7\u00e3o dos filhos e de todos os afazeres dom\u00e9sticos. Yemoj\u00e1 trabalhava e reclamava de sua condi\u00e7\u00e3o de menos favorecida, afinal, todos os outros deuses recebiam oferendas e homenagens e ela, vivia como escrava. E durante muito tempo Yemoj\u00e1 reclamou dessa condi\u00e7\u00e3o e tanto falou nos ouvidos de \u00d2<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>al\u00e1, que ele enlouqueceu. O ori (cabe\u00e7a) de \u00d2<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>al\u00e1 n\u00e3o suportou as reclama\u00e7\u00f5es de Yemoj\u00e1. Ficou \u00d2<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>al\u00e1 enfermo, e s\u00f3 ent\u00e3o,Yemoj\u00e1 deu-se conta do mal que fizera ao marido e come\u00e7ou a cuid\u00e1-lo com oferendas propiciat\u00f3rias, carne de igbin (caramujo) \u2013 prato favorito de \u00d2<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>al\u00e1 \u2013 omi er\u00f3 (\u00e1gua que acalma), frutas frescas e doces. Desse modo, em pouco tempo, \u00d2<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>al\u00e1 estava curado. Agradecido, esse foi a Ol\u00f3d\u00f9mar\u00e8 pedir para que delegasse \u00e0 Yemoj\u00e1 o poder de cuidar de todas as cabe\u00e7as. Desde ent\u00e3o Yemoj\u00e1 recebe oferendas e \u00e9 homenageada no Candombl\u00e9 quando se faz o bori (ritual propiciat\u00f3rio \u00e0 cabe\u00e7a).<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise psicol\u00f3gica mais profunda do p\u00f3lo negativo do Materno, revela ent\u00e3o, que se trata da irrup\u00e7\u00e3o de um arqu\u00e9tipo, como o da M\u00e3e Devoradora Terr\u00edvel \u2013 aqui an\u00e1logo a figura de Yemoj\u00e1, com seus lamentos e queixas incessantes \u2013 cuja atra\u00e7\u00e3o ps\u00edquica \u00e9 t\u00e3o grande, em virtude de sua carga energ\u00e9tica, que a carga do complexo do ego \u2013 \u00d2<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>al\u00e1 \u2013 incapaz de lhe fazer frente, sucumbe e \u00e9 \u201ctragada\u201d, e o Ori<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>\u00e1 do Branco, enlouquece (NEUMANN, 1996).<\/p>\n<p>Outro mito de g\u00eanesis, fala sobre como surgiram os outros Ori<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>\u00e1, outras consci\u00eancias, a partir de do ventre de Yemoj\u00e1. Esse itan, de dom\u00ednio p\u00fablico, \u00e9 passado oralmente entre o povo de terreiro, e nos diz da fun\u00e7\u00e3o do corpo feminino.<\/p>\n<p>Do casamento de Obatal\u00e1 com Od\u00f9, nasceram Aganju e Yemoj\u00e1. Ela desposa o seu irm\u00e3o, e tem um filho, Orung\u00e3. Esse se apaixona pela m\u00e3e, que desespera, procura sempre fugir de seus \u00edmpetos arrebatados. Mas Orung\u00e3 aproveita-se, certo dia, da aus\u00eancia de Aganju, o pai, e decide-se por violentar Yemoj\u00e1. Essa foge e p\u00f5e-se a correr, perseguida por seu filho. Ia esse quase alcan\u00e7\u00e1-la quando Yemoj\u00e1 cai no ch\u00e3o e, imediatamente, seu corpo come\u00e7a a dilatar-se. Dos enormes seios brotaram duas correntes de \u00e1gua que se reuniram mais adiante at\u00e9 formar um grande lago. E do ventre desmesurado, que se rompeu, nasceram os deuses que povoaram a terra.<\/p>\n<p>Segundo Neumann (1996, p. 47) \u201cO interior do corpo \u00e9 arquetipicamente id\u00eantico ao inconsciente, ao \u201clocal\u201d dos fen\u00f4menos ps\u00edquicos que, para o ser humano, ocorrem \u201cdentro\u201d dele e \u201cnas trevas\u201d, as quais como a noite, s\u00e3o um s\u00edmbolo t\u00edpico do inconsciente\u201d. Podemos ver aqui uma equa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica MULHER=CORPO=VASO=MUNDO que corresponde \u00e0 experi\u00eancia b\u00e1sica mais elementar da humanidade com rela\u00e7\u00e3o ao Feminino, em que al\u00e9m de ser vivenciado por si pr\u00f3prio, tamb\u00e9m ser\u00e1 vivenciado pelo Masculino. Yemoj\u00e1 no itan representa o vaso, o inconsciente e cont\u00e9m em si \u2013 nas inst\u00e2ncias primordiais e de forma gen\u00e9rica \u2013 o ego-consci\u00eancia, que a partir do caos, do rompimento com o sublime\/superior, libera os deuses, consci\u00eancias diferenciadas do todo, dos enlaces do Materno. Para que o ego se diferencie, ele precisa ser expulso, para ent\u00e3o estruturar-se e se preparar para o retorno \u2013 individua\u00e7\u00e3o \u2013 ou ser\u00e1, como j\u00e1 dito, engolido pelo inconsciente coletivo, perdendo-se de si, em si mesmo.<\/p>\n<p>De forma geral nas mitologias, em ambos os sexos, o ego-consci\u00eancia ativo \u00e9 caracterizado por um s\u00edmbolo masculino e a totalidade do inconsciente, por um simbolismo feminino. Esse princ\u00edpio \u00e9 de import\u00e2ncia fundamental para a compreens\u00e3o dos mitos e da simbologia e, al\u00e9m disso, para a compreens\u00e3o da imagem de mundo para o homem primitivo, logo para os ritos de culto aos Ori<span style=\"text-decoration: underline;\">s<\/span>\u00e1. Uma vez que a identidade da personalidade feminina, com o corpo-vaso, pertence aos alicerces da exist\u00eancia da mulher, o Feminino n\u00e3o \u00e9 apenas o vaso que cont\u00e9m algo dentro de si. \u00c9, ainda, tanto para si como para o Masculino, o recipiente onde se forma a vida, continente de todas as coisas vivas, as quais depois, diante de um processo tido como saud\u00e1vel, s\u00e3o descarregadas no mundo.<\/p>\n<p>Neumann descreve ainda um segundo car\u00e1ter do Feminino, o car\u00e1ter de transforma\u00e7\u00e3o \u2013 que \u00e9 contr\u00e1rio ao car\u00e1ter elementar \u2013 posto que enfatiza o elemento din\u00e2mico da psique, colocando em movimento algo j\u00e1 existente, levando a uma modifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 est\u00edmulo. Para ele (1996, p. 38) \u201c Estes dois tipos de car\u00e1ter, n\u00e3o se excluem desde o in\u00edcio, ao contr\u00e1rio, eles se integram e interligam, sob m\u00faltiplas formas [&#8230;]no entanto[&#8230;] observa-se quase sempre a domin\u00e2ncia de um deles\u201d. A manifesta\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter de transforma\u00e7\u00e3o diverge no homem e na mulher, pois a mulher o vivencia a n\u00edvel do seu pr\u00f3prio corpo, em si e fora de si. Encontramos no corpo feminino os tr\u00eas mist\u00e9rios ligados ao sangue \u2013 a menstrua\u00e7\u00e3o (transforma\u00e7\u00e3o do sangue vivo em morte), a gravidez (transforma\u00e7\u00e3o do sangue em vida) e a amamenta\u00e7\u00e3o (transforma\u00e7\u00e3o do sangue em leite). Esses conduzem \u00e0 experi\u00eancia pessoal de sua pr\u00f3pria fecundidade e surtem no homem a impress\u00e3o de numinosidade, al\u00e9m de tornarem-na objeto de respeito, temor, adora\u00e7\u00e3o e culto. O homem vivencia esse lado do Feminino direta ou indiretamente, como uma for\u00e7a que o coloca em movimento e que o impele a uma transforma\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a Anima \u2013 ve\u00edculo transformador por excel\u00eancia. De acordo com Neumann (1996, p. 41) \u201cEla \u00e9 a movimentadora e o impulso \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o, cuja fascina\u00e7\u00e3o impele, seduz e estimula o masculino a todo tipo de aventuras da alma e do esp\u00edrito, da a\u00e7\u00e3o e da cria\u00e7\u00e3o no mundo interior e exterior.\u201d A \u201cimagem da alma\u201d que o homem descobre no Feminino, \u00e9 a pr\u00f3pria feminilidade interior desse homem, sua espiritualidade, uma inst\u00e2ncia da sua pr\u00f3pria psique. Nesse ponto ela se delineia \u2013 como anteriormente afirmado \u2013 em parte pela experi\u00eancia arquet\u00edpica, e em parte pela viv\u00eancia pessoal que o homem tem do Feminino.<\/p>\n<p>A partir dos aspectos contemplados no presente trabalho, podemos perceber que o arqu\u00e9tipo exerce um grande fasc\u00ednio sobre o ego-consci\u00eancia e o atrai e, em alguns aspectos, o possui. A possess\u00e3o positiva \u00e9 menos relevante, visto que a consci\u00eancia se mant\u00e9m. No caso da possess\u00e3o atrav\u00e9s do p\u00f3lo negativo do arqu\u00e9tipo, a consci\u00eancia \u00e9 aniquilada e da\u00ed tem-se a loucura. Mas atrav\u00e9s da loucura, dor, afli\u00e7\u00e3o, solid\u00e3o, \u00e9 que se pode renascer para a inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\n<p>BENISTE, Jos\u00e9. Mitos Yorub\u00e1s: o outro lado do conhecimento. 4\u1d43ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.<br \/>\nDUPUIS, Jacques. Em nome do pai. 2\u1d43ed. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1989<br \/>\nJUNG. C. G. (org) O homem e seus s\u00edmbolos. 2\u1d43ed especial. Tradu\u00e7\u00e3o de Maria L\u00facia Pinho. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2008.<br \/>\nLAWAL, Babatunde. The Interpretation of Cultures. The Political Integration of Women: Roles,Socialization, and Politics,1996.<br \/>\nMANZINI, Yaskara. Iyami Osoronga (Minha M e Feiticeira) O coletivo feminino na cosmogonia do Universo. Monografia apresentada ao Curso de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o (Lato Sensu) de artes da FPA-Faculdade Paulista. S\u00e3o Paulo, 2001.<br \/>\nMOURA, Carlos Eug\u00eanio Marcondes de (org). Culto aos Orix\u00e1s, Voduns e ancestrais nas religi\u00f5es afro-brasileiras. 1\u1d43ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2006.<br \/>\n______. (2003). As senhoras do p\u00e1ssaro da noite: Escritos sobre a Religi\u00e3o dos Orix\u00e1s. 2\u1d43 tiragem da 1\u1d43ed. S\u00e3o Paulo: Axis Mundi.<br \/>\n______.(1982). Bandeira de Alair\u00e1: outros escritos sobre a religi\u00e3o dos oix\u00e1s. 1\u1d43ed. S\u00e3o Paulo: Nobel.<br \/>\n______. (1998). Leopardo dos olhos de fogo: escritos sobre a religi\u00e3o dos orix\u00e1s \u2013IV. 1\u1d43ed. S\u00e3o Paulo: Ateli\u00ea Editorial.<br \/>\n______. (2002). Pierre Verger \u2013 sa\u00edda de ia\u00f4: cinco ensaios sobre a religi\u00e3o dos orix\u00e1s. 1\u1d43ed. S\u00e3o Paulo: Axis Mundi.<br \/>\nNASCIMENTO, Elisa Larkin. &#8220;As civiliza\u00e7\u00f5es africanas no mundo antigo&#8221;, na Revista Thoth n\u00ba 03, set.\/dez. 1997.<br \/>\nNEUMANN, Erich. A grande m\u00e3e: um estudo fenomenol\u00f3gico da constitui\u00e7\u00e3o feminina do inconsciente. 3\u1d43ed. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1996.<br \/>\nSAMUELS, Andrew (org). A Critical Dictionary of Jungian Analysis. 1\u1d43ed. London: Routledge &amp; Kegan Paul Ltd, 1986.<br \/>\nSANTOS, Juana Elbein dos. Os nag\u00f4 e a morte: P\u00e0de, as\u00e8s\u00e8 e o culto a \u00c9gun na Bahia. 13\u1d43ed. Petr\u00f3polis: vozes, 2008.<br \/>\nSILVEIRA, Nise da. Jung vida e obra. 7\u1d43ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.<\/p>\n<pre>* Felipe Alves da Silva \u00e9 psic\u00f3logo cl\u00ednico e psicoterapeuta breve de orienta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, tem experi\u00eancia em sa\u00fade mental, trabalho com avalia\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e psicodiagn\u00f3stico infantil, terapeuta de constela\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas pelo Instituto Constelar (em forma\u00e7\u00e3o), especialista em Neuroaprendizagem (em forma\u00e7\u00e3o), estudioso e palestrante na \u00e1rea de Religi\u00f5es de Matriz Africana.<\/pre>\n<p><em>obs: Este texto integra o trabalho<strong> Yemoj\u00e1, A Grande M\u00e3e dos Filhos Peixes &#8211; Uma breve leitura sobre aspectos do feminino no Candombl\u00e9,<\/strong> realizado como trabalho de conclus\u00e3o do curso de Psicologia na FAFIRE em 2012 e apresentado no XXI Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Junguiana do Brasil, em 2013.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Felipe Alves da Silva* (Artigo publicado no Flores no Ar em mar\u00e7o de 2015) A imagem do feminino, bem como a ambival\u00eancia de seu poder ao mesmo tempo criador e destruidor, apaziguador e col\u00e9rico, s\u00e3o vistos desde a cria\u00e7\u00e3o do mundo \u2013 que nos prim\u00f3rdios era uma massa uniforme e gen\u00e9rica \u2013 por ordem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":38401,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[174,173],"acf":[],"publishpress_future_action":{"enabled":false,"date":"1969-12-31 21:00:00","action":"","terms":[],"taxonomy":"","browser_timezone_offset":0},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15836"}],"collection":[{"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15836"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15836\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/media\/38401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15836"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15836"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15836"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}