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[CAIXA DE PANDORA] Sobre Afrodite… A negação da Deusa e a doença psicossomática

Por Juliana Florencio* |

É no corpo que a vida acontece.

O que dizer de Afrodite? Que ela é a deusa da beleza? Sim. Afrodite é a deusa mais bela! E sob sua responsabilidade está toda a beleza do mundo…

O que mais falar sobre Afrodite? Que ela é a deusa do amor? Sim. Afrodite é a deusa que gera as ligações… os elos, pois incita as uniões…

Afrodite nasce das espumas do mar. Nua, na praia, as Horas a ornam lindamente com roupas e jóias.

Uma divindade considerada oriental. Seria a forma grega da deusa da fecundidade e das águas fertilizantes.

“A esta divindade do prazer pelo prazer, do amor universal, que circula na veia de todas as criaturas, porque antes de tudo, Afrodite é a deusa das “sementes”, da vegetação.” (BRANDÃO, 2011, p.234)

Deusa que vivia apaixonadamente e sem restringir seus amores. O casamento com o deus ferreiro Hefesto não a impediu de viver suas paixões: Ares, Adônis, Anquises, Hermes, Dioniso, o próprio Zeus.

Sim… Deusa da beleza, do amor e das uniões.

Afrodite, assim como Dioniso, é uma das divindades mais controvertidas e que geram maior ambiguidade em relação aos seus atributos e poderes.

Sua presença na psique coletiva causa vários desdobramentos interessantes.

Por reger o mundo dos prazeres – do prazer sensorial, sensitivo, do prazer pelo prazer – sua imagem é muitas vezes relegada a uma mera sensualista, capaz de provocar paixões carnais e fazer os humanos e deuses viverem seus desejos sem freios.

Tanto que, assim como Dioniso, é considerada uma deusa estrangeira… deusa do oriente… O oriente misterioso e perigoso para os gregos. Uma deusa desse tipo contraria os ideais helênicos.

O maior erro que um grego poderia cometer era a hybris, os atos desmedidos, e Afrodite causava paixões viscerais a seu bel prazer, assim como as vivia… amores sensuais irresistíveis.

“Afrodite é o símbolo das forças irrefreáveis da fecundidade, não propriamente em seus frutos, mas em função do desejo ardente que essas mesmas forças irresistíveis ateiam nas entranhas de todas as criaturas.” (BRANDÃO, 2011, p.235)

O hino homérico exalta o poder de Afrodite, frequentemente descrita rodeada por animais ferozes que, inebriados pela sua presença, acasalavam-se. Nem mesmo Zeus, o rei dos deuses do Olimpo, resistia aos seus encantos:
Ela transforma até mesmo o juízo de Zeus, o deus dos raios, o mais poderoso de todos os Imortais; e embora seja tão sábio, a deusa faz dele o que quer… Quando escala o Ida de mil fontes, seguem-na, acariciando-a, lobos cinzentos, fulvos leões, ursos, velozes panteras, ávidas de procriar. Ao vê-los, a deusa se enche de alegria e lhes instila o desejo no peito. Então dirigem-se todos, para se acasalar à sombra dos vales. (Hh. A Afrodite Apud BRANDÃO, 2011, p. 235)

“Em Atenas, um dos epítetos da deusa era Hetaíra, hetera, ‘companheira, amante, cortesã, concubina’ (…) Tal epíteto certamente se deve a um outro de Afrodite, a Pandêmia.” (BRANDÃO, 2011, p. 234)

Afrodite também era responsável por caprichos e vinganças terríveis. Outra característica que a remonta à hybris, tão mal quista pelos gregos.

Em suas vinganças era capaz de causar paixões animalescas ou incestuosas que sempre levavam a tragédias familiares e até mesmo de um reino todo, como na guerra de Tróia.

Quase sempre essas vinganças se configuravam quando Afrodite sentia-se não honrada, não adorada em sua divindade. Por ser tratar de um arquétipo, algumas estratégias foram utilizada para lidarmos com sua aparição, afinal a deusa do amor e da beleza do mundo nunca poderia ser relegada a um plano inferior no psiquismo e na construção social, – apesar de esforços da moral e do consciente para que isso acontecesse – pois sua presença no inconsciente coletivo e individual não pode ser negada.

A forma encontrada foi cindir Afrodite, dividi-la em Afrodite Urania e Afrodite Pandêmia.

Afrodite Urania teria maior ligação com a moral grega. Continua sendo a deusa da beleza, mas uma beleza etérea, não carnalizada, não vivenciada, contemplativa, uma beleza sublime, idealizada, na qual, tal beleza, se uniria a aspectos éticos. Da mesma forma o amor seria transformado em Afrodite Urania. Aqui cabe bem o conceito de amor platônico e a busca por se negar o corpo, a materialidade e sublimar o amor a partir de atributos veneráveis.

Por outro lado, restou à Afrodite Pandêmia a vulgarização dos prazeres, do real e palpável, da beleza, da intensidade da natureza, das paixões carnais e do belo pelo belo, simplesmente. Foram rebaixados, também, aspectos sensoriais, dos sentidos do corpo, do sensual.

Tendo em vista esse cenário, como esta cisão de Afrodite influencia nosso psiquismo?

Qualquer coisa experimentada fora do corpo, num sonho, por exemplo, não é experimentada, a menos que “incorporemos”, porque o corpo significa o aqui e agora (JUNG, 1930)

Existem abordagens, consideradas profundas, que buscam romper com a dicotomia mente-corpo. Seguindo a perspectiva junguiana, podemos dizer que uma doença pode existir para recolocar uma pessoa no seu caminho de individuação. Processo de individuação, segundo Almeida, “é a luta da pessoa para tornar-se aquilo que realmente nasceu para ser” (2009).

De acordo com Jung:
Processos do corpo, processos mentais desenrolam-se simultaneamente e de maneira totalmente misteriosa para nós. É por causa de nossa cabeça lamentável que não podemos conceber corpo e psique como sendo uma única coisa. (apud FARAH, 1995)

“Encorporar” transforma a vida.

A possibilidade de sentir melhor as sensações corpóreas modifica a imagem corporal, aumenta a consciência corporal. Há uma valorização deste corpo, muitas vezes esquecido. Há uma nova organização do próprio corpo, da energia psíquica, e uma nova identidade, um novo ego se estrutura a partir das novas dimensões corporais, observadas também pela psique (ALMEIDA, 1999, ALMEIDA, 2005).

Dessa forma, a cisão de Afrodite pode ser imageticamente relacionada com a polarização mente-corpo. Disso advêm o surgimento de diversos adoecimentos de variados tipos e gravidade, bem como de inúmeras categorizações, novos diagnósticos e tratamentos cada vez mais especializados – a tendência da medicina é a superespecialização e com isso a compartimentalização do humano.

O aspecto vingativo de Afrodite se manifesta… Doenças consideradas psicossomáticas… “Excesso” de mente que faz o corpo adoecer… Pasmos nos perguntamos: “Mas isso é psicológico… É coisa da cabeça… Como pode causar tanta dor e sofrimento?… Como não pode ser controlado?… Como pode ser tão incapacitante? … Como pode atrapalhar tanto a vida?”.

Adoecimento aqui é a encarnação da dor da alma.

Afrodite reivindica seu lugar. Vinga-se por ter sido dividida – privada dela mesma – e rebaixada.

A questão das perversões poderiam ser vistas aqui também como consequência do rechaçamento da sexualidade que viria a se manifestar de maneira adoecida. Bem como outros comprometimentos de uma sexualidade que exprimeria os aspectos vitalizantes de Afrodite, mas fica, dessa forma, prejudicada.

Afrodite reivindica sua inteireza no ponto no qual foi cindida.

Para além do psiquismo individual, esta cisão é evidente na nossa cultura carregada de estereótipos e preconceitos em relação às mulheres. Tomando a partir do século XIX – para não retornarmos às bruxas e à própria Eva -, com a medicalização do corpo feminino, foram criados verdadeiros estatutos de desordens potenciais relacionadas às mulheres. No discurso médico disciplinante do corpo reside uma tendência em demonstrar que existe nas mulheres uma degeneração, daí a importância de um controle (*1).

Ser mulher, ao longo da história ocidental, esteve ligado ao incompleto (*2), ao degenerado, ao perigoso, ao amoral, à fragilidade, à impulsividade, à falta de razão e, por conseguinte, à loucura. É importante retomar que vários aspectos do feminino foram demonizados, negativados.

Dessa forma, podemos observar quantas loucuras e doenças foram destinadas às mulheres que não se enquadram aos modelos de feminino – mais uranianos – ou que não suportaram a opressão de serem relegadas a um lugar de subalternidade e às altas cobranças por comportamentos sociais considerados adequados. (FLORENCIO, 2014)

É importante salientar que não se trata de “escolher” entre uma Afrodite e outra – categorizar como positivo ou negativo é uma tendência que temos para lidar com o que nos circunda. Jung ao falar da anima diz:
(…) pois a vida não é só o lado bom, é também o lado mau. Porque a anima quer vida, ela quer o bem e o mau. (…) Tanto a vida no corpo como a vida psíquica têm a indiscrição de se portarem muito melhor e serem mais saudáveis sem a moral convencional. (JUNG, 2013, p.37)

A problemática reside na cisão, na negação, no rebaixamento de aspectos de Afrodite, observados na negação do corpo, dos instintos, dos aspectos do feminino, no excesso de mentalização, de idealizações, de subserviência ao “mundo das ideias”. Isso gera desvitalização revelados em adoecimentos, avareza erótica, desvinculação, paixões destrutivas, ausência do beleza na vida.

Honremos a deusa em sua inteireza, em sua plenitude. Estejamos em nossos corpos. Estar no corpo é estar em si mesmo. É poder voltar para si para poder encontrar com o outro. É no corpo que a vida acontece.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEIDA, L. H. H. A psicologia junguiana e o corpo no processo de individuação. In: ZIMMERMANN, E. B. (org). Corpo e Individuação. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.
BRANDÃO, J. S. Mitologia grega, vol. I. Rio de Janeiro: Vozes, 2011.
FARAH, R. M. Introdução. In: ZIMMERMANN, E. B. (org). Corpo e Individuação. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.
FLORENCIO, J. O coração que renasce entre dores e cores, 2014.
JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Rio de Janeiro: Vozes, 2013.
VIEIRA, E. M. A medicalização do corpo feminino. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2002.
ZIMMERMANN, E. B. (org). Corpo e Individuação. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.

*1 “A “natureza feminina” vai explicar a loucura, a degeneração moral, a criminalidade, de tal forma que a mulher é considerada como um ser incapaz de autonomia. Apesar de deter o importante papel de transmissora da moral, a mulher é um ser tutelado, de maneira que o modelo idealizado de mãe e esposa não possa ser negado sob o risco de transforma-la em doente. A doença passa a ter um significado de degeneração moral, e a ideia de mulher relaciona-se à ideia de periculosidade.” (VIEIRA, 2002)

*2 “A embriologia da época estabelece que o embrião humano passava por todos os estágios sucessivos de evolução das espécies animais, quer dizer, o embrião primeiro é fêmea, depois transforma-se em macho, portanto macho é a última etapa da evolução, estado superior, enquanto o embrião que permanece fêmea, conhece uma parada de desenvolvimento.” (KNIBIEHLER e FOUQUET, Apud VIEIRA, 2002)

* Juliana Florencio é recifense de coração, apaixonada pelos estudos de astrologia, mitologia e 
psicologia analítica. É psicóloga, arteterapeuta e consteladora familiar sistêmica. 
Quinzenalmente, lança um novo post em sua coluna CAIXA DE PANDORA, no Portal Flores no Ar. 

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