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[CAIXA DE PANDORA] O coração que renasce entre dores e cores – Parte 2

Por Juliana Florencio* |

Este texto é parte do trabalho que escrevi para a conclusão do Curso de Formação em Arteterapia pela Traços/Faintvisa, em 2014.
Na primeira parte abordei o mito de Dioniso
Nesta última parte, relaciono o mito ao processo arteterapêutico.

O artigo surgiu a partir da experiência de estágio em arteterapia no qual foram realizadas vivências com mulheres com diagnóstico de depressão associado a queixas somáticas. Uma imagem bastante recorrente durante o processo foi o coração e, a partir dela, houve a aproximação com Dioniso e o que conta o mito sobre seu coração sobrevivente.

Tendo em vista o sofrimento dessas mulheres, considerando o esquartejamento do corpo em áreas apropriadas pela medicina, o rapto das imagens do coração pelo preenchimento da palavra escrita religiosa, a realidade de alienação do corpo e o rechaçamento de aspectos do feminino, o processo arteterapêutico grupal configurou-se como uma forma de criação, transformação e ampliação de possibilidades de existência mais autênticas no mundo.

O CORPO É DIONISO

“Qualquer coisa experimentada fora do corpo, num sonho, por exemplo, não é experimentada, a menos que ‘incorporemos’, porque o corpo significa o aqui e agora” (JUNG, 1930)

Existem abordagens consideradas profundas que buscam romper com a dicotomia mente-corpo. Seguindo a perspectiva junguiana, podemos dizer que uma doença pode existir para recolocar uma pessoa no seu caminho de individuação. Processo de individuação, segundo Almeida, “é a luta da pessoa para tornar-se aquilo que realmente nasceu para ser” (2009).

De acordo com Jung:

“Processos do corpo, processos mentais desenrolam-se simultaneamente e de maneira totalmente misteriosa para nós. É por causa de nossa cabeça lamentável que não podemos conceber corpo e psique como sendo uma única coisa”. (apud FARAH, 1995)

Considerar o corpo traz uma mudança crucial nas reflexões e práticas terapêuticas.

“A possibilidade de sentir melhor as sensações corpóreas modifica a imagem corporal, aumenta a consciência corporal. Há uma valorização deste corpo, muitas vezes esquecido. Há uma nova organização do próprio corpo, da energia psíquica, e uma nova identidade, um novo ego se estrutura a partir das novas dimensões corporais, observadas também pela psique” (ALMEIDA, 1999, ALMEIDA, 2005).

De acordo com López-Pedraza, a repressão do Dioniso emocional leva à repressão do corpo. “Poderíamos dizer que existe um Dioniso em nosso corpo, que está esperando a fim de ser contatado e nos dar acesso à riqueza de suas emoções e sentimentos.” ( 2011)

Ao retomar o mito, veremos que Dioniso é considerado um deus estrangeiro, vindo do Oriente. Os gregos já possuíam esta ambiguidade em relação ao deus, pois Dioniso é grego e estrangeiro ao mesmo tempo – apesar de ser contado como estrangeiro, sua mãe era tebana.

O autor traz a rica interlocução do caráter estrangeiro associado a Dioniso com o distanciamento em relação a nossos corpos. Dioniso é o que vem de fora, bem como nossos corpos, estranhos a nós mesmos. “viver no corpo é sumamente difícil e está distante de nós, tão distante como a forma com que os gregos imaginaram a origem de Dioniso.” (LÓPEZ-PEDRAZA, 2011)

Durante o estágio, tivemos experiências de forte conteúdo emocional nas atividades que mobilizaram o corpo diretamente. Tais experiências causaram prazer, mas também, desconfortos e estranhamentos.

“(…) mas podemos começar a ter consciência do corpo psíquico quando nos tornamos conscientes de nossa alienação diante do corpo, quando nos tornamos conscientes de como é fácil perder nossa relação com ele. Mediante essa consciência poderemos, pacientemente, estabelecer uma relação com o corpo e talvez construir uma conexão psicológica com ele ” (Ibdem)

As participantes associavam o prazer, no contato com seus corpos, à retomada de experiências muito anteriores, como as da infância, uma conexão perdida. Falaram, também, de uma entrega profunda a elas mesmas.

O contato com o corpo também causou medo, receio e uma certa reverência nesta experiência. Isto me remeteu a uma imagem: fiéis adentrando por câmaras de um santuário. À medida que se aproximam dos locais mais sagrados, mais internos do templo, ocorre o rebaixamento do nível de consciência e uma maior entrega à experiência. Os temores advêm da proximidade com o deus, pois, como já vimos, sua epifania direta é fulminante. Tais vivências podem levar a estados limites de loucura e a possibilidade de sair dela. Trata-se de um fenômeno do campo do dionisíaco.

“Dioniso, filho de Zeus, é portador de loucura. (…) Dioniso é, em si mesmo, causa e libertação da loucura (…) Poderíamos dizer que esta dupla natureza está no coração de rituais dionisíacos, como os das mênades. Este Dioniso que enlouquece as pessoas e que as liberta da loucura, pode ser percebido como uma dinâmica psíquica que só se torna evidente quando for expressa por uma imagem extrema. Mas pode ser também a expressão natural do ritmo dionisíaco da psique. (…) Esta possibilidade de experimentar a loucura e livrar-se dela pode ser considerada como outro tipo de iniciação dionisíaca.” (Ibdem)

Em uma atividade, na qual cada participante tocava seu próprio corpo, uma das mulheres gemia em voz alta, seu corpo tremia e parecia mover-se involuntariamente, após este momento, disse que se sentiu abraçada por deus, como se estivesse nos braços de deus.

Essas atividades que mobilizaram diretamente o corpo tiveram uma relação com as produções que surgiram no processo arteterapêutico. Parece que potencializaram, de certa forma, o fluir de imagens. Corpo e órgãos foram vividos e transformados. Podemos citar algumas vivências: elas convidaram seus próprios corações para uma dança, escutaram-se com estetoscópio e depois trabalharam com o que foi escutado, deram formatos, cores, voz, escritos, texturas para órgãos do corpo.

Um deus que habita o corpo e se manifesta por ele, um deus acordado através do corpo: este é Dioniso.

ARTETERAPIA E O CORAÇÃO SOBREVIVENTE

Acreditamos que a arteterapia tem um caráter eminentemente terapêutico, mas pode transcender o circular em torno do sofrimento e seguir em direção à ampliação de possibilidades de vida: reapropriação de imagens, processo de individuação.

De acordo com Philippini:

“Neste lugar que é real, mas também imaginário, representa-se o percurso criativo da individuação, comunicando seu caminhar por meio da configuração de imagens, dos conteúdos inconscientes até a consciência, por intermédio da expressão e da elaboração de afetos, eventualmente por “cartasis”, mas sempre priorizando a expressão e a materialização de emoções em formas, cores e volumes, buscando a posterior compreensão de seus significados.” (2011)

O trabalho arteterapêutico pode aumentar o espectro de possibilidades. Para isso é necessário estar no corpo. Não acreditamos num padrão linear de causalidade, mas numa proposta clínica transcendente à interpretação das produções. Dessa forma, a vivência em si, o momento de criação e a autenticidade das imagens tornam-se o cerne do processo.

Neste sentido, a contribuição dos pós-junguianos, mas precisamente da psicologia arquetípica de Hillman, nos coloca em outra relação com a imagem.

“Uma das diferenças fundamentais entre a clínica junguiana tradicional e a clínica da psicologia arquetípica refere-se ao modo como a noção de “arquetípico” aparece em seus modus operandi. Diríamos que na clínica tradicional, o “arquetípico” aparece no início como lugar fundante e originário, enquanto que na perspectiva da clínica da psicologia arquetípica, a mesma noção será pensada como efeito de uma operação, desdobramento de uma perspectiva, resultado de um movimento, isto é, o “arquetípico” surge como valor adjetivante a ser atribuída à imagem e não como condição substantiva a priori. Consequências clínicas? Todas as possíveis, inclusive o deslocamento de uma clínica dos arquétipos para uma clínica das imagens.” (QUINTAES, 2014)

Uma imagem bastante recorrente durante o processo de estágio foi o coração. Em muitas produções os corações emanavam raios amarelos, pulsantes: o coração-sol que aquecia e trazia vida.

Hillman retoma a formulação de Aristóteles de coeur de lion que seria comparável a dos alquimistas seguidores de Paracelso:

“Eles concebiam o coração microcósmico em nosso peito como o lugar da imaginação, em conformidade com o coração macrocósmico do mundo, o sol. O coração animal aqui indica o sol animal lá, num mundo animado. O mundo é um lugar de imagens vivas, e nosso coração é o órgão que nos diz isso. (…) Se o coração é o lugar das imagens, um coração infartado refere-se a um coração recheado (farctus = recheado, preenchido, abarrotado, engordado) de seus produtos, imagens. Está obstruído por suas próprias riquezas sulfúricas que não entraram em circulação. Ou foram constrangidas por estreitamentos e ficaram sem passagem, ou foram vistas apenas como ações literais no mundo, em vez de também ser vistas como imaginações do coração, pertencentes a sua circulação interna. (…) Essas explicações dizem que somos atacados no peito por nosso próprio leão, nosso coração cheio de himma, cuja magna flamma insiste para enthymesis nunca cesse, que cada batimento específico do coração devore nossa vida e só possa ser curado se reconhecido como um pensamento do coração.” (HILLMAN, 2010)

O conceito de himma torna-se importante em nosso percurso. De acordo com Hillman “Himma é o modo pelo qual as imagens, que acreditamos criar, nos são apresentadas não como tendo sido criadas por nós, mas genuinamente criadas, como criaturas autênticas.” (2010)

Esta perspectiva transforma a abordagem clínica, pois tira o enfoque do subjetivismo e o coloca no imaginal.

Neste ponto, a arteterapia pode potencializar a aparição destas imagens. Imagens que têm vida própria.

Durante uma vivência no processo de estágio, um útero pequeno, frio e deformado que, segundo a participante que o criou, era o útero de sua mãe, ficou ressoando e quando a atividade estava aparentemente concluída, a mesma participante, em um rompante, o transformou em flor, era seu próprio útero agora que tinha gerado uma filha. Este momento me remete a Zeus que, num gesto, arrancou seu filho da barriga de Sêmele que morria. Tal ação garantiu a sobrevivência de Dioniso.

A participante em questão já era acompanhada, por mim, em processo psicoterápico individual, tanto nesta etapa, quanto no processo grupal, circulava em torno de um complexo materno. Aquele gesto abrupto configurou-se como transformação, possibilidade, ampliação.

Tal acontecimento causou um impacto no grupo. Nós ficamos mobilizadas com aquela imagem. Fomos tocadas. Entramos em um grau de comunhão silenciosa, algo como mênades.

Este episódio também causou um empoderamento nas mulheres: criar era possível e as imagens tinham seu próprio poder.

CORAÇÕES SOBREVIVENTES

Um processo de adoecimento não é desprovido de sentidos. Pode surgir manifestando o desmembramento – o despedaçamento do nosso Dioniso. Como vimos, esses titãs podem ser muitos, pois tem presença garantida e difusa em nossa sociedade.

Temos nossa porção titânica também, incorporada, somos filhos e filhas de titãs, conforme conta o mito, e estes são difíceis de reconhecer, pois não têm forma. Manifestam-se, sobretudo, pelo excesso.

Estar mergulhado no titânico implica em furto ou sufocamento das imagens do coração, do viver imaginalmente.

Por outro lado, o adoecimento pode constituir-se como uma entrada para introversão, para que possamos entrar em contato com nós mesmos. Esta possibilidade nos é dada a partir do corpo, nossa instância mais imediata que tem se constituído como estrangeiro – o corpo traidor, o Dioniso que vem do Oriente.

“Por causa dos esforços do homem para sobreviver, a extroversão se desenvolveu em detrimento da introversão, que poderia ter-lhe proporcionado um maior conhecimento de si mesmo e uma visão interior. Este enfoque evolucionista nos ajuda a perceber a torpeza e a deficiência de tudo o que está relacionado com a vida interior. Situando-os neste contexto evolutivo, os tipos psicológicos junguianos, extrovertido/introvertido, adquirem uma nova dimensão. A tendência para a extroversão se converte numa necessidade compulsiva de sobrevivência. Isto pode ser conectado ao impulso exagerado do titã. Diante desta desvantagem evolutiva, não devemos nos surpreender com o fato de qualquer método seja válido, inclusive a flagelação, para introverter, para tentar entrar em contato com esta faísca divina de nosso interior Cobra sentido que Jung tenha adotado a máxima dos alquimistas sobre o opus como um trabalho contranaturam, para empregá-la como metáfora da sua concepção da psicologia. O ser humano não de desenvolveu em direção da sua vida interior; por isto esta sempre será a aventura de uns poucos, daqueles cuja extroversão própria do ser humano é, ao mesmo tempo, um conflito e um desafio”. (LÓPEZ-PEDRAZA, 2011, p. 42 – 43)

Estar no corpo, é estar em si. É poder voltar pra si.

Essas mulheres, participantes do estágio, possuem corações sobreviventes, apesar de todo titanismo, suas próprias dores e depressão as trazem para o corpo. O potencial para renascer, a partir do coração, sobreviveu. Mas, para isso é necessário viver Dioniso: sua loucura, a tragédia, a arte como metamorfose, a melancolia e os estados introvertidos, as dores de um desmembramento, as alterações do estado de consciência, a comunhão com as mulheres e com o corpo.

Os corpos dessas mulheres, cheios de dor, não as permitem que elas os esqueçam, gritam para que seus corações não morram.

Algo se move nelas e elas chegaram a arteterapia para que as imagens de seus corações pudessem fluir.

“A resposta a essas pessoas começa numa imaginação ativada, em himma, o ardente testemunho do coração de pessoas imaginais independentemente do coração que as enxerga. Não estancadas, observadas – e nós vistos pelos poderes; nós em sua luminosidade, observados por eles, guardados, lembrados; presenças visíveis, iluminando nossa escuridão com sua beleza” (HILLMAN, 2012, p. 39).

No estágio, muitas vezes, me senti atordoada com tanto “passar mal” durante as vivências. Eram muitas e recorrentes as queixas de dor, ocorreram desmaios, vômitos, choros, gritos, perda de consciência.

Cheguei a pensar que essas manifestações atrapalhariam as atividades. Mas, fico feliz, que há tempo, pude me transformar e entender que estes fenômenos eram as vivências também. A partir desses corpos gritantes, pudemos nos conectar com Dioniso e com toda riqueza de possibilidades do coração. 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, L. H. H. A psicologia junguiana e o corpo no processo de individuação. In: ZIMMERMANN, E. B. (org). Corpo e Individuação. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.
AMARANTE, Paulo (org.). Loucos pela vida: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil, 1995.
FARAH, R. M. Introdução. In: ZIMMERMANN, E. B. (org). Corpo e Individuação. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.
GUIA DE DIREITOS HUMANOS. Disponível em: .
HILLMAN. J. O pensamento do coração e a alma do mundo. São Paulo: Verus, 2010.
LÓPEZ-PEDRAZA, R. Ártemis e Hipólito – Mito e Tragédia. Rio de Janeiro: Vozes, 2012.
____________. Dioniso no Exílio – sobre a repressão da emoção e do corpo. São Paulo: Paulus, 2011.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Política nacional de atenção integral à saúde da mulher: princípios e diretrizes, 2004.
PHILLIPPINI, A. Arteterapia: Métodos, Projetos e Processos. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2010.
__________. Grupos em Arteterapia: redes criativas para colorir vidas. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011.
QUINTAES, M. Disponível em: .
RAMOS, D. G. A psique do coração – Uma leitura analítica do seu simbolismo. São Paulo: Cultrix, 1990.
VICTORIO, M. Impressões Sonoras – Música em Arteterapia. Rio de Janeiro: Wak, 2008.
VIEIRA, E. M. A medicalização do corpo feminino. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2002.
ZIMMERMANN, E. B. (org). Corpo e Individuação. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.

* Juliana Florencio é recifense de coração, apaixonada pelos estudos de astrologia, mitologia e 
psicologia analítica. É psicóloga, arteterapeuta e consteladora familiar sistêmica. 
Realiza atendimentos presenciais e também online.
Escreve a coluna CAIXA DE PANDORA, no Portal Flores no Ar.

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