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[CAIXA DE PANDORA] Amor e Narcisismo

Por Juliana Florencio* |

É comum a crença de que semelhante atrai semelhante, inclusive quando nos referimos a relacionamentos que fazem sofrer… Surge a pertinente pergunta: “Qual a sua responsabilidade nisso?” E esta reflexão é realmente importante.

Podemos olhar para um mesmo fenômeno por diferentes ângulos. Em um deles podemos considerar que o problema não mora nesses encontros em si e sim em uma cristalização… um não movimento… uma asfixia.

Há casos que uma transformação na relação resultaria em um aprofundamento desta mesma. E, às vezes, um dos que compõe o par não pode dar este passo, enquanto o movimento do outro é ir além. E não estou falando de graus de compromissos formais, mas sim das transformações que a intimidade provoca e convoca os amantes para uma jornada… Mysterium Coniunctionis… a alquimia.

Quero, neste texto, tratar sobre narcisismo e amor. Tomemos o exemplo de alguém que se envolve com uma pessoa narcisista (às vezes, repetidamente).

Não estou falando especificamente do transtorno de personalidade narcisista, e sim de pessoas que tenham esse traço proeminente.

Consideremos que o componente narcisista seja um dos elementos atrativos nessa liga.

Podemos olhar pelo viés do semelhante que atrai semelhante. Dessa forma, o apaixonamento se daria pelo espelhamento. Rasamente falando, seria uma retro-alimentação positiva de narcisismo.

Mas, por outro ângulo, poderíamos supor que a pessoa se apaixone pelo que precisa: auto-amor.

Esta situação pode gerar inúmeras reações (alquimicamente falando), muitas de manutenção do narcisismo de um dos envolvidos – ou dos dois, ou a contínua carência de um dos pares a partir do pressuposto de que um tem e o outro não – mais retro-alimentação narcisista.

Mas, uma transformação pode acontecer.

Quando falamos em narcisismo, pensamos logo num modo de ser egoísta e auto-centrado. Um modo de funcionamento no qual Eros movimenta-se majoritariamente em torno do próprio indivíduo.

Freud nos traz o conceito de narcisismo como um estágio de desenvolvimento humano, que ocorre na primeira infância para que o sujeito surja como um “EU SOU”, para limitar a diferença entre ele e o outro (mais especificamente a mãe), para que ele possa surgir como um ser único para a vida.

Neste caso, é um amor fundamental, que ocorre depois da vivência da simbiose maternal. É a fase que define o AMOR PRÓPRIO.

Para que a criança se reconheça como um ser individual e único é preciso que ela volte sua energia para si, a fim de se ver, se imaginar, se tocar, testar os limites com externo, enfim ter o direito de existir.

A música de Akua Naru “This mo(u)rning” canta “Self love is the very first romance”.

Podemos imaginar que muitas pessoas não puderam viver essa fase de maneira que esta cumprisse sua missão evolutiva. No mito de Narciso, sua própria mãe, com medo do cumprimento de uma profecia, impede que o filho veja sua imagem refletida em um espelho. Dessa forma, Narciso não pôde ser visto por ele mesmo, foi impedido de (re)conhecer a si.

O apaixonamento por uma pessoa narcisista poderia ser uma tentativa de suprir esta falta. O vislumbrar do que se acredita não ter, projetado no que o outro que supostamente teria de sobra: amor-próprio.

Liz Greene, em seu “Tarot Mitológico” faz uma leitura belíssima da carta O Pajem de Copas:

“Narciso, o Pajem de Copas, inicialmente parece ser simplesmente a imagem de um fútil autoamor. Mas também pode ser visto como uma imagem de autodescoberta, pois para amar outra pessoa é preciso antes o reconhecimento e o amor de si mesmo; do contrário, é um exercício triste e muitas vezes infrutífero procurar em outra pessoa o que o indivíduo ainda não encontrou em si. Esses relacionamentos são destinados ao fracasso, e o egoísmo aparente de Narciso, na realidade, é o início da descoberta do nosso próprio merecimento de sermos amados. Frequentemente, esse é o início da genuína capacidade de amar outra pessoa individualmente, em vez de um potencial fornecedor de qualidades que precisamos para nos sentir completos.”

Essa união com uma pessoa “narcisista”, a princípio com prognóstico de fracasso, pode conter o germe do auto-amor.

A relação pode não ir adiante, mas a reação alquímica pode acontecer no sentido de mobilizar Eros para si mesmo como etapa necessária para a tentativa de uma vida mais plena, ainda que tardiamente.

É claro que isso pode não acontecer e a relação continuar no sentido da manutenção do narcisismo de uma das partes, ou a parte que sente esta falta continuar a procura NO outro e não DO outro.

“Assim como Narciso, o Pajem de Copas é uma figura ambígua. De um lado, como imagem de um sutil início nascente do sentimento da vida, ele sugere o nascimento de algo novo – a capacidade de amar ou a renovação da fé no amor que anteriormente poderia ter sido prejudicada ou traumatizada por um relacionamento infeliz. De outro lado, o sentido de autoamor que Narciso incorpora é o início da cura, por mais fútil e infantil que ele pareça.”

Dessa forma, podemos considerar a introjeção de Eros como etapa do processo de transformação da psique. Como cultivo do que temos por primeiro, o direito de existir como um ser. Plantar-se, regar-se e cuidar-se… admirar-se… poder se amar.

Por sua vez, o narcisismo como forma de vida seria uma cristalização nesta etapa, uma espécie de “emperramento” no processo.

É necessário passar por esta fase, digamos que de introversão amorosa, se não no tempo apropriado – na infância – em outro(s) momento(s) da vida para transcender e poder amar o outro.

* Juliana Florencio é recifense de coração, apaixonada pelos estudos de astrologia, mitologia e 
psicologia analítica. É psicóloga, arteterapeuta e consteladora familiar sistêmica. 
Quinzenalmente, lança um novo post em sua coluna CAIXA DE PANDORA, no Portal Flores no Ar. 

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