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O quadro do Chê

Por Carlos Carlos
ccbotijas@gmail.com

cheO cara era a cara do Chê Guevara, mas isso não o destacava ali na Rua da Moeda. Havia um festival de música e, entre as apresentações das bandas e a conversa solta, belas pessoas e sorrisos eram só o que se via e o que se queria ver.

Ele estava só, bem tranquilo, sentado numa cadeira de uma das mesas em frente ao Cine Chinelo, apreciando a alegria do lugar e bebendo cerveja, enquanto olhava, insistentemente, para o interior do bar. Depois de duas ou três “cervas”, segurava uma vontade razoável de ir ao banheiro, mas esperava que a fila diminuísse.

– É agora – pensou, já em ação. Um cara e duas mulheres jovens a sua frente inventavam histórias envolvendo os ornamentos do bar, comentando entre si tudo à volta enquanto aguardavam na fila. Gostou e passou a contemplar também, extasiadamente, os detalhes simples dos enfeites nas paredes. Chegou sua vez, entrou no banheiro, não fechou a porta, nem saiu mais; se encantou, sumiu.

No outro dia, o dono do bar encontrou um quadro pendurado na parede, numa altura acima e ao lado da porta do banheiro, visível a partir de qualquer ponto no recinto. Gostou. Nem quis saber como teria chegado ali, porque gostava muito daquela gravura tradicional do Chê Guevara, que surgira de forma misteriosa, mas que, na verdade, sabemos, o cara é que decidira morar lá em forma de quadro.

Tantas coisas que compunham o ambiente do minúsculo boteco eram mesmo um universo imenso, suficiente pra viver intensamente cada dia. Em uma réplica de caravela ornando também essa parede em que ele estava, por exemplo, navegou os sete e tantos outros quantos mais houvesse, dentre os mares de possibilidades em sua imaginação, incluindo os oceanos dentro das garrafas todas ali pra ele se embriagar, sempre que desviava o olhar do magnífico barco para as bebidas nas prateleiras por trás do balcão.

Porém, sua preferência era olhar a caixa d’água revestida com recortes de revistas sobre o banheiro, em uma colagem cujas fotos distraiam as pessoas do aperto da espera em frente à porta. Ali, ele encontrava quase tudo que queria. Tinham até umas fotos de uns pratos da mais rica culinária, que escolhia para degustar conforme o apetite do momento. Fotografias de roupas da moda e a foto de uma pequena multidão nudista sugeriam a benfazeja condição de todos quando nos livramos dessa tanta roupa que nos prende.

E tudo lhe fazia bem, não só por outras fotos e enfeites ali, mas por muitas outras coisas, seres e adventos frequentes nesse bar, incluindo o desfile anônimo de belas personagens tão alegres que o tornavam todo dia, fora as segundas-feiras, certamente o quadro mais feliz do mundo.

Quando estava a se deleitar numa cachoeira, em outro quadro próximo à caravela, as pessoas percebiam que seus olhos pareciam muito anormais, como se o Chê tivesse algum problema grave de visão, pelo tanto que as pupilas se voltavam para um determinado ponto na diagonal, pois era assim que ele passeava pelo mundo inteiro que existia nesse bar. O dono do estabelecimento também estranhava aquilo, mas como nem sequer podia explicar para si mesmo como o quadro aparecera ali, não precisava explicar mais nada pra ninguém. Quando comentavam com ele, dizia apenas: “de perto, ninguém é normal”, como diz o Caetano.

E lá ficava o Chê no quadro, olhando às vezes para o alto, às vezes para frente, ou então para você, caso estivesse lá, no balcão ou conversando na fila do banheiro, como se ele pudesse ler seus pensamentos, fixando o olhar bem dentro dos seus olhos. Quando alguém comentava com outra pessoa, ao olhá-lo novamente já o via olhando em outra direção, normalmente para umas latas de cerveja armazenadas numa loca entre a caixa d’água e a parede.

Um tempo depois, o quadro desapareceu. Há quem diga que o encontra – o próprio sósia do Chê –, vez por outra, por ali, tomando uma gelada no Recife Antigo. O dono do bar não estranhou o sumiço, claro, mas tratou logo de ir comprar outra gravura dessas bem comuns de Chê Guevara, como se nada mais pudesse preencher, entre o possível e o imaginável, o suposto vazio que ali ficou.

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