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Ocupação e Compaixão

Por João Vale
joaovalesanga@gmail.com

Eu até achava que era um bom praticante de meditação até começar a participar do Movimento#OcupeEstelita. Ter acesso ao ódio fomentado contra o movimento, as estratégias escusas do Consórcio Novo Recife patrocinando páginas na internet para ridicularizar o movimento, ter visto amigos queridos apanhando de graça por se aproximarem do portão, descobrir que o Consórcio alugava cães e 150 seguranças armados, lembrar da violenta reintegração de propiedade, ver a profunda capacidade de ocultar e invisibilizar as questões sociais que nós temos, tudo isso, foi extremamente avassalador.

Não demorou muito para que eu tivesse um ódio igual ou semelhante ao ódio que eu combatia. Ele não veio repentinamente, mas foi alimentado por uma série de processos repetitivos. Quando eu vi, estava com aquilo no meu colo. Vi a possibilidade de utilizá-lo de maneira violenta e drástica contra meus inimigos. Era uma energia extramente poderosa e destrutiva.

Também não sei quando foi que larguei no chão. Mas desconfio que foi na primeira vez que tive coragem de meditar. Quando fiquei de pé, murmurei:
“Vá embora”. Ele, de fato, cumpriu sua função: eu havia entendido que não era um bom praticante. Não estou nesse mundo para aumentar o ódio. Isso aqueles que eu combato já sabem fazer e muito bem. Estou no mundo para outra coisa. Não quero nem acho que devemos nos tornar os monstros que combatemos.

Isso, contudo, não significa não agir diante do que está errado. Significa apenas agir com a agudeza de uma espadachim, cortando o que deve ser cortado e beneficiando o que deve ser beneficiado. É mais a compaixão de alguém que cuida de um cachorro machucado – mas que possui dentes – ou de um enfermeiro que cuida de um doente – mesmo que este seja ranzinza e mal-humorado.

A luta ainda segue e seguirá por um bom tempo até que vençamos com uma visão de mundo mais ampla, como disse meu guru. Preciso apenas agradecer até aqui porque entendi:
1 – que é muito bom perceber quando as auto-ilusões sobre você mesmo se destroem
2 – que não precisamos nos tornar o que combatemos
3 – que a nossa luta é muito mais um trazer benefícios para essa cidade, como o movimento rapidamente intuiu
4 – que a menor conexão positiva que estabelecemos para o Universo tem muita força, daí todo o apoio que o Ocupe Estelita recebeu e vem recebendo pelo mundo
5 – que talvez eu não tenha entendido nada. É melhor cada um aqui meditar profundamente para poder chegar às suas próprias conclusões!

PS: E eu até achava que entendia de compaixão, até ver as redes de solidariedade mais intensas e bonitas que já vi, à semelhança de vôos de andorinhas no céu, dos designers aos jornalistas, publicitários, professoras e estudantes universitários, dos artistas, das pessoas em comum. Também não quero falar sobre a alegria que foi ver um conjunto de pessoas insistindo em tentar ficar em baixo do viaduto em condições precárias e extremamente solidárias com aqueles e aquelas que, por uma imposição social, estão obrigados a viver e se relacionar em meio aos carros. Não só: aqueles e aqueles que recebem todos os dias, sprays de invisibilidade para que não sejam vistos. Ao aproximar-se desses seres invisibilizados o Movimento Ocupe Estelita trouxe sua dor à consciência da cidade. E, acredito, passou a lutar melhor, com uma motivação cada vez mais clara sobre o que significa o abandono e o descaso com as pessoas e a cidade. Por isso, enquanto mantiver viva a compaixão intensa que o fez surgir, ele é, permanece e ainda será vitorioso!

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