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Rim sem Coração, por Marconi Bispo

marconibispo@hotmail.com

Minha mãe trabalhava na Kaplast, Rua de Santa Rita. Eu já a conheci trabalhando lá, não lembro de outro lugar, nem se ela tinha outra ocupação. Tinha um patrão alto, branco, Seu Gilvan, uns outros dez funcionários e ela atendia telefones e anotava recados. De lá, muitas vezes, saíamos pelas ruas dali: Calçadas, Direita, Beco do Sirigado, Duque de Caxias. Íamos sempre na casa de Glauce, uma amiga que parecia gostar muito dela. De verdade. Às vezes, minha mãe me deixava no Mercado de São José aos cuidados de meu pai, que me deixava aos cuidados de Microfone e eu ganhava um copo de salada de frutas com groselha. Tardezinha, voltávamos felizes para casa.

Lembro do anúncio da sua demissão e da tristeza que começou a assombrá-la a partir daí. A justificativa era que a empresa não precisava mais dos seus serviços. Ouvi minha mãe chorando. Ouvi que tudo mudou e, coincidência ou não, ela adoeceu pouco depois. O rim parou e eu até esqueci o gosto da groselha que comia, sempre, no fim da tarde.

Dia de domingo: minha mãe, muitas amigas e amigos e uma ébria alegria invadia minha sala. Eu, caçula, ainda como um canguru, exigia inocentemente que ela retomasse o prumo. Ficava reclamando o papel materno, perdido ali entre uma cerveja e outra, entre Núbia Lafayette, Clara Nunes e Noite Ilustrada. Minha mãe gorda, matrona, dançando pela sala. Eu, entre contente e exigente, queria colo.

Eu tinha nove anos. Sempre tocava no ônibus aquela música que dizia que as ruas tinham cheiro de gasolina e óleo diesel. Íamos três vezes por semana para a clínica onde ela fazia hemodiálise. Eu ficava três horas lá, esperando minha mãe que já não era mais gorda e nem se perdia entre uma cerveja e outra nos dias de domingo. Enfermeiras me paparicavam e eu sempre encontrava o que fazer num hospital. Passava o meu tempo ajudando um cara que contava caixas, passava meu tempo pedindo a Deus mais tempo para minha mãe que parecia ir embora a cada sessão. Quando voltávamos, eu ganhava um picolé da Kibon. E achava engraçado descer do ônibus e pesquisar aquilo que a música dizia. E encontrava resposta pra tudo. Menos para aquilo que a partir de agora era a rotina de uma criança.

Mainha, o que é um rim? É aquilo que parou em mim. Mas por que parou? Porque minha pressão aumentou. Por que sua pressão aumentou? Porque eu fiquei aperreada. A senhora se aperreou porque meu pai tem outra mulher ou porque a senhora não anota mais recados para Seu Gilvan? O que o seu pai fez foi parar meu coração, o rim não. O rim foi a pressão. Mas não é o coração que controla a pressão? Não sei não. Mainha, esse picolé é novo. Qual o nome dele? Chokant, é de chocolate branco. É gostoso, a senhora quer? Não posso porque dá sede. Ora, se tem sede bebe água. Esqueceu, não posso tomar muita água. Poxa, o seu rim é sem coração! Nem água pode não.

Eu lembro que minha mãe era doce. Feito aquele picolé. Mas a máquina limpava o sangue. E tirava também a alegria. E assim, durante nove anos, três vezes por semana, três horas por dia, vivemos nossa romaria. Até que um dia, sábado de aleluia, minha mãe não suportou a pressão: do seu coração, do seu rim, do pulmão, das cinco outras mulheres do meu pai, do nosso distanciamento, da falta de abraço, da falta de carinho, da falta de eus te amo, da falta. Na missa, enquanto aguardávamos de branco a ressurreição de cristo, minha mãe estava lá com muitas máquinas a ela ligadas e eu, de novo, tentando entender: por que não estávamos juntos, por que estávamos distantes e qual o sentido das canções de Roberto Carlos, que ela tanto amava, estarem ali, no hospital, como contratadas?

Mainha, tu me perdoa por ter me afastado? É claro, meu filho. Tu lembras quando eu fazia tranças no teu cabelo enquanto assistias a novela? Eu dormia e perdia a novela. E eu achava que podia ser cabeleireiro um dia. Será que painho deixava? Do jeito que ele é machão. Acho que não. Eu quero, de novo, te pedir perdão. Já perdoei, lembra não. Lembrei sabe de quê? De quando você me pedia para pegar na sua saia para eu não me perder na cidade. Mainha, eu odiava, sabia? Sabia não. Isso tudo é proteção? Então. Engraçado: rim para, coração para, pulmão para, mas o amor não. Tanto tempo depois e eu aqui pedindo sua atenção. Mas, mainha, me diga: foi Seu Gilvan ou painho que aumentou sua pressão, que fez parar o seu rim, o coração e pulmão? Meu filho para quê essa explicação? Não tenho mais rim, nem nervos, nem olhos, nem pé, nem mão, o que importa isso agora, sou muito maior, vê não? Hoje eu vi depois que pedi perdão. Depois que disse eu te amo e que quero sua proteção. Mainha, eu amava aquela salada de frutas com groselha e o picolé da Kibon. Obrigado, viu! Eu também achava lindo quando você dançava dia de domingo. Achava engraçado seu peito grande balançando dentro do vestido colorido. Gostava de ter uma mãe gorda. Mainha, você tá aí? Menino, eu fui dormir.

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1 Comments

  • Marconi, seu texto nos arremete a tudo que sentimos nesse período em convivência comas maes…entre a inocencia…a emoção…o desejo…e a razão. Parabens!

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