Fique por dentro das novidades do Flores no Ar!
  • Facebook
  • Twitter

Arquivos

Flores no Ar Logotipo do Portal Flores no Ar

[CAIXA DE PANDORA] Imagens da depressão

‘Minha nigredo’, por Juliana Florencio

Por Juliana Florencio* |

Em consonância com o Setembro Amarelo – mês de prevenção do suicídio -, pretendo, neste texto, abordar a depressão através da sua imagética e como possível processo de tranformação da vida.

Dividi o texto em duas partes: 1) Capitalismo e comprimidos; 2) Oxidação.

Parte 1 – Capitalismo e comprimidos

Quero começar com esta imagem:

Após receber uma receita médica de um dos antidepressivos mais populares e comprá-lo na farmácia, a jovem volta para casa e abre o pacotinho. Imaginara um frasco amarelado, repleto de cápsulas firmemente embaladas, como comprimidos de vitamina. Em vez disso, encontrou uma embalagem metálica plana, com comprimidos separados uns dos outros por um espaço desproporcional de papel alumínio vazio. “Cada comprimido encontra-se em total solidão” – disse – “em conchas metálicas olhando umas para as outras. Cada um em suas pequenas prisões individuais. Por que não estão todos juntos em uma caixa, livres e soltos?” A forma como os comprimidos foram empacotados perturbou-a. “Eles estão alinhados como soldadinhos obedientes – por que pelo menos um deles não se rebela?”. Sua próxima ideia foi engolir todos os comprimidos de uma vez. Quando indaguei sobre o porquê, disse: “Para que não se sintam tão sozinhos e claustrofóbicos.” (LEADER, 2011)

Essa imagem, que Leader nos conta, amplifica nossos sentidos para a temática e fala por si só. A situação dos comprimidos semelhante a nossa condição frente à fragilização de vínculos afetivos e sociais, nos remonta à depressão como consequência e reação.

Podemos refletir depressão, também, como efeito colateral de um sistema voltado para a produção e desempenho, no qual fatores promovedores de Eros seriam rechaçados por não serem “lucrativos”, por serem considerados como perda de tempo e, como aprendemos, “tempo é dinheiro”. Mas a alma ressente-se por ser tolhida e adoece.

Como estamos inseridos numa lógica de maximização da lucratividade a qualquer custo, este acometimento precisa ser tratado de forma que o humano retome o seu estado produtivo e consumidor. Então, de forma condizente, a biologização e patologização da depressão inserem-se como resposta a esta problemática.

Dessa maneira, torna-se extremamente pertinente reduzir a depressão a um mau funcionamento de neuro-transmissores. Como consequência, a abordagem para tratamento é a medicalização, fato que se encaixa perfeitamente ao sistema, haja vista a força da indústria farmacêutica.

O que vivemos atualmente é um reducionismo do sofrimento humano a diagnósticos e medicalização. A dor é calada novamente, a reação é aprisionada num discurso médico.

Quando abordo este tema, me vem a música de Caetano Veloso “Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial”. Me parece que a depressão vem denunciar isso também.

Outra questão que Leader aborda é a falta de espaços coletivos para poder vivenciar o luto, a dor da falta. É fato que nossa cultura e organização social perderam lugares de expressão humana, de experiência de Eros. Há não muito tempo, o luto era vivido coletivamente, as pessoas viviam rituais sociais durante este processo. Leader, diferentemente de Freud, afirma que “o luto exige outras pessoas”.

Parte 2 – Oxidação

A partir desta imagem que Leader traz, me vem outra: a da oxidação.

Provavelmente os comprimidos estão separados a uma certa distância e por alumínio para informar materialmente ao “deprimido” que este deve ingerir um comprimido por vez.

Mas podemos imaginar que os comprimidos guardados juntos e sem proteção certamente amarelariam, sofreriam a ação do ar… oxidariam.

Estar junto e sob a influência do ar danificaria cada comprimido em si.

Esse é um grande paradoxo do estar vivo. Ao respirarmos, oxidamos, somos danificados pelo oxigênio, envelhecemos e, por isso, morreremos. Mas a condição de estar vivo é respirar! É encher os pulmões de oxigênio. É trocar com o ambiente. Aspiramos oxigênio. Expiramos gás carbônico. Trocamos com a atmosfera. Tocamos a vida. Vivemos.

A relação da respiração com a existência nos é dada através da imagem da Criação: o sopro de Deus nas narinas de Adão. A partir de então, este primeiro homem, adquirou alma… e viveu. A vida como dádiva. Sopro de Deus. E porque viveu, morreu.

A música de Lira, Sidarta, nos traz isso:

“Se é pra viver é pra morrer. Se é pra morrer, viveremos. Leva eu, Sidarta. Chama eu, que eu também vou”.

Um momento crucial da existência é quando o bebê nasce, a possibilidade de ele respirar ou não. Aquele grande choro é o iniciador da vida. Ar entrando nos pulmões, fazendo doer os pequenos e imaculados pulmõezinhos.

Outra imagem:

“De acordo com o Physiologus (o folclore tradicional de psicologia animal), os filhotes de leão são natimortos. Devem ser acordados para a vida com um rugido. É por isso que o leão tem aquele rugido, para despertar os leõezinhos do sono, pois eles dormem em nosso coração.” (HILLMAN, 2010)

O leão é uma imagem que remete ao coração. Para a astrologia o regente do signo de Leão é o sol e este esta associado ao coração. Se considerarmos o coração como a sede da alma, vemos, a partir do que nos traz Hillman, que esta é acordada com um rugido. Um rugido a chama para a vida.

Assim como na Criação, esta imagem, nos leva à importância do outro – Deus, Leão, a mãe que pare o bebê, o médico que dá a palmada no recém-nascido, a parteira – para que a vida ocorra.

Os comprimidos bem embalados e isolados, não oxidam, não são danificados pelo ambiente. Ao entrarmos em contato com o outro, a alquimia ocorre, perdemos nosso estado imaculado, somos transformados, modificados pelas experiências, nos tornamos vivos. A vida acontece.

Não podemos minimizar a importância das relações e dos vínculos para que a Opus alquímica ocorra, pois “somos modificados por aquilo que amamos”.

Dessa forma, podemos olhar os estados depressivos diferentemente. Biologização e medicalização reduzem essa experiência e privam o humano da sua profundidade. Negam a compreensão do quanto a não vivência de processos de dor e sofrimento, bem como a precarização dos vínculos pessoais, sociais, culturais estão tão ligadas ao processo de adoecimento.

A depressão, como reação ao um modo de vida entorpecedor, é desligitimado e sufocado, impedindo a transformação, o fluxo da vida, a economia erótica, pelos quais este processo grita.

O humano é calado e colocado em caixas de comprimidos, separados um dos outros, e sem contato com o ar – vida.

Por tudo isso, podemos considerar a depressão, como um grito da alma (um rugido do leão) para tranformarmos a nossa existência.

Tentei escrever este texto a partir de imagens. De acordo com Hillman, “Himma é o modo pelo qual as imagens, que acreditamos criar, nos são apresentadas não como tendo sido criadas por nós, mas genuinamente criadas, como criaturas autênticas.” (2010)

Esta perspectiva transforma a abordagem clínica, pois tira o enfoque do subjetivismo e o coloca no imaginal.

As imagens falam por si só e guardam potência em si mesmas. São mobilizadoras, catalisadoras e potencializadoras de mudança. Sua aparição é germe e transformação em si. Poder deixar que as imagens fluam na abordagem da depressão, não nos fixar em diagnósticos e não reduzir o sofrimento a um campo tratável pela medicina, é acolher e fazer alma.

Referências bibliográficas:

HILLMAN. J. O pensamento do coração e a alma do mundo. São Paulo: Verus, 2010.
LEADER. D. Além da Depressão. Rio de Janeiro: BestSeller, 2011.

* Juliana Florencio é recifense de coração, apaixonada pelos estudos de astrologia, mitologia e 
psicologia analítica. É psicóloga, arteterapeuta e consteladora familiar sistêmica. 
Quinzenalmente, lança um novo post em sua coluna CAIXA DE PANDORA, no Portal Flores no Ar. 

3 Comments

Leave a comment