

{"id":14247,"date":"2014-03-08T15:31:27","date_gmt":"2014-03-08T18:31:27","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=14247"},"modified":"2014-03-08T15:31:27","modified_gmt":"2014-03-08T18:31:27","slug":"feminista-sem-saber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/feminista-sem-saber\/","title":{"rendered":"&#8216;Feminista sem saber&#8217;"},"content":{"rendered":"<pre>Por Mariana Bahia\r\n<a href=\"http:\/\/elafalademaiss.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">http:\/\/elafalademaiss.blogspot.com.br\/<\/a><\/pre>\n<p>Eu acho que nasci feminista. Desde que aprendi a falar sou feminista. Quando crian\u00e7a, nunca entendia o porqu\u00ea de menina ter que usar rosa e menino azul, o porqu\u00ea de menina ter que fazer bal\u00e9 e menino jogar futebol. Na minha cabe\u00e7a, n\u00e3o havia sentido nisso.<\/p>\n<p>Me lembro como se fosse hoje o dia em que meus pais me vestiram toda de rosa e me levaram pro bal\u00e9. Eles estavam bem animados, eu n\u00e3o. Eu devia ter uns 5 anos. Achei aquilo tudo um t\u00e9dio, s\u00f3 fiz uma aula, me danei a chorar e nunca mais voltei l\u00e1. O que eu gostava mesmo era de futebol.<\/p>\n<p>Quando entrei na adolesc\u00eancia comecei a fazer nata\u00e7\u00e3o, depois basquete, futebol, surf e, por fim, jiu-jitsu. Alguma coisa no universo masculino sempre me fascinava. Talvez fosse a praticidade, n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>O que importa \u00e9 que meu pai sempre foi um grande incentivador disso tudo. E por muitos anos me vesti que nem um menino. Talvez muitos pais tivessem pensado que a filha seria l\u00e9sbica (o que pro meu pai n\u00e3o seria problema algum), mas ele sempre respeitou os meus gostos e desejos. Sou muito grata por ter recebido essa liberdade.<\/p>\n<p>Mas pra algumas pessoas da minha fam\u00edlia, os homens s\u00e3o seres superiores. S\u00f3 eles podem ser livres sexualmente. Mulheres s\u00f3 devem ter independ\u00eancia financeira, mas a sexual ou a emocional, jamais. Isso tamb\u00e9m nunca fez sentido pra mim.<\/p>\n<p>Muito nova eu j\u00e1 era muito livre. Namorava com quem queria, falava muito palavr\u00e3o, me autoafirmava sempre. N\u00e3o via porque tinha que ser diferente. Por que um homem pode arrotar alto e eu n\u00e3o? Por que um homem pode falar palavr\u00e3o e eu n\u00e3o? Por que um homem pode ser fan\u00e1tico por futebol e eu n\u00e3o? \u201cPorque a sociedade \u00e9 machista, Mariana\u201d. T\u00e1, tudo bem. Mas como diria um amigo meu: e qual \u00e9 a proposta? Fica tudo assim mesmo? As mulheres ser\u00e3o oprimidas nas menores e\/ou maiores situa\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Se tem v\u00e1rios parceiros \u00e9 puta. Se gosta de sexo \u00e9 puta. Se fala de sexo \u00e9 puta. Se n\u00e3o quer mais estar casada \u00e9 puta. Por que? Eu morro de curiosidade pra saber quem criou isso. Me lembro de um dia em que estava tremendamente irritada com um machista e meu pai me disse: \u201cMinha filha, o que o seu irm\u00e3o pode fazer voc\u00ea tamb\u00e9m pode. Exatamente a mesma coisa. Lembre-se sempre disso\u201d. E aquilo, realmente, me marcou profundamente.<\/p>\n<p>De acordo com os padr\u00f5es recifenses, eu demorei pra casar. Trinta anos? &#8220;Nossa, vai ficar pra titia, hein&#8221;? A quest\u00e3o \u00e9 que eu me recusava a viver uma rela\u00e7\u00e3o que fosse baseada nesse padr\u00e3o machista que estamos t\u00e3oooo acostumados. Me recusava a me casar s\u00f3 pra ter marido. Como pode a mulher trabalhar tanto quanto o homem, e ainda fazer todos os servi\u00e7os dom\u00e9sticos sozinha? \u201cAh, mas s\u00f3 a mulher tem jeito pra isso\u201d. \u00c9 mesmo? Ent\u00e3o ela n\u00e3o deveria ter jeito pra trabalhar fora de casa, n\u00e9?<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9 que homens machistas s\u00e3o criados por mulheres machistas. N\u00e3o educamos esses rapazes para nos ajudar, somos as primeiras a reprimir os seus choros, afinal, homem que \u00e9 homem n\u00e3o chora, estimulamos que eles n\u00e3o voltem apanhados do col\u00e9gio, n\u00e3o ensinamos a eles que o di\u00e1logo \u00e9 imprescind\u00edvel pra qualquer tipo de rela\u00e7\u00e3o, dizemos o tempo todo que o homem \u00e9 mais forte do que a mulher: \u201cmulher \u00e9 um ser delicado, meu filho, somos um sexo fr\u00e1gil\u201d. Uhrun, vai vendo&#8230; No dia que um homem fizer depila\u00e7\u00e3o (o cantinho, principalmente) ou tiver um parto via vaginal a gente conversa.<\/p>\n<p>Mulher machista me deprime. Me deprime porque ela deveria ser a primeira a saber que a opress\u00e3o vai te matando aos pouquinhos, te faz sentir menor, burra e incapaz. Entendo que o machismo \u00e9 uma quest\u00e3o cultural, mas, apesar de n\u00e3o parecer, estamos em 2014. Nada justifica que ainda existam mulheres machistas.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o todos os dias por ter nascido com essa \u201cl\u00e2mpada acesa\u201d do feminismo dentro de mim. Ainda bem que quase fiquei pra titia, e hoje posso dizer com toda certeza: n\u00e3o poderia ser mais feliz por ter me casado com um homem feminista.<\/p>\n<p>Para muitos, casamento \u00e9 perder a pr\u00f3pria liberdade. Pra mim, foi a liberta\u00e7\u00e3o total. Deixei de ser a &#8220;Mariana que assusta os homens&#8221; e passei a ser a &#8220;Mariana mulher forte do caralho&#8221;, como diria meu marido. O que era defeito virou qualidade.<\/p>\n<p>Ps: Espero que esse conceito deturpado de que o feminismo segue a mesma linha de racioc\u00ednio do machismo j\u00e1 tenha sido superado. Feminismo luta pela igualdade de g\u00eaneros, o machismo &#8220;luta&#8221; pela opress\u00e3o da mulher.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mariana Bahia http:\/\/elafalademaiss.blogspot.com.br\/ Eu acho que nasci feminista. Desde que aprendi a falar sou feminista. Quando crian\u00e7a, nunca entendia o porqu\u00ea de menina ter que usar rosa e menino azul, o porqu\u00ea de menina ter que fazer bal\u00e9 e menino jogar futebol. Na minha cabe\u00e7a, n\u00e3o havia sentido nisso. 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