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‘Um outro olhar sobre Deborah Colker’, por Bella Maia

Antes de começar, queria dizer que é só um ponto de vista, e que não sou a dona da verdade. São minhas impressões, minha forma de ver e entender, e é nessa pegada que escrevo este texto. Qualquer coisa você passa o mouse pra baixo e ignora aqui esta moça que vos fala. Mas se você acha que, apesar de louca, eu digo algumas coisinhas legais, aí você lê o texto e tira suas próprias conclusões, concordando ou não. Estou me colocando aqui, neste assunto especifico, por ter recebido muitas mensagens perguntando o que achei e acho do espetáculo e da cia de Deborah Colker.  Aí como eu, pra dizer alguma coisa, não preciso que me perguntem, foi que me empolguei em escrever, atendendo aos pedidos.

Introdução à parte, vamos ao que interessa!

Antes de me formar e de pensar em fazer dança, fui ver Deborah Colker com uma amiga minha (acho que isso faz mais ou menos 9 ou 10 anos, por aí). Fazia direito e nem pensava em trazer a dança para o âmbito profissional em minha vida. Nem lembro exatamente qual o espetáculo que vi naquela época, mas eu AMEI o que vi. Achei incrível; execução e produção excelentes, e com um sentimento que nunca poderia dançar na minha vida, me comparando com aquelas execuções belíssimas e tecnicamente perfeitas. De uma certa forma, o que via, se afastava de mim. Se alguém me perguntasse o que eu tinha achado, só sabia dizer que era maravilhoso e lindo. (mas não conseguia aprofundar na discussão porque não havia mais nada a dizer que não fosse isso). O que falar do trabalho de Deborah Colker? Uma bailarina/coreógrafa e diretora super talentosa com patrocínio total da Petrobras. Alguém já disse que ela tinha valor e eu não encontrava espaço na minha mente para discordar, – naquela época. Aliás, nem me passou pela cabeça imaginar que, talvez, eu pudesse não gostar daquilo que estava vendo porque o mundo já tinha dito que ela era boa e tudo que ela faz é bom. Então quem sou eu para discordar? Já fui sabendo que ia gostar. Aquele gostar que não se explica e nem se justifica porque é obvio e não se questiona.

As coisas mudaram. 10 anos se foram…

Continuo não me achando nada (apesar de algumas pessoas julgarem o contrário). No sentindo de que minha opinião é só uma opinião! E que posso mudar de opinião porque não tenho nenhum apego aos meus pensamentos.

Atualmente sou formada em licenciatura em dança na UniverCidade, no Rio de janeiro (com pós graduação e especialização na área de arte contemporânea), e com uma pequena e ínfima carreira neste meio. Aqui, ouso falar de Deborah, e de como vejo essa cia de dança que forma o olhar dos muitos brasileiros (do que se trata a dança contemporânea), que pagam caro e se deslocam de suas casas para vislumbrar aquela obra sem ao menos questioná-la.

Me parece que quando as pessoas e o que elas fazem já estão estabelecidas no mercado, que já são consideradas importantes e que entraram numa área de referência são, de maneira curiosa, inquestionáveis; digo isso em relação às pessoas, no geral. É como se aquela obra estivesse num patamar tão alto que o fato de você gostar ou não, nem importa, e aí como todo mundo gosta, é importante que não se fique de fora dessa “convenção”!

(…) enfim! Não dá pra controlar como as pessoas recebem esses produtos (substituo, a partir daqui, a palavra “obra” por “produto” que tem, em sua formula, uma porcentagem grande de acertos para ser consumida pela maioria). É uma questão de mercado mesmo e eu não vou me aprofundar nesse ponto. Pelo menos por hora.

Ontem fui ver Tatyana, o novo espetáculo da cia Deborah Colker.

Poderia começar falando da minha opinião pessoal, como: achei enfadonho, cansativo, confuso e muito, muito plástico (como se houvesse uma preocupação exacerbada da diretora em ser bonito no sentido estético do belo)! Execução perfeita, bailarinos lindíssimos em seus corpos esculturais, e uma super mega ultra power produção! As projeções de última geração (foi a única coisa que gostei de ver!), alguns truques interessantes de luz que deixa o espetáculo muito bonito no sentido plástico (novamente a plasticidade, no segundo ato). Figurino e trilha muito fracos (pra não dizer feios e ruins), sem uma preocupação singela em fazer que esses elementos contracenassem com o resto; o cenário vazio de sentido. Os objetos que entraram em cena carregados de fortes significados (como a pena, bengala) não deram força ao discurso que, até agora, não chegou em mim. Resultado: entrei seca e saí vazia. Nada mudou, nada acrescentou. Pra falar a verdade, não via a hora de terminar. O que ela quis dizer? O que aquelas pessoas que se movimentam com tamanha perfeição quiseram dizer ao “dançar”? Pernas na orelha? Braços fortes e torneados? Giros e pulos altíssimos? Saltos malabarísticos? Em circo tem dessas coisas, e o melhor: a proposta do circo é ESTA! O circo e suas cias, geralmente, apresentam seus espetáculos, dentro de suas propostas. E isso é massa! Porque você vai sabendo o que encontrará! E aí entra a opção de ir ou não, porque se gosta ou não! Agora eu vou pra assistir a cia de Deborah Colker e vejo qualquer coisa menos dança contemporânea! E isso me irrita! Muito!

O que eu quero dizer com tudo isso? O que você entende/ ou entendeu, não somente de maneira racional e convencional de entendimento (cronologia, enredo), mas com os sentidos e sentimentos que nos inundam e nos tomam as palavras? O quê que eles quiseram dizer com tudo aquilo?

Cenário, figurino, trilha ou qualquer outra coisa que se queira usar para dançar tem que ser algo que dê força ao discurso que já existe no próprio movimento – somente ele.

Para se dançar, a única coisa que se exige é o corpo. o corpo no tempo e no espaço. Ponto! Mais nada!!!!!!

Tirando aquela super mega power produção, o que aqueles movimentos quiseram dizer?

O nosso corpo tem sua própria dramaturgia! Nosso própria musica, plasticidade! E ele diz, fala o tempo todo! Enfeitá-lo com acessórios estrambólicos e fazer com que ele execute movimentos mecânicos e repetitivos, cheios de perfeitas execuções e vazios de discurso, não é dança! (ousei demais, eu sei, mas eu preciso dizer!) Principalmente a contemporânea que insiste em falar que o mais importante deste universo é o PENSAMENTO do corpo! Qual o espaço que aquela cia dá ao corpo de pensar? Nenhum! Não diz! Ali o corpo se mostra, é uma vitrine! Ou seja, contemple-o, de longe, se possível!

Para você ver um espetáculo de dança contemporânea é necessário que quem esteja sentando ali, ative seu pensamento numa relação vívida e profunda com a obra de tal maneira que você se transforme em sujeito ativo àquilo que se vê. Não dá, somente, para contemplar, vislumbrar, aplaudir e ir pra casa sem saber o que dizer, não porque lhe faltam as palavras, mas sim porque não há o que falar, ou o que se tem pra falar não gera discussão. Tanto faz!

A dança contemporânea lhe exige! Exige de você! Lhe desafia a questionar suas definições e conceitos pré-estabelecidos, porque se você os coloca em jogo, o processo estético não acontece! O fio é cortado e nada gera dentro de si.

Repetição de movimentos mecânicos e vazios de significados, sentidos e sentimentos é GINÁSTICA!

O que me faz não gostar de Deborah Colker e suas produções é o fato dela divulgar seu trabalho como sendo de “dança contemporânea”.

Eu não gosto de definições, rótulos e gavetas. Mas às vezes é preciso e, principalmente, quando se trata do terreno em que você habita para um maior entendimento do objeto que se estuda é sim importante definir! Dança contemporânea é a minha vida, logo não posso deixar de me posicionar sobre isso, 10 anos depois, e depois de ter passado por algumas experiências que me fazem entender como é importante disseminar informações coerentes sobre esse universo. Colocando-me aqui num lugar de humildade e repassando aquilo que aprendi e que, hoje, de tanto apalpar, me sinto um pouco sujeito ativo dessas informações e pensamentos.

Sim, claro que tudo isto não deixa de ser minha opinião pessoal (afinal, trabalho e vida se misturam e dança é vida, pra mim), mas o que aprendi, que meus mestres me ensinaram, meus livros que me acompanham me dizem, minhas experiências, minha forma de ver de dentro e imersa nesse âmbito da dança contemporânea me fala que, desesperadamente, entro em conflito ao ver que pessoas saem de lá com a certeza de terem visto um espetáculo de dança contemporânea.

Ontem eu fui. Fui sim porque tenho que ir. Fui, com a alma aberta, mente aberta, na esperança de que algo me falasse!

E falou:
– É preciso dançar mais!
Enfeitar menos! O velho: “menos é mais”!
O corpo quer falar, mas é amordaçado sistematicamente e continuamente pelo cotidiano e os dias que se passam.

Vou ao teatro, espero ver corpos falantes! E o que vejo, ou melhor, escuto é o silêncio! E pior, o silêncio que não diz.

Já vi muitos corpos parados que gritam.
Nesse momento meu corpo grita.
É preciso dar espaço ao corpo.

Vamos ver como as coisas continuam.
não se pode desistir!

É isso.

 Bella Maia
(bellamaia@gmail.com)

2 Comments

  • Natália Oliveira on

    Meu Deus, como foi bom ler essas palavras! Estava me sentindo uma pessoa sem cultura! Você conseguiu colocar em palavras tudo que senti quando saí do espetáculo”

  • Eu penso completamente contrario de você.
    não gostei de alguns trabalhos da deborah, mas Tatyana aos meu olhos é rico em poesia, e por ser baseada numa obra literaria já descarta um monte de baboseiras pseudos culturas. como não dar valor ao cenário, aos efeitos, como não valorizar a técnicas dos bailarinos. Tatyana para mim é luz onde atualmente, tirando poucas coisas que vi em dança contemporânea, a maioria é treva, e nada contra treva. mas entre o feio e o belo. entre o bruto e técnica. eu pessoalmente valorizo o trabalho. Sim, Tatyana é dança!
    O belo, o estético também é arte.
    Acho que poderias ter dito apenas que não gostou, mas seus argumentos contra Tatyana, é um argumento contra a dança.
    Em Tatyana, Deborah utiliza muitos recursos do Ballet Clássico, mas numa linguagem contemporanea, mas qual o pecado nisto? não gostas? acho que isto é a grande dificuldade em se achar bons críticos de arte.
    O que seu texto me passou é que se tu não entende, não é dança.
    posso ter entendido errado.

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