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[CARCARÁ TAROT] As dores e os ensinamentos do naipe de Espadas no Tarô

| Por Aristeu Portela Jr* |

Sob um céu cinzento e numa terra lamacenta, uma mulher está em pé completamente amarrada por faixas brancas, com seus movimentos restringidos e os olhos vendados, a cabeça voltada ligeiramente para baixo. À sua volta, oito espadas cravadas no chão parecem cercá-la, como que estabelecendo os limites da sua prisão. No todo, uma situação de completo desconforto, em que o fechamento para si e para o mundo parecem ser a tônica.

Essa é a imagem da carta 8 de Espadas conforme pensada por Pamela Colman Smith (1878-1951), para seu hoje clássico tarô criado em conjunto com Arthur E. Waite (1857-1942), lançado originalmente em 1910. Numa tiragem, ela usualmente simboliza nosso autoprisionamento em situações, em padrões de comportamento e pensamento que nos levam à paralisia no agir e à angústia. É uma imagem de tensão e claustrofobia – muitas espadas, pouco espaço para respiro e alívio.

Não é uma carta em geral recebida com muita empolgação, dada sua iconografia algo perturbadora. E nisso ela espelha perfeitamente o conjunto de que faz parte nos arcanos menores do tarô. As dez cartas numeradas do naipe de Espadas tendem a provocar preocupação, pois nos levam diretamente para os estados emocionais de mais difícil confrontação. É o naipe das verdades duras, do encarar aquilo que preferíamos evitar – e por isso é tentador fugir das suas mensagens, ao invés de buscar nos estados de vulnerabilidade que suas imagens representam a chave para os aprendizados necessários a uma maior serenidade no lidar com nossas questões e com o mundo ao redor.

“Acolher o indesejável” – e copio descaradamente aqui o título do livro da monja budista estadunidense Pema Chödrön – é, talvez, o estado de espírito que devemos buscar ao lidar com o naipe de Espadas. Sim, ele trata de um ciclo de dor e sofrimento. Mas, sendo essa sua tônica, não esqueçamos que nossa perspectiva de trabalho com o tarô pode ser aquela da busca do aprendizado de si – e, assim, não desconsideremos que, ao tratar do processo penoso de confrontação com nossos lugares difíceis, as Espadas nos convidam a pensar em como nos relacionamos internamente com nossas dores, de um lado, e como as expressamos para o mundo, de outro.

Por tudo isso, é um naipe associado sobretudo com os processos mentais, com nossa capacidade de racionalização e de comunicação – conosco e com as demais pessoas. As Espadas são um alerta para que não deixemos de lado o movimento de conhecer os padrões de funcionamento da nossa mente, como ela usualmente nos enreda em armadilhas, mas também como dela mesma podem partir nossos mecanismos de soltura.

Esse naipe – e, sobretudo, suas cartas numeradas de 1 a 10 – é, portanto, uma narrativa dos aprendizados possíveis de surgirem a partir das dores. Ou, dizendo melhor, do entendimento e comunicação das nossas próprias dores. Por que eu sofro? Como lido comigo mesmo quando estou nesse estado? E com os outros? O que dificulta a expressão do meu sofrimento? São questões essenciais para que não vejamos as cartas de Espadas como um poço do qual não há saída. Elas não são predeterminações para o sofrimento, mas talvez um lembrete para que não nos percamos nele, e que da atitude de confrontação com as dores podemos tirar os aprendizados para uma vida mais serena e satisfatória.

Mencionei acima a monja Pema Chödrön, e recorro novamente a ela, no seu lembrete de que o “primeiríssimo ensinamento de Buda” é que “o sofrimento existe” como parte da experiência humana. Ora, justamente porque a experiência do sofrimento nos liga enquanto seres humanos, ela também é uma chave possível para desenvolvermos a compaixão por nós mesmos e pelas outras pessoas, para elaborar a capacidade de nos relacionarmos com a fragilidade, a instabilidade e o medo em nossos próprios corações, assim nos habilitando para lidar com mais destreza e serenidade quando esses sentimentos são desencadeados pelo mundo exterior. As circunstâncias indesejáveis e desfavoráveis da vida, diz Pema Chödrön, podem ser verdadeiros materiais para nosso “despertar” (o que significa esse despertar talvez seja algo a ser buscado por cada uma e cada um nos seus caminhos específicos de vida…)

Vejamos dois rápidos exemplos dessa possível relação entre dor e ensinamento no naipe de Espadas. Comecemos com a carta 3 e a interpretação que a ela dá Pamela Smith, com sua trágica imagem de um coração trespassado por três lâminas, tendo ao fundo um céu chuvoso e cinzento. Não surpreende que essa carta trate do sentimento de estar ferida(o), da dor advinda da preocupação, da decepção, da angústia e outros estados semelhantes. Aqui estamos numa posição em que o pensamento e a fala (pois, lembremos, esse é o naipe da comunicação) machucam, criam ou despertam feridas em nosso ser.

Mas também, justamente por isso, essa é uma carta-convite para entendermos e expressarmos aquilo que nos machuca. Como minha mente se deixa afetar quando a dor é provocada de fora? Por que reajo à dor de um modo determinado? Como posso comunicá-la para buscar melhor entendê-la? O 3 de Espadas trata do processo difícil (pois em geral lento e penoso) de converter a dor e o sofrimento em sementes de autocompreensão, e desse modo pavimentar a estrada que leva ao aprendizado e à superação do que, em si mesma(o) e na vida, são obstáculos à felicidade que se busca. No Tarô Alquímico de Robert Place, esse coração ferido chora a lágrima que alimenta a rosa no solo. Alguma vida surgirá desse choro dilacerante, não nos esqueçamos.

No 10 de Espadas de Pamela Smith, uma figura humana, derrubada no chão e de costas para nós, é cravejada por dez lâminas, tendo ao fundo um céu dividido entre nuvens carregadas que partem e um sol ainda por nascer plenamente. No seu livro ‘A chave ilustrada do tarô’, Arthur E. Waite, co-idealizador deste deck, diz que a carta remete à “dor, aflição, lágrimas, tristeza, pesar” – quase que como um (parco) consolo, ele também afirma que ela não necessariamente “representa a morte violenta”. Talvez ao próprio tenha faltado a sensibilidade da artista, que colocou nossa pessoa sofredora encarando, ainda que prostrada na terra, um nascer do sol. Parece-me que, se aqui tratamos de um certo ápice da dor, também podemos enxergar o limiar em que ela é transcendida para o surgimento de algo novo.

Na versão de Robert Place, a “vítima” (é assim que o autor denomina a carta) é apunhalada no coração por dez espadas – mas não sem um aparente sorriso sereno em seu rosto. Curiosamente, há também um livro aberto ao seu lado, prestes a ser atingido pela poça de sangue que parte da vítima. Tendo a ver aqui alguma relação entre o livro e a aparente morte da nossa figura – talvez se tratasse de alguém dedicado ao estudo dos seus processos interiores, cujas investigações o habilitaram a tentar fazer do sofrimento uma passagem para um estado de espírito mais verdadeiro e satisfatório. Poderia essa dor ser, afinal, uma antiga versão de si mesmo(a) agonizando seus momentos finais, antes de abrir espaço para uma nova? Que versão nossa é possível de ser construída quando aprendemos a lidar com nossos estados de sofrimento para deles emergir?

Pode também ser significativo que estejamos falando aqui da última das cartas numeradas, antes da narrativa do naipe prosseguir pelos arcanos da corte. De que serviu todo o ciclo de sofrimento por que passamos nas cartas de 1 a 10? Como nos abrir para o nascer do sol ou a nova versão de nós mesmos simbolizados nas cartas de número 10? Talvez, no fim das contas, o naipe de Espadas nos ensine que alguns aprendizados de fato só partem de lugares difíceis. Ou que está dentro das nossas capacidades transformar esses lugares em pontos de virada no modo como lidamos com nós mesmas(os) e com o mundo. É um naipe que estimula a coragem, o não fugir de nós, o encarar nossas dificuldades como mestras que podem conduzir para uma versão de si mais condizente com nossos desejos.

 

*Aristeu Portela Jr. é tarólogo, pesquisador e professor. Integra a Carcará – Escola de Tarot, e atua com o tarô como ferramenta de auto investigação e transformação.

Fone / WhatsApp: (81) 996093294
Instagram: @aristeuportela

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