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Desmatamento no Parque do Cocó, em Fortaleza, causa tristeza e indignação

Por Juliana Veras *
cocó
Foto reproduzida do facebook (não encontramos o crédito do autor)

No Parque Ecológico do Cocó, em Fortaleza-CE, manifestantes pela preservação da natureza acampam há mais de 80 dias, para evitar o desmatamento de sete metros de área que será utilizada para construção de dois viadutos.

A Prefeitura de Fortaleza alega que a construção é necessária para desafogar o trânsito da cidade. Estudiosos apresentam outras maneiras de melhorar o fluxo de veículos na área, sem provocar o desmatamento, e explicam que os viadutos enfeiam a cidade e aumentam a poluição e a violência. Nesses últimos meses, diferentes ordens judiciais se contradizem, ora permitindo ora proibindo a construção.

Apesar da ação dos manifestantes, 98 árvores foram arrancadas, até agora. Diversas empresas já apresentam interesse em posteriormente construir seus equipamentos desmatando a área do Parque.

No dia 04 de outubro de 2013, após mais de 80 dias de ocupação, os manifestantes sofrem ação violenta de desocupação do Cocó por parte da polícia. Cerca de 300 homens participaram da operação, entre cavalaria, Batalhão de Choque, Raio e Cotam.

Enquanto isso, a vida quer viver…

Ainda (“ainda”) não me recuperei do que vi com meus próprios olhos nessa última sexta-feira 04/10/13. Passei lá em frente hoje mais cedo.. Carros da polícia dentro, uma pessoa entrando de moto, outro alguém com farda em diferentes tons de cinza.

A escultura da carranca linda com a indicatória “Bem vindos” não estava lá. Eu, se fosse um passarinho, também não estaria mais lá, depois de ante-ontem; o céu, o canto mais limpo. Não estavam lá os índios, os acampados, e sinceramente, qualquer inspiração à beleza, à saúde e à poesia, que é o que o Parque do Cocó representa, está calada pela lembrança da truculência do que vi.

Primeiro, muitas viaturas, nunca tinha visto tantas. Que diabo era aquilo? No caminho pela Antonio Sales, sirenes altíssimas dizendo sai do meio ou morra. Bomba e pedra pra tudo quanto é lado. “Ju, você está do lado certo”. Eu sei, mas de que lado é que eu tô! O que é isso, o que diabo é que tá acontecendo? E falando em passarinho, eu ouvia uma bomba estourando, olhava pra cima assustada, e via uma galera de diferentes espécies voando rápido, pareciam ter saído de dentro dos canhões. Parecia uma ironia divina, “olha, vocês estão levando gás, e a imagem é um pássaro em seu vôo mais elegante”. Três eloqüências se degladiando: a estupidez e a covardia da polícia; o medo, a mágoa e a ira dos manifestantes; e a ironia de Deus. Não dá para traduzir aquela visão em palavras, dá no máximo pra falar a respeito, em cascata de pensamentos assim, explicando a perplexidade que me invade.

Não me perguntaram se eu concordava com um desmatamento que esfola a cidade dentro de si mesma, pra que o trânsito fique menos afobado por algum curto tempo, pra que a gente respire menos e contemple menos, em troca de jogar pra um futuro próximo um problema muito maior que a engenharia de trânsito explica: o enfeiamento e o aumento da poluição e da violência da cidade, e um trânsito cada vez mais incompreensível e impossível de se lidar com. É o que a ciência diz. Não me perguntaram se eu concordava, e aí me explicaram que estava tudo errado, então eu finalmente fui lá ver com os meus próprios olhos o que era que estava acontecendo.

Sexta-feira, dia 04 de outubro de 2013. Eu vou explicar, mas não dá pra entender nada. A guerra não faz o menor sentido!

A guerra não faz sentido; um juiz, falando que é dia de São Francisco de Assis (tem rima, já dá pra musicar), padroeiro dos animais, do meio ambiente e da ecologia, manda as pessoas saírem de um parque público de um país democrático, para que as árvores sejam derrubadas pra acontecer o contra-senso que eu já falei. Claro, obedecendo ordens, etc, o que só enverga uma tela embaçada. Quando o juiz sai, as pessoas acampadas e outros manifestantes fecham o portão, armando uma trincheira, pra impedir a pau e pedra a entrada de pessoas com um armamento impressionante – bomba, bala, escudo e sei mais lá o quê –, adquirido com o dinheiro dos impostos que a gente mesmo paga. A gente manifestantes, policiais, artistas, governantes, cidadãos, a sobrinha do policial, a avó de não sei quem; o amigo do filho do policial, que por acaso são manifestantes também os dois; a mãe de uma amiga minha que estava lá, as duas, não via há uns dez anos, se posicionando em defesa do verde…

Enfim, todas essas pessoas, nós, respiramos as árvores que, cortadas um pouco, logo abre espaço pra outros viadutos, empresas, mais desmatamento em prol de lugares de comércio ou lazer artificial de pessoas que como nós um dia vão morrer. O planeta? Como vou saber? Eu sou uma profissional do teatro, não sou cientista, engenheira de trânsito ou policial ou governante. Mas somos todos seres humanos com carne, ossos e outras composições, que precisamos cumprir nossas funções direito pra que funcione o jeito de nosso país funcionar, que foi decidido por nós e nossos antepassados historicamente.

Mas não está funcionando, né? Eu não sei como avaliar o acontecido e acontecente. Se o problema pode ser resolvido sem prejudicar o meio-ambiente, sem desmatar e empobrecer a cidade, como não fazer dessa forma? Eu não vou ser inimiga nem muito menos ter medo de pessoas que são escolhidas e pagas por mim pra me protegerem e organizarem a porcaria da minha cidade. É demais. Mas a cidade é minha e é bom que se faça dela o que é certo e direito.

Quando eu nasci tinha um Parque do Cocó cheio de pássaros com espaço pra fazermos piquenique e curtirmos uma boa música, apelidado de pulmão da cidade. O que é que os meus netos vão pensar ao ler isso? Eu tomara que seja “Ah, vovó, massa, o Parque do Cocó, esse domingo vamos lá reunir a família”. … “É fácil chegar, é seguro ficar, e voltamos todos mais felizes, pra destrinchar a semana e vivermos nosso dia-a-dia com força renovada, alimentados pela beleza do Parque”.

Em Natal-RN existe um lugar divino chamado Parque das Dunas, com entrada no Bosque dos Namorados. Para quem não conhece, recomendo, sinto falta de um lugar assim em Fortaleza. Se alguém sabe, peço que me diga, tenho precisado. O Parque Rio Branco é complicado, cheio de assaltante, já me apresentei lá com o espetáculo Dom Poder e a Revolta da Natureza, e foi maravilhoso, mas num dia comum não me sinto segura. O Parque das Crianças? Hahhahahahahaha! Lindo… mas tem-se que olhar mais pra ele.

Tem outras coisas a se mudar antes, né? Talvez seja melhor decidir enclausurar-se? Como é que se pode pensar assim?…

Além de todos esses questionamentos, conjecturas e nostalgias, as pessoas precisam saber o que está acontecendo. Conversando com os envolvidos, muitas são as experiências, as vivências e as opiniões, e fico feliz em sentir-me contemplada por pensamentos que comungam com os meus, que apresento aqui. Se eu não estivesse lá, jamais seria contaminada com tamanho grau de indignação.

No fundo, há três questões muito importantes:

1. O desmatamento do Parque Ecológico do Cocó é errado, está sendo feito de forma leviana, e a construção dos viadutos não vai consertar os problemas do fluxo do trânsito como alega, além de prejudicar a beleza, a saúde e a segurança da cidade.

2. É errado a polícia agir com tamanha agressão, seja a mando de quem for. O mando é errado. Isso causa reverberações, como pedra sendo jogada pelos manifestantes. Está tudo errado, mas acima dessas agressões, certamente no nosso século XXI evoluímos para algo além do olho por olho e dente por dente da Lei de Talião. É errado tacar pedra, e é errado tacar bomba em quem tem só pedras na mão, principalmente se essas pessoas estão manifestando um direito assegurado por lei, que é a livre expressão. E principalmente se quem taca bomba tem a bomba pra proteger essas pessoas.

3. A população precisa saber o que está acontecendo! Presenciei quatro situações com pessoas que não estavam envolvidas diretamente com a manifestação, mas que por existirem têm um papel importante nessa história. É de tirar o fôlego:

Primeiro, uma mulher num ônibus passou chamando os manifestantes de vagabundos e maconheiros. Ao meu lado, trabalhadores e estudantes, e se algum fumava maconha ou tomava suco de cajá, isso não tem nada a ver com o acontecido. Não há raiva, a raiva estava toda para a injustiça, da mulher eu senti pena e explicamos a situação através de um rapaz que tirou a camisa e mostrou o efeito dos estilhaços de bala no seu flanco direito. Sorte que não pegou no rosto dele.

Outra pessoa, um aluno do Colégio 7 de Setembro, gritando por trás dos muros do colégio, a mesma coisa. No seu cotidiano ele deve ouvir pessoas como a mulher do ônibus. Não me assusta, até no jornal parece que é simplesmente assim. As pessoas que protegem a cidade são vistas como inimigos dela; não sei como essas histórias se sustentam, me pergunto como irão para os livros, porque pra isso é importante que seja pelo menos bem bolado, até para além de se é verdade ou não. E estamos vivendo uma contradição absurda e inverossímil do ponto de vista do que deveria ser a justiça.

Terceira situação, um homem que passava de carro inalou o gás lacrimogêneo e teve que descer, pois não enxergava mais direito, e faltava-lhe ar para respirar. Um banho de vinagre o salvou. Nunca vou esquecer o olhar dele, parecia que tinha acordado dentro de um filme de guerra e não acreditava que era um personagem daquela realidade paralela. Parecia demorar para entender que não importa o que ele estava indo fazer de carro, o Cocó estava sendo destruído e as pessoas estavam sendo massacradas, e ele precisava fazer algo diante daquilo. Precisava respirar.

Por último, foi muito marcante a visão dos moradores do prédio em frente, gritando por trás dos muros: “O Cocó é nosso!” Agora mesmo, choro, comovida. Eles são os primeiros que vão sofrer as conseqüências físicas das construções dos viadutos.

Depois disso tudo, matéria de jornal publica que “a Prefeitura vai apressar os trabalhos para compensar o tempo perdido”. Interessante que falam sobre um homem que apareceu nu em protesto, mas praticamente omitem os ferimentos, o sofrimento da população diante da ação da polícia, tão violenta.

Continuo precisando de um Parque… E a vida continua a acontecer.

*Juliana Veras é  atriz, educadora e pesquisadora de teatro e música. Integrante do Grupo Expressões Humanas.
Fortaleza-CE, Outubro de 2013

 

SAIBA MAIS!

https://www.facebook.com/aline.reboucas.731/posts/636884799696268?comment_id=7515447&offset=0&total_comments=2&ref=notif&notif_t=share_reply#!/juliana.veras.790/posts/638497646195547

https://www.facebook.com/#!/juliana.veras.790/posts/638804226164889

http://www.youtube.com/watch?v=vXUNG_kBZF4

http://www.youtube.com/watch?v=yCIpNu67r1I

http://www.cearaagora.com.br/site/2013/10/desocupacao-do-coco-tem-confrontos-e-manifestante-nu/

http://www.youtube.com/watch?v=MUV6FlxYWu0

http://www.opovo.com.br/app/galeria/2013/10/04/interna_galeria_fotos,1119/imagens-da-desocupacao-do-coco-pela-policia.shtml#.UlAkU-qn2gE.facebook

http://diariodonordeste.globo.com/noticia.asp?codigo=367661

http://g1.globo.com/ceara/noticia/2013/10/prefeito-de-fortaleza-afirma-que-viadutos-ficarao-prontos-em-12-meses.html

 

2 Comments

  • A vida está sempre nos ensinando. Muito bom sentir “flores no ar” bailando nesse horizonte que se descortina para a Juliana Veras. Belo texto, Ju. Parabéns!

  • Obrigada, Herê. Foi muito importante para mim acompanhá-los nesse dia ao Parque. Reverbere em flores :). Vamos em frente!

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