

{"id":15494,"date":"2021-01-21T06:04:08","date_gmt":"2021-01-21T09:04:08","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=15494"},"modified":"2021-01-21T13:31:26","modified_gmt":"2021-01-21T16:31:26","slug":"uma-ideia-toda-azul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/uma-ideia-toda-azul\/","title":{"rendered":"Uma ideia toda azul"},"content":{"rendered":"<p>| <em>Por Marina Colasanti<\/em> |<\/p>\n<p>Um dia o rei teve uma ideia. Era a primeira da vida toda e, t\u00e3o maravilhado ficou com aquela ideia azul, que n\u00e3o quis saber de contar aos ministros. Desceu com ela para o jardim, correu com ela nos gramados, brincou com ela de esconder entre outros pensamentos, encontrando-a sempre com alegria, linda ideia dele toda azul.<\/p>\n<p>Brincaram at\u00e9 o rei adormecer encostado numa \u00e1rvore.<\/p>\n<p>Foi acordar tateando a coroa e procurando a ideia, para perceber o perigo. Sozinha no seu sono, solta e t\u00e3o bonita, a ideia poderia ter chamado a aten\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m. Bastaria esse algu\u00e9m peg\u00e1-la e lev\u00e1-la. \u00c9 t\u00e3o f\u00e1cil roubar uma ideia! Quem jamais saberia que j\u00e1 tinha dono?<\/p>\n<p>Com a ideia escondida debaixo do manto, o rei voltou para o castelo. Esperou a noite. Quando todos os olhos se fecharam, ele saiu dos seus aposentos, atravessou sal\u00f5es, desceu escadas, subiu degraus, at\u00e9 chegar ao corredor das salas do tempo. Portas fechadas e o sil\u00eancio. Que sala escolher?<\/p>\n<p>Diante de cada porta o rei parava, pensava e seguia adiante. At\u00e9 chegar \u00e0 sala do sono. Abriu. Na sala acolchoada, os p\u00e9s do rei afundavam at\u00e9 o tornozelo, o olhar se embara\u00e7ava em gases, cortinas e v\u00e9us pendurados como teias. Sala de quase escuro, sempre igual. O rei deitou a ideia adormecida na cama de marfim, baixou o cortinado, saiu e trancou a porta.<\/p>\n<p>A chave prendeu no pesco\u00e7o em grossa corrente. E nunca mais mexeu nela.<\/p>\n<p>O tempo correu seus anos. Ideias o rei n\u00e3o teve mais, nem sentiu falta, t\u00e3o ocupado estava em governar. Envelhecia sem perceber, diante dos educados espelhos reais que mentiam a verdade. Apenas sentia-se mais triste e mais s\u00f3, sem que nunca mais tivesse tido vontade de brincar nos jardins.<\/p>\n<p>S\u00f3 os ministros viam a velhice do rei. Quando a cabe\u00e7a ficou toda branca, disseram-lhe que j\u00e1 podia descansar, e o libertaram do manto.<\/p>\n<p>Posta a coroa sobre a almofada, o rei logo levou a m\u00e3o \u00e0 corrente.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m mais se ocupa de mim \u2013 dizia, atravessando sal\u00f5es, descendo escadas a caminho da sala do tempo. Ningu\u00e9m mais me olha \u2013 dizia. Agora, posso buscar minha linda ideia e guard\u00e1-la s\u00f3 para mim.<\/p>\n<p>Abriu a porta, levantou o cortinado.<\/p>\n<p>Na cama de marfim, a ideia dormia azul como naquele dia.<\/p>\n<p>Como naquele dia, jovem, t\u00e3o jovem, uma ideia menina. E linda. Mas o rei n\u00e3o era mais o rei daquele dia. Entre ele e a ideia estava todo o tempo passado l\u00e1 fora, o tempo todo parado na sala do sono. Seus olhos n\u00e3o viam na ideia a mesma gra\u00e7a. Brincar n\u00e3o queria, nem rir. Que fazer com ela? Nunca mais saberiam estar juntos como naquele dia.<br \/>\nSentado na beira da cama o rei chorou suas duas \u00faltimas l\u00e1grimas, as que tinha guardado para a maior tristeza.<br \/>\nDepois, baixou o cortinado e, deixando a ideia adormecida, fechou para sempre a porta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Por Marina Colasanti | Um dia o rei teve uma ideia. 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