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[INTEGRANDO SAÚDE] Orgulho X Autopiedade: dois extremos geradores de sofrimento

Por Gabriela Sencades Migge* |

Uma atitude grave que muitas pessoas cometem é ser ríspido com os outros na intensão de “cortar” traços de “auto vitimização”, uma vez que estes traços levam ao cultivo do próprio sofrimento. A intenção pode ser a melhor possível, porém, nem sempre, é eficaz e necessária.

Tal “secura” no trato com o outro vem da má compreensão de alguns ensinamentos seculares dos quais revelam que nós somos criadores de nosso próprio sofrimento. Quando olhamos para tais ensinamentos de forma superficial nós criamos um ego bem mal-humorado, pois juntamos nossa própria confusão, como impaciência e orgulho, e pensamos que entendemos todos os ensinamentos “místicos”, assumindo posturas de “mestres iluminados, detentores de grande sabedoria” e consideramos o outro como “pobre ser que chafurda na lama de seu próprio sofrimento”.

Porém, com essa postura, nós “chafurdamos” na lama tanto quanto o outro que pensa que sua própria vida é um mar de tristezas criadas por terceiros, pois vamos nos tornando prepotentes e esnobes. Cheios de críticas e indiferença pelo outro.

Por outro lado, aquele que se “auto vitimiza” cria para si uma aura de “auto piedade” que vai se expandindo à medida que se aponta para os outros como razão de todo seu sofrimento. Muitas vezes, isso decorre de uma grande carência por acolhimento, querendo alguém que o escute e que, acima de tudo, lhe dê razão, pois todo aquele que se auto vitimiza insiste em viver no passado, relembrando a todos por quantas mágoas já passou e como foi difícil sua vida.

No fundo, isso é só uma vontade que se tem de ser reconhecido pelos seus esforços, achando que merece ganhar uma “medalha” (recompensa) de razão, pois a vida foi “muito injusta” com este ser.

Refletindo sobre essas duas posturas, podemos perceber que tanto assumir posturas de “mestre iluminado”, quanto de “sofredor contumaz”, são extremos. E que seria muito bom e eficiente percebermos o quanto temos de um e de outro dentro nós, a fim de nos equilibrarmos e tomarmos outras posturas. Posturas estas que vão fazer que realmente saltemos para fora de tanta “lama” do nosso próprio sofrimento. Porém, antes, para que isso aconteça, é necessário cultivarmos empatia e resiliência.

O cultivo da empatia permite que levemos a nossa sabedoria a outro nível de compreensão sobre nós e o outro. Seria o nível do amor e da compaixão, que, quando combinados, nos levam a uma lucidez experiencial de fato. Do contrário, nos tornamos pessoas com grande conhecimento, porém sem “alma” (coração), indiferentes e “super” auto centrados, críticos e grosseiros. A vida, ou melhor, o pulsar da vida, aquilo que te faz caminhar com encantamento e energia só se faz presente quando ampliamos a nossa capacidade de entender os seres.

Esse entender seria mergulhar em seu sofrimento, acolhê-lo e investigar as suas raízes. Isso seria gerar empatia, pois a empatia, quando brota, nos faz entender que, apesar do sofrimento de todos serem ilusórios, para aquele ser, naquele momento, é muito real, dilacerante e “adoecedor”.

Entender isso na sua essência é, automaticamente, gerar acolhimento para aquele ser. Acolhemos, oferecemos nossa escuta profunda, sentimos a sua dor, a fim de fortalecê-lo, restabelecendo-lhe sua autoestima positiva. E, passo a passo, amorosamente, vamos mostrando que é possível ultrapassar seu sofrimento, de qualquer origem que seja.

Mas, se ficarmos nos considerando sempre como um ser que já ultrapassou o seu próprio sofrimento, com certeza vamos nos achar “libertos” e esbanjar grosserias travestidas de “ensinamentos”!

Portanto, “take easy” quando for ao encontro dos seres! Vamos com calma quando estivermos interagindo com as pessoas, pois muitas vezes não sabemos a história de vida daquele ser. Não sabemos se ele está desenvolvendo alguma patologia como depressão ou bipolaridade. Não sabemos se sofreu ou está sofrendo algum abuso, discriminação, abandono, bulling etc.

Todos esses sofrimentos são superáveis sim, mas não sabemos o grau que a pessoa está e se é capaz de optar pela transmutação, através do perdão, por exemplo. É preciso saber respeitar o tempo do outro. E, principalmente, reconhecer nossas próprias limitações e ter sempre o cuidado de não contribuir sob nenhuma hipótese para o sofrimento alheio. Tem um proverbio que diz “não coloque o peso de uma pena no sofrimento de alguém.”

Percebam que as relações já são difíceis demais para ainda estarmos olhando para alguém de cima, do alto de nosso orgulho e proferindo “sabedoria” de frases feitas da internet e muitas vezes descontextualizadas. Agindo dessa forma, somente revela a face da indiferença e desdenha do sofrimento alheio.

Assim, quando não for possível acolher é melhor se afastar e refletir o que a situação está revelando em você. Fazendo isso talvez achemos em nós orgulho, impaciência, raiva, desdém/indiferença, psicopatia… enfim, tudo aquilo que nos impede de acolher alguém é sempre nosso maior obstáculo, que precisamos necessariamente atravessar.

Partindo para outro extremo, se não cultivarmos a resiliência a vida sempre será um grande pesar. E se vai delegando a culpa de todo nosso sofrimento aos outros. A resiliência estabelece, assim, a aceitação. Aprendemos que as coisas são como são. E que tudo que ocorreu e ocorrerá é combustível para nosso aprendizado.

É da resiliência que nasce o perdão e a assunção de toda a responsabilidade por nossa própria felicidade. Sem a resiliência viveremos sempre no passado, lamentando nossas próprias dores a quem “não quiser” escutar, assumindo um vitimismo irresponsável, onde todos ao redor o fazem sofrer, sem que se tenha responsabilidade nenhuma nisso, passando a vida toda achando que o defeito é o mundo, quando, na verdade, somos nós que criamos as expectativas e sofremos quando não são correspondidas. Gosto demais de um provérbio que diz: “quando tudo cheira mal olhe para seu próprio nariz.”

Com tudo isso, precisamos atentar que, tanto para um extremo quanto para o outro, será sempre necessário “mergulhar” em nós mesmos. Percebermos para que lado estamos pendendo em cada situação, pois, sim, vamos variar de comportamento dependendo de cada situação e relacionamento. O desafio será sempre nos olharmos com honestidade e permitir que o equilíbrio se restabeleça de forma fluida, pois o nosso natural é agir com a perfeição divina da qual somos parte, porém, antes, precisamos remover nossos obstáculos.

Referências:
Wallace B. Alan. A Revolução da atenção. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.
____________. Budismo Com Atitude. Petrópolis, RJ: Lúcida Letra, 2017.

 

 

* Gabriela Sencades Migge é terapeuta integrativa, pós-graduanda em psicologia positiva, pela PUCRS e em neurociências pela FAVENE. É co-fundadora e gerente de marketing do Espaço Cuidar. Para mais informações acesse: https://espacocuidarrecife.wixsite.com/terapiasintegrativas

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