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[CAIXA DE PANDORA] Meu Currículo Afetivo: uma Jornada pelas imagens do Tarot

Por Juliana Florencio* |

“Tenho procurado em muitos livros,
Tenho estudado as teorias dos astrônomos,
Tenho procurado inumeráveis argumentos.
No entanto não tenho encontrado nada mais poderoso que o destino.”
(Eurípedes)

 

(Re)escrevendo minha trajetória

Escrevi o que chamei de “meu currículo afetivo” para me apresentar profissionalmente de uma forma mais conectada, mais humana. Foi uma tarefa interessante para mim mesma, pois pude perceber a história do meu trabalho como uma costura.

Eu publiquei primeiramente nas minhas redes sociais e recebi comentários muito positivos. Dai me veio uma inquietação, olhando pela perspectiva de uma narrativa, parecia que o caminho tinha sido traçado de maneira auto-determinada e que eu, nos momentos de mudança, tivesse certeza das minhas escolhas, das minhas não-escolhas e dos caminhos seguidos… mas não foi assim. Por isso (re)escrevo esta história.

Começo com esta reflexão. Abaixo segue o “currículo afetivo” original e, ao final, trago as imagens do Tarot para ilustrar minha jornada.


Meu Currículo Afetivo

Meu nome é Juliana. Tenho 41 anos. Sou uma pernambucana de coração, pois nasci em São Paulo.

Me formei como psicóloga na Universidade Federal de Pernambuco em 2002.

Com diploma na mão, trabalhei em uma ONG feminista – Grupo Origem – por quatro anos. Neste período conheci o pensamento de Carl Gustav Jung e comecei a me aproximar deste campo.

Sim! Conheci a psicologia analítica junguiana fora da Universidade. Durante o curso não me sentia a vontade com as abordagens mais estudadas, eu não conseguia me encaixar… Então decidi que trabalharia com psicologia social, por isso meu primeiro trabalho foi com grupos comunitários de mulheres – experiência fantástica que me apresentou a realidade social do Brasil, ao feminismo e ao campo da luta pelos direitos humanos.

Como conheci Jung enquanto atuava numa ONG? Eu era coordenadora de projetos e recrutei duas estagiárias de psicologia que “por um acaso” eram estudiosas do pensamento junguiano. Com a convivência, a partir das nossas conversas, fui me apaixonando…

Com a diminuição do financiamento das ONGs, e na perspectiva de ficar desempregada, comecei uma “vida de concurseira”.

Em 2008 iniciei como servidora pública na Prefeitura da Cidade do Recife, como psicóloga de um CRAS (Centro de Referência da Assistência Social). Assumi em 2009, o cargo de psicóloga no município de Ipojuca. Atuei no ambulatório de Camela como parte da rede SUS. Neste momento pude me dedicar mais (e me apaixonar mais!) pela psicologia clínica.

Passei em concursos na área da psicologia organizacional, pois pagavam melhor. Como não sabia nada da área, comecei um MBA em “Gestão de Pessoas” e desisti na primeira aula, pois percebi que não tinha nada a ver comigo.

Fiz então, de 2012 a 2014, minha formação mais que desejada em Arteterapia (Traços-Faintivisa).

Já estava, neste período, começando com poucas clientes no consultório privado. Pedi exoneração da prefeitura de Recife em 2013 pra me dedicar à psicologia clínica e à arteterapia. Em 2015 sai, também, de Ipojuca para me dedicar ao consultório privado.

Em 2018 me mudei para Alemanha, pois me casei com um alemão.

Neste mesmo ano, o Conselho Federal de Psicologia autorizou a psicoterapia online e agora tenho me dedicado a este tipo de atendimento.

No momento, também, estudo alemão diariamente em uma escola pra estrangeiros.

Bem, isso é um resumo da minha vida profissional.

A vida é grande! A vida flui!

Nunca imaginei que aos 40 anos (re)começaria em outro lugar. É um recomeço sim e, ao mesmo tempo, é o seguimento da construção da minha vida.
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Re(escrevo), agora, minha narrativa profissional, aprofundando-me. Para isso, utilizarei as imagens do Tarot que me ajudarão a contar esta história.

Minha jornada pelas imagens do Tarot

O início da Jornada… Entrando na Floresta

Quando lembro do tempo de estudante de psicologia, recordo-me de uma sensação de não-pertencimento e solidão nada confortáveis. Muitas vezes não entendia o que estava fazendo ali, mas sabia que não podia desistir.

Além do mais, várias coisas aconteciam internamente e fora do ambiente escolar também.

Durante este período, alguns valores que aprendi como inquestionáveis começaram a rachar dentro de mim. Como falei no meu currículo afetivo, também não me encaixava nas visões de mundo apresentadas, o que alargava o sentimento de não pertencer e de solidão. Meu mundo estava cinza e eu estava voltada pra ele.

Ao recordar dessa época, duas cartas me vêm em mente: “O Eremita” e “A Sacerdotisa”… Solidão, isolamento, introversão…

Eu vivia “esse meu dentro” como sombrio e temeroso.

Mas, enfim, me graduei!

A carta “O Pajem de Paus” poderia simbolizar minha trajetória na ONG. Tudo era novo! Profissional formada, rotina de trabalho, tarefas pra entregar, novas pessoas, o movimento de mulheres, as comunidades do Recife, militantes e ativistas de direitos humanos, viagens e ter meu próprio dinheiro. As possibilidades eram muitas.

Eu me transformei e ao mesmo tempo havia o medo: pra onde estas mudanças me levariam? Existia também a culpa, pois desconstruí muito de mim ao rever valores e crenças nos quais fui criada.

Esse sentimento de luto me acompanhou em cada fechamento de ciclo, a cada rompimento, a cada escolha tomada, a cada despedida. Me deparo com a carta “A Morte”. Ela traz esse estarrecimento, difícil de tornar em palavras. A morte nos cala diante de sua inexorabilidade. Esse processo de morrer eu experimentei como períodos de melancolia e que, sim, poderiam ser chamados de depressão.

A minha “fase concurseira” e de funcionária pública, surgiu a partir das dificuldades financeiras e me remete ao “Naipe de Ouros”. Eu precisava garantir minha sobrevivência no mundo material. Foi muito bom perceber as sementes dos estudos darem seus frutos. Como funcionária pública eu dizia para mim mesma “meu patrão é o povo”. Adquiri experiência e também desilusões que, ao final, fizeram crescer em mim um senso de realidade.

Essa vida real, tão “Naipe de Ouros”, muitas vezes, eu experimentei como um choque mesmo: choque de realidade. Percebi que havia situações que eram muito duras de serem transformadas por mais boa vontade e esforços coletivos que tivéssemos.

Os limites das possibilidades da minha atuação foram escancarados e me vi frequentemente impotente, como a carta “O Homem Pendurado”. Tal rotina me levou a uma exaustão. A minha saída dos cargos públicos foi como a carta “A Torre” (fulminada), pois eu não tive muita escolha, devido ao esgotamento mental e emocional.

Ao mesmo tempo que queria me dedicar à psicologia clínica, era difícil abrir mão de um cargo público. Talvez, por esse motivo, eu não tomei posse nos cargos em psicologia organizacional, pois sabia como era difícil desapegar da estabilidade que um emprego público oferece.

Neste momento me deparo com o “8 de Copas”. A fase da triste aceitação do que é preciso abrir mão e deixar ir. Foi um período de introversão e solidão também, pois vivíamos no Brasil o sonho de ser funcionário público. Os sentimentos de culpa reapareceram. Vinham como se eu não estivesse valorizando, ou mesmo sendo ingrata, com o que para muitos seria um ideal de vida e, talvez, tenha sido para mim algum dia também.

Finalmente, realizou-se o que eu tanto queria: dedicar-me à psicologia clínica e à arteterapia no consultório privado.

Enfrentando o Dragão… A Noite Escura da Alma

Então, veio a grande crise no início de 2016.

Olhando hoje, percebo que uma soma de fatores pode ter gerado este colapso: questões da minha vida relacional-afetiva, o esgotamento devido aos processos no trabalho e a “crise do meio da vida” , como diria Jung.

Frustrações, esgotamento, desilusões, culpas, rompimento com sistemas de valores e pessoas, auto-avaliação… tudo isso me levou a minha mais profunda e longa Nigredo. A carta “A Morte” se apresentava de forma quase literal para mim.

Neste período tive que deixar o Brasil para ser cuidada por minha mãe na Alemanha, pois meu quadro estava bastante severo.

Fiquei aproximadamente nove meses afastada da vida. Mortificada.

Este foi o período que o que precisava morrer em mim, realmente estava morrendo.

Como diria Jung, “O que não enfrentamos em nós mesmos acabaremos encontrando como destino.” A hora de enfrentar meu Dragão chegara e não poderia ser adiada.

O risco de morrer literalmente foi real, mas eu sobrevivi e, na verdade, renasci.

Renascimento

Voltei para o Brasil no final de julho de 2017, retornei à clínica. Recomeçando, contando com a ajuda de amigxs e família.

Recomeçada, “re-startada”, sobrevivente e renascida.

Conseguia estar na clínica de uma forma transformada também. O meu “repertório de emoções” – como diria Lopéz-Pedraza – havia se aprimorado da maneira mais profunda.

Minhas prioridades foram também renovadas.  Eu queria estar em um bom relacionamento. Então, este homem – que viria a ser meu marido – apareceu quando eu tinha acabado de voltar para o Brasil. Mas, ele estava em outro continente. Pasmém! Na Alemanha.

O medo de recomeçar já não existia, mas, ao mesmo tempo, não queria abrir mão da psicologia clínica. Foi quando a possibilidade de atender via internet vislumbrou-se para mim.

Hoje encontro-me na Alemanha, atendendo online e estudando alemão.

Sobre a Montanha … Recomeçando a Jornada

Ao escrever este texto pude perceber que passei nove meses mortificada, nove meses no “ventre do grande peixe” – essa é uma imagem utilizada para falar da “noite escura da alma”. Nove meses também é o tempo de uma gestação humana. O ventre como vaso alquímico, como lugar sagrado e incerto do vir-a-ser.

Um ciclo da minha vida se cumpria.

Depois de passar pela “A Morte”, a carta “O Mundo” se apresenta. Ela é a última dos Arcanos Maiores.

A jornada se completa e podemos olhar para esta como se estivéssemos em cima de uma montanha.

Temos a sensação de missão cumprida e, como olhamos do alto, podemos entender e até mesmo contar sobre essa aventura vivida.

De cima da montanha posso enxergar o fio que costurou essa história: a Estrela.

A carta “A Estrela” brilha como um fio dourado de fé e esperança de que o destino se cumpra. Ou, como Jung conceituou, que o processo de individuação – tornar-se si mesmo – se realize.

A “Estrela” é aquela luz no fim do túnel. É a fé em algo maior. É acreditar que nada é à toa e que certas situações, por mais caóticas que pareçam, têm um sentido.

Até hoje não posso explicar porque escolhi o curso de psicologia. Não tenho ninguém na família, nenhuma referência pessoal, nem era conhecedora de nenhuma teoria, além de, até então, nunca ter feito psicoterapia.

Talvez meu Quíron, Sol, Vênus e Mercúrio na Casa 8 me guiaram para isso. Porém, na época do vestibular, eu não conhecia nada de Astrologia.

Também não encontro “razões explicáveis” de ter concluído a graduação, apenas sabia que precisava finalizar.

O meu trabalho de conclusão do curso de Arteterapia foi sobre depressão e eu utilizei o mito de Dioniso e sua jornada. Dioniso passou pelo processo de morte, desmembramento, devoramento pelos Titãs para depois ressuscitar… renascer. De alguma forma, eu estava me preparando para o meu próprio processo de desmembramento, minha Nigredo.

A partir dessas situações aparentemente desconectadas, agora, posso perceber que a intuição pode ser a agulha que promove minhas costuras.

Várixs participantes nutriram essa construção com tecidos ricos e incríveis: o grupo de estudos de astrologia e mitologia, meu processo psicoterapêutico, amigxs, amores, clientes, a formação em arteterapia, a formação em constelação familiar…

A vida segue.

Ao mesmo tempo que o Andrógino, da carta “O Mundo”, alegra-se pela jornada concluída, prepara “O Louco” (o primeiro dos Arcanos Maiores) para o novo caminho, por outros mares e desconhecidas florestas.

Um ciclo se fecha, um ciclo se abre.

Termino essa narrativa com parte da música “Maria Maria” de Milton Nascimento.

“Quem traz no corpo a marca possui a estranha mania de ter fé na vida.”

Toda vez que ouço este trecho,”A Estrela” aparece para mim.

*Juliana Florencio é psicóloga junguiana e arteterapeuta. Recifense de coração, atualmente mora na Alemanha. Realiza atendimentos online. Escreve mensalmente a coluna Caixa de Pandora, neste Portal Flores no Ar.

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