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Contos de liberdade – o voo da mineira de coração pernambucano!

Por Manu Gomes
emmanuellegomes@gmail.com
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Fotos: Manu Gomes

(texto escrito no início de 2015)
Há mais de um ano encasquei com a ideia de fazer uma espécie de mochilão por Pernambuco. A primeira motivação era a quantidade enorme de ídolos meus nascidos naquela terra. Ficava encafifada: como um estado relativamente pequeno, quase uma tripinha horizontal no mapa do Brasil, pode produzir tantas pessoas geniais? Pensando mais um pouco percebi que todos esses ídolos eram homens, daí nasceu outra pergunta: um lugar que foi berço de tantos homens geniais certamente há mulheres tão incríveis quanto, mas onde elas estão? E aí nasceu a maior de todas as motivações: conhecer histórias de mulheres que resistiram e ainda resistem bravamente ao patriarcado, lançando-se ao mundo, rompendo as barreiras da opressão.

Paralelo a isso também me encantava com a diversidade sem igual da cultura popular pernambucana e o modo como ela resiste às investidas das ‘mudernages’ que existem sim, claro, mas não apagam do imaginário coletivo a presença concreta e subjetiva da tradição popular. Do litoral, berço do frevo, ao sertão berço do xaxado e do baião há muitas maneiras distintas de se movimentar o corpo e contar as histórias daquele povo, sempre com muitas cores e com ritmo latente.

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De toda essa variedade uma palpitava mais o meu coração: o baião! Tinha um desejo profundo de conhecer o Sertão, em especial a terra do Rei Luiz Gonzaga. Queria respirar aquele ar que deixava tanta saudade em quem de lá era obrigado a sair. Queria entender a fonte de tanta poesia e de tamanho encantamento pela vida. Eu vivia em São Paulo quando despertei a esse desejo e um paradoxo não saía da minha cabeça: a cidade considerada locomotiva do país, cosmopolita, onde de tudo e de todos se encontra, as vezes parecia um emaranhado de despropósitos vazios, desencontros e um fluxo intenso de uma busca frustrada por um sentido que a maioria nem sabe qual é. O que resultava num número imenso de pessoas que não queriam estar ali, mas que acreditavam que deveriam estar em função da abundância de recursos. Do outro lado, aquele pedaço do mapa que por tantos anos fora esquecido pela maioria por ser sinônimo de escassez, parecia brilhar como sinônimo de abundância do que realmente importa na vida: o pertencimento!

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Meu desejo foi realizado com sucesso! Ao contrário do que nossa formação imperialista nos ensinou a entender como prosperidade e bem viver, o sertão me mostrou que eu não sabia de nada. Há menos subterfúgios para anestesiar a consciência e desfocar a essência. Isso, é claro, como disse uma grande mulher do Pajeú: aliando os saberes tradicionais às tecnologias, sem sebastianismos radicais. E isso eles fazem melhor do que ninguém. Conheci infinitas poetisas do cotidiano que lutam para não deixar a vida matar a vida. Minha grande surpresa foi perceber que essa fonte estava muito mais no céu do que na terra, ao olhar para cima vi um azul como nunca havia visto, capaz de irradiar e revelar a alma e ficar registrado eternamente na memória. Através daquele azul concretizei subjetivamente outro objetivo: plantei liberdade e voei!

Como não só de Sertão (como se fosse pouco) vive Pernambuco, aquilo que me admirava à distância pela diversidade da cultura popular e pela produção incalculável de pessoas geniais só aumentou meu apreço. Apaixonei-me pelo Recife Antigo e foi só a primeira das paixões. Na primeira semana a frase que não saía da minha boca era: eu poderia morar aqui! Referindo-me a um bar na Praça do Arsenal, ou ao Paço do Frevo, ou ao Cais do Sertão. Até uma caixa de correio e um poste de iluminação me despertavam encantamento.

E por falar em encantamento, o que dizer das palavras? A cidade berço de Paulo Freire, onde ele desenhou no chão pela primeira vez algumas palavras à sombra de uma mangueira, não poderia decepcionar nos nomes escolhidos para definir coisas e lugares. Como não se apaixonar por Apipucos, Capibaribe, Beberibe, Imbiribeira? E mais: rua das Ninfas, do Sol, da Boa Hora e da Aurora? Não é de se espantar que isso também vire poesia e música na voz do meu querido e inspirador Alceu Valença.

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E ainda teve cortejos de maracatus, a noite dos tambores silenciosos foi uma das coisas mais lindas que já vi na vida. Teve o frevo (e como teve frevo). Teve a Zona da Mata onde passei dias incríveis imersa entre mamulengos, cavalo marinho, além de caboclos e caboclas de lança. Teve Agreste, muito rápido, mas o suficiente para me deparar, no Alto do Moura, com o Flamboyant vermelho mais deslumbrante que já vi na vida! E o suficiente para querer revê-lo e revivê-lo o São João.

Incontestavelmente volto infinitamente mais rica. Com uma sede profunda desse saber e com uma única certeza: voltarei!

Abaixo mais fotos registradas por Manu Gomes na jornada por Pernambuco!

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2 Comments

  • Patrícia Cássia Duarte on

    Manu Gomes, você não só escreve. Sua escrita é melódica. Seu relato é vivo cheio de notas musicais, de diferentes acordes, arranjos e tons. Ao ler suas palavras ouço a sinfonia do que é intenso em você e no outro – ou no lugar, ou junto dos cantadores ou junto das outras “poetisas do cotidiano que lutam para não deixar a vida matar a vida”. Ter a coragem para abrir gaiolas, libertar as asas e voar levando consigo aquelas e aqueles que livremente quiserem te acompanhar ou simplesmente, que quiserem alçar outros voos, é para pessoas raras. Isto é coisa de gente que tem o coração grande e que acredita que o céu é só a imagem de um infinito de potencialidades.
    “Plantei liberdade e voei!” Pois então, voe ainda mais longe menina que não é anjo, você tem asas na alma. E quando voar, não deixe de nos brindar contando os voos de sua liberdade. Muito Asè pra você e para o trabalho que continua! Gratidão pela bela melodia e Parabéns!

  • Do caralhooo ( e da periquita ) Manu! Como já imaginava. Logo que eu ficar rico (de grana) de novo, vou te contratar pra andar por aí e trazer estes relatos pra gente. Adorei. beijão do seu amigo. Benito

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