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[CANTO DE LU] No tempo de eu moça, nem celular existia

Ventilador Cultural, coletivo de Mídia Livre que atuou entre 2005 e 2012

Por Lu Rabelo (Iamana Cy)* |

No tempo de eu moça, nem celular existia.
E o que eu achava mais incrível, desde criança, era como Os Jetsons se comunicavam, se vendo através de uma tela, e voando em pequenas naves.

Quando minha filha nasceu, em 1995, internet era pra poucos.
Nem sabia que existia.
Nem sabia o que traria!

Cursando Jornalismo, as tarefas eram tecladas em máquinas de escrever.

Mas muito antes de pensar em fazer Jornalismo, mainha me matriculou num Curso de Datilografia, quando eu tinhas uns 16 anos, pra eu estar mais apta ao mercado de trabalho (asdfg asdfg…).

No meu primeiro estágio – na Secretaria de Imprensa de Pernambuco (Simp) – redigia o apurado em máquina de escrever. Não existia delete. E tínhamos copydesk (o incrível e sábio jornalista [e compositor, isso na época eu não sabia] Heleno Ramalho, com quem tanto aprendi!)

Roberta Tótora – criadora da vanguardíssima Porto do Céu – foi a primeira amiga que teve internet em casa. Com ela, dei meus primeiros passos no mundo digital (e foi também ela que me apresentou a Astrologia e o Tarot). Em 1998 painho comprou um computador e então passei a ter internet (discada, via provedor Elógica). Acho que foi por aí também que comprei meu primeiro celular ( com número da antiga operadora BCP), um tijolo com antena e tudo. As redações onde trabalhava já estavam informatizadas, o que facilitou muitíssimo a elaboração das matérias e as pesquisas (nesta época não tinha Google, o buscador era o Alta Vista).

Após alguns anos atuando na imprensa governamental, virei militante do Direito à Comunicação. Trabalhava numa TV Comunitária, no Recife, o Canal Capibaribe. Câmeras e edição analógicas, foram minha escola. Muitas vezes transmitíamos o material bruto, assim que chegávamos de uma filmagem, direto da câmera para o transmissor. Achava aquilo tudo incrível demais. E era!

O processo de edição analógica era uma doidêra. Às vezes as duas mãos não davam conta de apertar os pitocos tudo na mesma hora, aí usava os pés.

Foi lindo quando comprei minha primeira filmadora digital. Uma handcam que gravava em fitas minidv. Só andava com ela a tiracolo, filmando tudo que me interessava e transmitindo no Canal Capibaribe.

O acesso à nossa TV Comunitária, contraditoriamente, era apenas pra quem assinava a Cabo Mais. Poucos tinham acesso! Nem eu podia assistir de casa a programação da TV que eu trabalhava. E trabalhava voluntariamente, e ganhava tanto! Foi lá que vi os padrões de comunicação sendo quebrados – graças à ousadia da equipe comandada por Aurélio – e me senti à vontade para quebrar também.

Foi nessa época que conheci o Media Sana, coletivo de artistas se comunicando de forma multimidiática, juntando música e arte visual. Fiquei de cara com o trabalho! Me encantei!

Foi com Gabriel Furtado, Queops Negão e Igor Medeiros, artistas do Media Sana, que aprendi a botar uma rádio livre no ar. Certa vez, no Carnaval Revolução em BH, fui incubida, junto a Anaíra Mahin, de trazer ao Recife o transmissor doado pela Rádio Muda à nossa querida e doida Rádio Livre-Se. Foi nesse período também que integrei o CMI-Recife (Centro de Mídia Independente), com um povo instigado.

Época em que a Telephone Colorido já detonava com seus filmes de arte e documentários, a TV Viva já vinha na luta desde 1984, e o Sopa Diário, com Roger de Renor, tava diariamente ao vivo na TVUAs rádios comunitárias Alto Falante, no Alto José do Pinho, e Boca da Ilha, na Ilha de Deus, já enchiam o ar daquelas comunidades com suas próprias vozes. A Rádio Frei Caneca era debate antigo. Que bom que hoje está no ar!

Época do nascimento do Ventilador Cultural, meu querido e eterno coletivo de comunicação livre, formado por mim, Irma Brown e Anderson Lucena [nosso presidente! Mas quem mandava mermo era eu e Irmã :) ], com o importantíssimo apoio da Academia de Desenvolvimento Social. Neste link tem o vídeo-release do Ventilador Cultural!

Na Academia de Desenvolvimento Social conheci a Rede de Resistência Solidária e o movimento Hip Hop, tendo o prazer de tomar assento nas reuniões do coletivo durante alguns meses e fazer o registro audiovisual de um dos primeiros Mutirão de Grafitti, promovido pela Rede.

Tenho um acervo muy precioso em minidv. Muitos shows de diversos artistas, em cantos diversos de Pernambuco. Muita imagem da Rádio Livre-SE, MST, FSNE (Fórum Social Nordestino), Xukuru, Panakararu, Grito do Excluídos, Movimento pelo Passe Livre, eventos do Fopecom (Fórum Pernambucano de Comunicação), Programas do Canal Capibaribe, Macuca, primeiro Pré-AMP, várias entrevistas… Preciso capturar esse material e compartilhar, que são muitas lindezas!

Mas foi através de um cordel, o meu primeiro folheto, O Cordel da TV Digital, que em 2006 consegui melhor expressar minhas indignações com esse sistema de comunicação corrompido. O poder da Poesia Popular é tão forte, que, graças às sincronicidades, o mestre Gilberto Gil fez ecoar nossa voz pra mais gente.

Nesse tempo, o danado do Gil, então ministro da Cultura, foi vital, criando e fortalecendo os Pontos de Cultura.

Quero registrar também que tive a honra de ser educadora de importantes projetos sociais de comunicação e arte, especialmente a Oi Kabum! Recife/ Auçuba e o Centro de Comunicação e Juventude (CCJ – Recife), escolas de contra-cultura, autoconhecimento, transformação.

Comecei este texto por conta de uma reflexão atual sobre a influência da internet em nossas vidas, na minha vida.

Mas antes de falar dessa reflexão devo reconhecer que é graças à internet que este Portal Flores no Ar existe, desde 2009, e me dá liberdade de publicar o que eu quiser, em diversas linguagens, de qualquer lugar deste planeta (desde que eu tenha um aparelho conectado à rede). Isso é massa! Trabalhar como editora deste amado almanaque digital, não precisando me prender geograficamente, tem sido uma libertária escolha.

Como militante pela democratização dos  meios de comunicação, comemoro demais que, nos tempos atuais, quem tem internet pode se expressar e compartilhar em qualquer linguagem, pra todo canto do planeta. E viva o acesso a tanta diversidade!

Mas o princípio da reflexão veio da questão que não tá sendo fácil viver monitorada e monitorando, via whatsapp, facebook, instagram, google… Às vezes sinto saudade de quando só tinha telefone fixo, orelhão. As comunicações se davam em outro nível.

Meu filho, nascido em 2007, não conheceu o mundo sem internet. E a atual paixão dele é Minecraft e The Sims.

O desafio é: como usar toda essa tecnologia digital com parcimônia e sabedoria? Como lidar com as redes sociais e tantas vaidades, apegos e afetações? É preciso também se desconectar para se reconectar consigo.

Que as Deusas e os Deuses nos guiem nessas tantas dimensões!

* Lu Rabelo (batizada com o nome de Iamana Cy, no Ritual Juremar Yaci Uaruá) é cantadeira arteterapeuta, jornalista e editora do Portal Flores no Ar. É estudiosa de Xamanismo, Astrologia e Tarot.

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