

{"id":14147,"date":"2024-02-09T06:00:01","date_gmt":"2024-02-09T09:00:01","guid":{"rendered":"http:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/?p=14147"},"modified":"2024-02-09T11:26:17","modified_gmt":"2024-02-09T14:26:17","slug":"nao-me-leve-a-mal-hoje-e-carnaval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portalfloresnoar.com\/floresnoar\/nao-me-leve-a-mal-hoje-e-carnaval\/","title":{"rendered":"&#8216;N\u00e3o me leve a mal. Hoje \u00e9 Carnaval&#8230;&#8217;, por Izabel Telles"},"content":{"rendered":"<p>| <em>Por Izabel Telles<\/em> |<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif; font-size: 13px; line-height: 19px;\">\u00c9ramos bem jovens e dan\u00e7\u00e1vamos o Carnaval no sal\u00e3o de festas da nossa cidade do interior. No palco, uma animada orquestra tocava as m\u00fasicas que falavam de risos, alegrias, palha\u00e7os, colombinas e pierr\u00f4s apaixonados.<\/span><\/p>\n<p>O lan\u00e7a-perfume era liberado para os foli\u00f5es e ainda tenho gravada a cena dos rapazes cheirando len\u00e7os empapados pelo anest\u00e9sico.<\/p>\n<p>Os pais ficavam sentados nas mesas esticando o pesco\u00e7o para controlar as filhas. Os meninos &#8220;n\u00e3o precisavam de controle&#8221; e rodopiavam ao redor das garotas mais bonitas deixando as mais feias por conta do destino. Deve ser por isso que inventaram os bailes de m\u00e1scaras para que as meninas mais feias n\u00e3o ficassem a ver navios, como era o meu caso.<\/p>\n<p>Era um tempo inocente. Um tempo de romance, frio na barriga, telefones fixos que tocavam na hora do jantar e todas sa\u00edam correndo da mesa para atender rezando para que do outro lado da linha estivesse o seresteiro da noite anterior. \u00c9, havia serenatas onde homens apaixonados tocavam viol\u00e3o para suas pretendentes debaixo da janela\u2026<\/p>\n<p>As mulheres eram preparadas para o casamento. Sabiam cozinhar comidinhas deliciosas para antes ou depois do amor (como dizia Vinicius de Moraes). E, mesmo depois de fazer faculdade, de sair para o mercado de trabalho e serem bem sucedidas nesta tarefa, continuavam sabendo cozinhar, nem que fosse s\u00f3 no final de semana.<\/p>\n<p>Depois vinham os filhos, as promo\u00e7\u00f5es nos empregos, a mudan\u00e7a de casa, de cidade, de pa\u00eds at\u00e9. E as mulheres continuavam sabendo cozinhar.<\/p>\n<p>Era raro a gente ouvir dizer que uma mulher tinha feito pl\u00e1stica. Entravam no hospital para emerg\u00eancias m\u00e9dicas ou para ter filhos. Tomar anestesia era um recurso extremo.<\/p>\n<p>A gente sabia que o que cativava mesmo o sexo oposto era aquela beleza natural, um pouco de barriguinha, cabelos soltos sem chapinhas, formol, apliques, alongamentos artificiais. E, acima de tudo, era bom ter sempre por perto uma refei\u00e7\u00e3o deliciosa, preparada com amor e afeto. Havia um ditado que dizia &#8220;homens, a gente agarra pelo est\u00f4mago!&#8221;<\/p>\n<p>A mulher modelo da brasileira era a Sonia Braga nos seus 18 anos: morena, bem feita de corpo, natural, cheirando \u00e0 \u00e1gua do mar, emanando p\u00e9talas de rosas pelo sorriso branco de flor de laranjeira!\u00a0A morena eternizada, por Jorge Amado: cravo e canela, Gabriela!<\/p>\n<p>Antes de come\u00e7ar a imitar a mulher americana, a mulher brasileira tinha cara e corpo pr\u00f3prios. Seios n\u00e3o se compravam na farm\u00e1cia e bumbum era feito de m\u00fasculos e n\u00e3o de pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>A alegria vinha do fundo da alma, heran\u00e7a dos \u00edndios, dos negros, da mam\u00e3e \u00c1frica. \u00c9ramos felizes todos os dias do ano! A gente n\u00e3o comprava a felicidade em cartelas e com prazo de validade.<\/p>\n<p>\u00caxtase era um sentimento que a gente nutria por nove meses e explodia quando o m\u00e9dico acolhia um novo filho chegando a este mundo!<\/p>\n<p>Claro que havia a droga circulando por todo o planeta. O que n\u00e3o havia era a abertura que hoje h\u00e1 para se falar dela. Talvez por isso este assunto estivesse t\u00e3o distante de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Os tabus eram tantos que, recordo-me com precis\u00e3o, quando algu\u00e9m tinha c\u00e2ncer na fam\u00edlia esta palavra n\u00e3o era pronunciada. A pessoa estava com CA.<\/p>\n<p>Acredite se quiser, mas os procedimentos terap\u00eauticos de um psiquiatra eram t\u00e3o pouco conhecidos que havia um olhar de susto e medo quando algu\u00e9m deixava escapar o segredo: um adolescente do bairro estava frequentando um psiquiatra&#8230; mas em outra cidade!<\/p>\n<p>\u00c9, a gente caminhou muito, muito mesmo!<\/p>\n<p>Mas, l\u00e1 no fundo, no fundo, sinto certa saudade dos tempos inocentes. Havia um mist\u00e9rio por vir, um desafio a ser compreendido, uma profunda esperan\u00e7a no futuro que adentrava um pouco a cada dia.<\/p>\n<p>No sil\u00eancio da formalidade, na calada da noite, no intervalo entre um acorde e outro, pulsava uma curiosidade que nos impulsionava para o conhecimento.\u00a0Ele vinha impresso em livros, era passado atrav\u00e9s de apostilas, tradu\u00e7\u00f5es, horas de conversas e aten\u00e7\u00e3o nas salas de aula. Que eram limpas, tinham cortinas brancas, carteiras envernizadas, professores excepcionais, capazes de motivar toda a turma, h\u00e1beis na magia de revelar o novo. Para os quais a gente levava todas as manh\u00e3s uma ma\u00e7\u00e3 vermelha. E dos quais receb\u00edamos, ao longo de um largo tempo, um canudo azul.<\/p>\n<p>Parece que me lembro que, nesta ocasi\u00e3o, a gente usava uma fantasia. Acho que era uma beca e uma toga. A gente ia em bloco desfilar com este canudo depois de receb\u00ea-lo. S\u00f3 n\u00e3o consigo me lembrar quem confeccionava estas fantasias\u2026<\/p>\n<p>Mas sou antiga e minha mem\u00f3ria n\u00e3o anda boa.<\/p>\n<p>Por favor, n\u00e3o me leve a mal. Hoje \u00e9 carnaval.<\/p>\n<pre>Izabel Telles dedica-se h\u00e1 mais de 15 anos ao estudo, pesquisa e comunica\u00e7\u00e3o ( atrav\u00e9s de seus livros, aulas, confer\u00eancias e workhops) da mente humana.\u00a0\u00a0\u00c9 formada no The American Institute for Mental Imagery.<\/pre>\n<p><a href=\"http:\/\/izabeltelles.wordpress.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/izabeltelles.wordpress.com\/<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>| Por Izabel Telles | \u00c9ramos bem jovens e dan\u00e7\u00e1vamos o Carnaval no sal\u00e3o de festas da nossa cidade do interior. No palco, uma animada orquestra tocava as m\u00fasicas que falavam de risos, alegrias, palha\u00e7os, colombinas e pierr\u00f4s apaixonados. 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