Fique por dentro das novidades do Flores no Ar!
  • Facebook
  • Twitter

Arquivos

Flores no Ar Logotipo do Portal Flores no Ar

[CAIXA DE PANDORA] Mídias Sociais e Narcisismo

Ilustração: @vertigo.artography [Copywrite 2019]
Por Juliana Florencio* |

Sabe esses perfis do Instagram de profissionais ou pessoas públicas que te seguem e, assim que você segue de volta, deixam de te seguir?

Ou, aqueles que, quando você não segue de volta, ficam te excluindo e te adicionando para chamar sua atenção?

Pois é… Isso pode fazer parte do que tem sido chamado de marketing de relacionamento: um contato mais direto com as pessoas com o intuito de venda ou promoção, sem parecer que esta é a intenção.

O problema é que, aparentemente, o interesse pela pessoa encerra-se quando esta é capturada.

Que tipo de relação estamos construindo com essas atitudes?

Na minha opinião, unilateral e de características narcisistas.

Veja só, alguém chama a sua atenção e quando você age reciprocamente, este para de te seguir.

Alguém entra no seu espaço, dá a entender que se interessa diretamente por você, mas, na verdade, queria apenas que você o seguisse.

Poderia-se argumentar que isso é válido para as mídias sociais, pois as pessoas querem vender, querem se promover e, para isso, precisam de curtidas, de seguidores.

Mas, vejamos por outro lado. Sabe aquela sensação de estar sendo usado? Se você já se sentiu assim em uma situação parecida, que bom! Esse é o tipo de indignação que abre caminhos pra reflexão.

Se olharmos com maior atenção, perceberemos que este comportamento não se limita ao Instagram.

Esse fenômeno é a extrapolação e ampliação do que eu chamo de “avareza erótica”, presente no nosso cotidiano e que está sendo alimentado pelas redes sociais.

Isso fica bem evidente, quando torna-se uma medida de valor, ter muito mais seguidores do que se está seguindo.

Esse termo “seguidores”, por si só, já soa bastante estranho. Parece ter um caráter hierárquico – as pessoas que seguem e as que são seguidas.

Que forma de relacionamento é essa?

Que economia afetiva é essa?

Alguém precisa receber mais do que dá pra se sentir importante?

Há pouco tempo, a propaganda era voltada para vender produtos e você sabia, a grosso modo, quando estava sendo alvo de publicidade.  Atualmente, pessoas também são “vendidas” com a máscara de marketing humanizado ou de relacionamento. O problema, a meu ver, é a instrumentalização do afeto dos possíveis consumidores/seguidores a partir do uso uma pretensa proximidade.

Nesta perspectiva, muitos têm jogado um jogo narcisista. “Eu finjo que estou interessado em você, mas, na verdade, quero que você me siga.”

“Antigamente” tínhamos os “amigos” no Facebook e a lógica era de reciprocidade.

Agora a regra é conseguir audiência a partir de uma suposta atmosfera de intimidade.

Como já disse, essa aproximação tem sido, muitas vezes, usada de maneira unilateral e se manifesta em um “Eu mereço ser visto”, ou  “Eu mereço ser mais visto e para isso eu preciso me diferenciar pelo número de seguidores.”

Esse jogo gera uma competição perigosa do ponto de vista psicológico, pois atrela o sentimento de auto importância a um número.

Sendo assim, alguém que esteja afetivamente voltado para a busca de “seguidores”, transforma a si mesmo em um objeto também.

Outra ponto crítico, é que pessoas têm sido reduzidas a números… e números que não têm alma.

Não importa que o conteúdo produzido seja interessante e criativo, ou que estejam ocorrendo trocas de saberes e de afeto, pois o que no final das contas importa é o número de seguidores.

“Desalmar” as pessoas têm impactos nefastos.

Permitir ser “desalmado” também.

Por isso, a importância do estranhamento, do questionamento.

Neste tipo de relação, mesmo que chamada de “marketing humanizado”, a fronteira para instrumentalização do outro é tênue.

Fiquemos atentxs.

As redes sociais têm um potencial rico para conectar pessoas, para compartilhar conhecimentos, experiências e, porque não, para promover trabalhos também. Mas, creio que podemos ser mais honestos e transparentes em relação a isso.

Além do mais, esses meios seguem a ética e o tom do que estamos vivendo em termos do não virtual também. Não existem, neste caso, universos paralelos.

O que ocorre é que as redes sociais podem amplificar e fortalecer certas formas de lidar consigo e com o mundo.

Por exemplo, em relação ao narcisismo, não foram as redes sociais que inauguraram este fenômeno. Isso é humano e é importante em algum momento da vida (como fase do desenvolvimento). Mas, pode tornar-se doentio para o indivíduo, ou mesmo apresentar-se como um sintoma de uma sociedade que fomenta o individualismo.

Neste sentido, deixo algumas questões para reflexão:

Que tipo de relacionamento você quer cultivar?

Você acha que a forma de usar as redes sociais não impacta na vida como um todo, pois se limita ao campo virtual?

Que repercussões isso pode causar na sua saúde mental?

Eu fecho este texto com a frase de Bert Hellinger: “As relações saudáveis ocorrem no equilíbrio entre o dar e o receber.”

PS: Das coisa incríveis do Instagram, ter acesso a esta imagem fantástica, poder entrar em contato diretamente com o artista e pedir para usá-la neste artigo. Obrigada, @vertigo.artography Copywrite 2019.

*Juliana Florencio é psicóloga junguiana e arteterapeuta. Recifense de coração, atualmente mora na Alemanha. Realiza atendimentos online. Escreve mensalmente a coluna Caixa de Pandora, neste Portal Flores no Ar.

Whatsapp: +49 15153187019
Instagram/Facebook: @julianaflorencioterapiaonline
Site: www.juliana-florencio.com
E-mail: juflorenciocs@gmail.com

Leave a comment