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Um caminho na arte de contar histórias, por Ivana Luckesi

(Texto reproduzido da revista Diversos Afins)

Eu não nasci numa família de artistas, mas sim, numa família comum, de classe média, que trilhou um caminho como de muitas outras, de opções tradicionais, com poucas possibilidades criativas e momentos lúdicos. Na pré-adolescência, porém, dei-me conta de que sempre carreguei a arte comigo, que latejava e aguardava o momento certo de se revelar. Comecei a fazer aulas de teclado e a cantar. Depois, já na adolescência, deixei o teclado e continuei cantando, inclusive na escola, participando de festivais, acompanhada de minha irmã, tocando seu violão.

Quando ingressei na faculdade de Direito, deixei-me contaminar pela atmosfera tradicional e, para dar conta dos estudos, fui abandonando a música. Àquela época, não me sentia capaz de conciliar interesses tão diferentes.
Depois que me formei e passei a trabalhar, voltei a sentir falta da arte. O mundo jurídico era sério e estanque demais pra mim. Precisava me libertar, extravasar meus sentimentos, explorar outras possibilidades e, principalmente, encontrar a minha criatividade. Sim, porque acredito que todos nós somos criativos, mas é preciso encontrar caminhos para desenvolver essa criatividade. Então, retomei as aulas de canto e comecei as de violão.

Mais tarde, chegou a hora de parar novamente. Casei-me, iniciei minha trajetória materna e renunciei à música para tentar conciliar trabalho e maternidade. De outro lado, a partir daí passei a viver intensamente o universo da infância, lendo muito sobre o assunto, cantando, brincando, contando histórias para meus três filhos, descobrindo, verdadeiramente, a ludicidade em minha vida. Percebi que a arte, que um dia me fizera companhia, não havia desaparecido.

Eu me aproximei especialmente das histórias infantis. Aliás, sempre me senti atraída por elas, não importando muito se me faziam rir ou chorar, mas apenas o fato de me transportarem para outro lugar e viver, ainda que em sonhos, algo diferente.

Entusiasmada e querendo compartilhá-las, decidi que contaria histórias para crianças com câncer, aquelas que chegavam ao hospital para fazer tratamento e não tinham com quem conversar ou brincar. Com esse propósito, iniciei o curso de contadores no Teatro Griô.
Começava aí a minha trajetória como contadora. A trajetória de uma pessoa comum, sensível, tímida, observadora, que se alimenta de sonhos e que, embora tenha trilhado, profissionalmente, o caminho do formalismo jurídico, conseguiu dar um colorido especial à vida, descobrindo a arte de contar histórias.

No início do curso de contador, imaginava que encontraria pessoas que me ensinariam as técnicas adequadas de contar histórias, que dariam dicas de livros com bons contos e que me revelariam os grandes segredos de um contador.
Para minha surpresa, eu aprendi lições que vão muito além dos recursos que podem ser utilizados na contação ou dos vários tipos de textos que podem ser trabalhados. Muitas respostas estavam dentro de mim e me surpreendi com a minha própria capacidade de vencer limites que eu sequer sabia que existiam.

O processo de aprendizado é contínuo, gradativo, construído com leveza, criatividade, misturando aspectos culturais, memórias pessoais, cantigas, dança, troca de experiências, expressões vocal e corporal e momentos de improvisação. Sem falar nos exercícios de autoconhecimento, com corpo e mente trabalhando juntos. Nada disso é dado pronto, ao contrário, vai tomando forma a cada encontro, com muito estímulo à entrega, à expressão livre de julgamentos e à autonomia criativa.

Eu fui invadida por essa arte de uma forma muito prazerosa e, desde o primeiro dia de aula, quando não contive as lágrimas ao relembrar uma memória da minha adolescência, sabia que muitas coisas boas ainda estavam por vir e tive a certeza de que muitas outras histórias eu teria de buscar dentro de mim.

Surpreendi-me com a capacidade que temos de expressar o que um conto tem de melhor, usando a voz, o corpo e a emoção. Manter o “fio” da narrativa e, ao mesmo tempo, ser capaz de contagiar, emocionar e envolver o público é um desafio que vale a pena viver. Um desafio que não é difícil quando se tem a consciência de que cada um tem o seu jeito de contar uma história e de que todos nós somos “contadores” em potencial, bastando que nos deixemos levar por esse caminho instigante, concedendo-nos uma oportunidade.

Além disso, foi fantástico constatar que a arte da contação vai muito além do universo infantil, alcançando pessoas de todas as idades e mexendo com o imaginário de todos os que apreciam e gostam de escutar uma boa história. Quando a narrativa se descortina, projetamos as imagens através da imaginação, viajamos através do enredo e criamos uma expectativa constante pelo que está por vir. O resultado é um momento de encantamento e prazer.

Quando pisei no palco pela primeira vez, na mostra artística Panos e Tramas, cantando uma música para introduzir a minha história, deixe-me levar pela delicadeza que o texto e o momento exigiam e fiz uma verdadeira viagem.
Cada gesto foi trabalhado, cada palavra e, junto com a música e os efeitos, fui tecendo a minha história, aproveitando cada minuto, torcendo para que o tempo não parasse. Eu queria ficar ali pra sempre. Nunca imaginei que pudesse sentir isso! Eu fiquei muito emocionada e, num certo momento da história, achei que fosse chorar. Estava completamente envolvida e o meu primeiro encontro com o público não poderia ter sido melhor.

Logo que terminei esse ciclo do curso, fui convidada por meu querido professor, Rafael Morais, para integrar o grupo residente de contadores de histórias do Teatro Griô: o Akpalôs – Fazedores de histórias. Fiquei muito honrada com o convite e aceitei na hora, abrindo-se, a partir dali, as portas para novos caminhos.

Fazer parte do grupo é um presente, porque o contato com os outros integrantes incrementa, fortalece o processo de aprendizado. É essa troca que enriquece o trabalho, faz dele uma construção conjunta, mesmo nos momentos em que cada um é protagonista de suas próprias histórias.

Estou vivendo uma fase muito especial no Akpalôs, de preparação para apresentação de dois espetáculos: um coletivo e um individual (solo). E o processo criativo que envolve esses dois trabalhos tem sido muito gratificante, uma grande oportunidade de amadurecimento que estou tentando aproveitar da melhor maneira possível, com dedicação e alegria. A construção do solo está num processo mais adiantado e será apresentado ao público primeiro.

O solo é um caminho sem traçado prévio ou delimitado. Ele acontece aos poucos, vai se desenvolvendo a seu tempo, a cada encontro do grupo e mesmo fora dele. É um trabalho muito pessoal, intrínseco, principalmente porque há o recurso às vivências da infância, aproximando o contador de sua própria realidade. Nesse processo, os jogos, as cenas, as brincadeiras e cantigas são muito utilizados, seja como recurso de incentivo à criatividade, seja como parte da própria apresentação.

Inicialmente, deixei-me levar por imagens, ideias, memórias de infância, canções, registrando tudo, como um diário. Depois passei a correlacionar essas informações, costurando memórias, histórias, pensamentos e canções.

O solo, assim, vai se formando através da união de histórias, memórias e cantigas, resultando em blocos de histórias que, mais tarde, serão consolidados numa única apresentação, após o trabalho de direção realizado pelo professor.
Agora é o momento de construir e apresentar os blocos, exercitando a contação sem medo de arriscar ou do resultado. Estamos experimentando, compartilhando e aprendendo com as apresentações, próprias e dos outros contadores. E é isso que temos realizado nos encontros do grupo.

Não posso deixar de pontuar que, durante esse percurso de formação, enfrentei algumas dificuldades. Primeiro, o nervosismo nas diversas oportunidades em que me apresentei para os demais colegas. Iniciava a contação das minhas histórias com a voz trêmula e respiração alterada, o que fazia com que acelerasse a narração, comprometendo as suas nuances e o próprio enredo do texto. Não conseguia me entregar ao momento de forma relaxada, ao contrário, ficava tensa e preocupada em acertar ou mesmo com o julgamento dos presentes. Isso gerava outros problemas, como a dificuldade de encarar o público e a má utilização do espaço físico. Era como se estivesse contando uma história dentro de uma redoma ou existisse uma barreira me distanciando do público.

Aos poucos, e ciente dessas dificuldades, que só me atrapalhavam, comecei a trabalhar o nervosismo, com o apoio incondicional de Rafael, dedicando-me cada vez mais à apreensão das histórias, preparando-me melhor para as apresentações em aula, exercitando minhas técnicas particulares para manter o autocontrole e tentando me convencer de que poderia errar e aprender com os erros. Também, procurei me aproximar mais do público, trabalhando o medo de encará-lo e fiquei mais atenta à questão dos movimentos durante a contação, para que todos os espaços cênicos pudessem ser aproveitados. Deu certo, porque hoje me sinto mais tranquila e segura antes de me apresentar, consigo olhar para os presentes, sinto-me mais à vontade com o espaço, a narrativa flui com mais naturalidade e tudo isso promove uma troca fantástica com o público.

Além disso, tive de trabalhar a impostação da voz. Ao narrar uma história juntamente com uma memória pessoal, utilizava-me de idêntico estilo de representação, seguindo um mesmo ritmo, colocando a voz no mesmo patamar, sem que se pudessem distinguir as diferentes atmosferas nas quais os textos estavam colocados. O resultado disso era uma narrativa uniforme, padronizada, sem fluidez. Memórias e histórias se confundiam, eu e a contadora éramos a mesma pessoa.

Essa questão foi pontuada por Rafael de forma muito objetiva e esclarecedora e foi fundamental para o meu crescimento no processo criativo. A mudança exigiu de mim um perfeito entendimento a respeito do que ele queria dizer e um trabalho pessoal de concentração e treino para conseguir colocar em prática a distinção do que era meu e do que era da contadora. Mais um desafio que consegui superar e que representou pra mim uma evolução significativa no meu percurso como contadora.

A partir do próximo semestre, depois das apresentações dos solos de cada integrante do Akpalôs, daremos continuidade à preparação para o espetáculo do grupo e existe, sem dúvida, um clima de muita expectativa com relação a esse projeto. Será o meu primeiro espetáculo com os antigos membros do grupo e certamente não precisarei esperar que ele aconteça para experimentar a emoção desse desafio, porque nos próprios encontros já sinto um entusiasmo diferente, uma vontade enorme de fazer esse espetáculo e uma profunda alegria por estar participando de cada passo de sua construção, que envolve histórias de bichos, brincadeiras e versos.

Depois que mais este ciclo chegar ao fim, quero continuar contando histórias, vivê-las sempre que puder, continuar com as aulas, me conhecer mais. Porque aprender a contar, interpretar um texto é apenas uma parte da imensidão que se abre quando se está num curso de contadores. A gente aprende coisas que só o coração pode sentir e que não tem como explicar, precisa viver.

(Ivana Pirajá Luckesi é formada em Direito pela Universidade Federal da Bahia, servidora pública, mãe de três filhos, amante da leitura, contadora de histórias e integrante do Akpalôs, grupo residente de contador de histórias do Teatro Griô (Salvador, Bahia))

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